Nova terminologia

Questões unionitárias


      O mundo anda muito depressa. Ainda nem todos os dicionários registam o adjectivo comunitário na acepção de «relativo à Comunidade Europeia» e já é preciso encontrar um que se refira à União Europeia. (O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «comunitário» como «relativo à União Europeia» — mas isso é só uma forma muito imprópria de falar ou futurologia.) O Tratado de Lisboa, ao modificar o Tratado da União Europeia e o Tratado Constitutivo da Comunidade Europeia, trouxe algumas alterações terminológicas. Uma delas, a única que para aqui nos interessa, é a substituição do adjectivo comunitário (e a flexão dele: comunitária, comunitários, comunitárias) por «da União». Apenas permanece a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom) e o seu tratado constitutivo, pelo que, doravante, em rigor, comunitário refere-se somente a esta comunidade. O problema, como afirma Alberto Rivas Yanes («La Unión Europea busca su adjectivo: Estado de la cuestión y propuesta», in Puntycoma, n.º 116, p. 7 e ss.), é que «da União» não vai cobrir todos os usos do adjectivo «comunitário».
      Há vários caminhos, descortina Alberto Rivas Yanes: 1) atribuir a nova acepção a um adjectivo já existente, e o autor refere apenas dois, que também existem na língua portuguesa: unionense e unionista; 2) criar um neologismo a partir da raiz de «união», e aponta (mantenho as designações em espanhol) «unionario», «unional», «unionés», «uniónico», «unionano», «unionero», «unioní» ou «unioneño». Há quem já tenha sugerido, acrescenta, «unitário» (derivado de «unidade» e não de «união) e a original criação «unionitário», que integra um infixo, it, como um eco de «comunitário»; 3) recorrer a formas neológicas criadas com as raízes de «europeu» no início do vocábulo e «união» ou «unidade» no fim: «eur[o]unionário», «eur[o]unionista», «eur[o]unidense», «eur[o]unitário» ou «eunitário»; 4) combinar raízes de «união» e de «europeu» pela ordem em que figura na locução União Europeia: «unieuropeu», «unioeuropeu» ou «unieuropeísta», ou uma variante, que seria usar a sigla UE como elemento compositivo: «ueuropeu». E um último caminho, o primeiro apontado por Alberto Rivas Yanes: manter tudo igual, sem um adjectivo específico, e consolidar, em contextos informais ou jornalísticos, o uso do adjectivo «europeu» com o significado de «relativo à União Europeia». Este é o caminho mais fácil e conservador, digamos, pois semelhantemente o adjectivo americano não se refere apenas à América, mas também aos Estados Unidos da América.

[Post 3233]

Islão/islão

Respeitem as suas próprias regras


      «O xeque Tantawi não era apenas a figura tutelar da maior e mais antiga escola islâmica em todo o mundo, mas também um dos religiosos mais influentes do islão. Foi grande mufti do Cairo e era responsável máximo pela Mesquita Al-Azhar, na capital egípcia, que gere uma universidade com mais de mil anos» («Voz moderada do islão sunita evitou a radicalização egípcia», Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 45).
      Apesar, como já aqui vimos, de uma prática diversa, a verdade é que os dicionários e as gramáticas registam os nomes das religiões com inicial minúscula, e assim também islão. Contudo, há quem grafe com maiúscula inicial quando a acepção é a de conjunto dos países muçulmanos. Umas linhas à frente, lê-se no artigo acima citado: «Num contexto em que a religião tem enorme importância, o xeque Tantawi representava a corrente do Islão político que procurava uma acomodação com o poder secular.» A prática, afirmei, é diversa — mas não deve ser arbitrária. No caso, a minha interpretação, se também seguisse a distinção que explanei, seria precisamente ao contrário: a primeira ocorrência grafá-la-ia com inicial maiúscula e a segunda, com minúscula. Gostava de saber o que pensam os meus leitores sobre esta questão.

[Post 3232]

Léxico: «entalpia»

Calores


      «Energia geotérmica é a energia disponível como calor emitido do interior da crosta terrestre, geralmente sob a forma de água quente ou de vapor. A geotermia de alta entalpia é normalmente utilizada para a produção de electricidade e a de baixa entalpia apenas para a produção de calor», acabei de ler. Cá está, pelo menos para mim, um termo novo: entalpia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta o respectivo verbete com três acepções: no âmbito da Física e da Química, características de um sistema termodinâmico que é a soma da energia interna e do produto da pressão pelo volume; conteúdo calorífico e calor total. O Dicionário Houaiss só apresenta uma acepção, mas, em compensação, regista locuções: entalpia de fusão, entalpia de sublimação, entalpia de vaporização e entalpia livre. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é «palavra reconhecida pelo FLiP mas sem definição no dicionário». O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado também não regista o vocábulo.

[Post 3231]

Escoteiro/escuteiro

Por escote


      «O fundador do movimento internacional de escoteiros, Robert Baden-Powell, foi convidado a encontrar-se com Hitler para estabelecer ligações entre o seu movimento e as Juventudes Hitlerianas, segundo documentos desclassificados pela secreta inglesa (MI5)» («Baden-Powell convidado para reunião com Hitler», Global Notícias, 10.3.2010, p. 7).
      Afinal, parece que Baden-Powell apenas tomou chá (no País das Maravilhas bebe-se muito chá) com Hartmann Lauterbacher (1909-1988), chefe de Estado-Maior das Juventudes Hitlerianas. O que me interessa, porém, é o vocábulo escoteiro. É conhecida a questão em torno de escoteiro/escuteiro.
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, escoteiro é apenas aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote (quota individual para uma despesa comum) nas estalagens, e pioneiro, ao passo que escuteiro é o indivíduo pertencente a uma associação praticante do escutismo. Já para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, trata-se de variantes gráficas homófonas. De maneira geral, na acepção de indivíduo pertencente ao movimento criado pelo militar inglês Robert Stephenson Smyth Baden-Powell (1857-1941), há um relativo consenso sobre a variante escoteiro ser mais usada no Brasil, onde se considera lusismo a variante escuteiro.
      Ainda assim, entre nós, a distinção entre escoteiro e escuteiro faz-se: usa-se o primeiro para designar os membros da Associação de Escoteiros de Portugal (AEP), movimento que se diz «independente, interconfessional e multiétnico», e os membros do Corpo Nacional de Escutas (CNE), que é um movimento da Igreja Católica. A meu ver, só há um problema: os dicionários não acolherem esta distinção.

[Post 3230]

Sobre «Bosquímanos»

Comedores de peixe


      Muito me surpreende que nestes tempos de hipocrisia e do politicamente correcto os jornais ainda continuem a usar a designação Bosquímano (e todas as variantes: Bosquimanos, Bosquímanes, Boxímanes, Boximanes, Boxímanos, Boximanos...), com etimologia no africânder (ou africâner) boschjesman, este derivado do holandês bosjesman, «homem da floresta». Daí o Bushman dos Ingleses. O texto que acabei de rever dizia: «Na mais escondida África, no profundo deserto do Calaári, vive um povo peculiar, que nos idos anos de 1980 foi retratado num filme inesquecível [Os Deuses Devem Estar Loucos]. São os Bosquímanos. As filmagens realizaram-se nas paisagens do Botsuana, um dos novos países prósperos da África Austral.» Lembro-me sempre dos Esquimós, palavra que vem do algonquino e que de vez em quando nos querem desabituar de usar — por ser ofensiva, dizem. Digam Inuítes, recomendam-nos paternalmente.

[Post 3229]

Pronomes de tratamento

Eu também fico


      Rapto na Escola Primária (The Priory School, no original), com tradução de Florinda Lopes. Lorde Saltire, filho do duque de Holdernesse, foi raptado da Escola Priory. Sherlock Holmes é contratado pelo director da escola, o Dr. Huxtable. Sherlock Holmes estranha que o director só passados três dias do rapto o contacte. «Sua Graça fica horrorizada com a ideia de a infelicidade da família ser exposta em praça pública», responde Huxtable, que não sabe português (e não é aqui o único). Primeiro, a forma de tratamento de um duque é Vossa/Sua Alteza (Your/His Grace, em inglês). Segundo, com pronomes de tratamento, e é a segunda vez que aqui o escrevo, dá-se sempre a silepse de género: Vossa Senhoria é estúpido. Vossa Excelência é mau. Vossa Majestade é um bom avaliador. Vossa Alteza é muito bondoso. Sua Alteza fica horrorizado.

[Post 3228]

«Empenhativo»: sim ou não?

São Google


      Tive de rever um texto em que se falava do 47.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a celebrar a 25 de Abril próximo, IV Domingo de Páscoa. Citava-se nele um excerto da mensagem papal para este dia: «O testemunho pessoal, feito de opções existenciais e concretas, há-de encorajar, por sua vez, os jovens a tomarem decisões empenhativas que envolvem o próprio futuro.» Nunca tinha visto a palavra «empenhativo», pelo que fui pesquisar. Nada. Por precaução, um pouco escusada no caso, consultei o sítio do Vaticano. Não sei se as mensagens são originalmente redigidas em língua italiana e só depois traduzidas para as outras línguas, mas suponho que sim, e encontro aqui a explicação para a tradução. Em italiano, a frase é: «La testimonianza personale, fatta di scelte esistenziali e concrete, incoraggerà i giovani a prendere decisioni impegnative, a loro volta, che investono il proprio futuro.» Em francês: «Le témoignage personnel, fait de choix existentiels et concrets, encouragera les jeunes à prendre, à leur tour, des décisions exigeantes qui engagent leur avenir.» Em espanhol: «El testimonio personal, hecho de elecciones existenciales y concretas, animará a los jóvenes a tomar decisiones comprometidas que determinen su futuro.» Em alemão: «Das persönliche Zeugnis, das aus konkreten Lebensentscheidungen besteht, wird die Jugendlichen ermutigen, ihrerseits anspruchsvolle Entscheidungen über die eigene Zukunft zu treffen.» Em polonês, perdão, polaco: «Osobiste świadectwo, oparte na konkretnych decyzjach życiowych, dodaje młodym odwagi, by także oni zdobyli się na decyzje wymagające zaangażowania na całą przyszłość.» Em inglês: «Personal witness, in the form of concrete existential choices, will encourage young people for their part to make demanding decisions affecting their future.»
      Em 2007, uma consulente do Ciberdúvidas, advogada e tradutora (a vida está má), queria saber se podia usar a palavra. Ou melhor, como ela explica, precisava de a usar... «Preciso de usar a palavra “empenhativo” numa tradução para português; a mim parece-me correcta, mas, por segurança e como de costume, verifico pelo Google se é frequente ou não a utilização da palavra. Desta vez encontrei muito poucas utilizações de “empenhativo” e, por isso, me veio a dúvida. Podem por favor esclarecer se está correcta?» É um método nada científico, mas cada um tem os seus. Fiz a busca e o Google devolveu-me 2300 ocorrências. A verdade é que, seja qual for o disparate, está na Internet. Vamos fiar-nos no número de ocorrências? Por outro lado, quantas ocorrências é necessário registar para acolhermos os novos vocábulos? Coincidência ou não, algumas ocorrências são de sítios de instituições religiosas.

[Post 3227]

Léxico: «imprimadura»

Primeira demão


      O Dicionário Houaiss di-lo registado pela primeira vez na língua portuguesa em 1767, mas não fique triste, caro leitor, cheguei a tempo: «O resto eram traços a carvão, simples linhas pretas esboçadas sobre a imprimadura branca da parede» (O Pintor de Batalhas, Arturo Pérez-Reverte. Tradução de Helena Pitta. Porto: Edições Asa, 2.ª ed., 2008, p. 9). Usado no âmbito das artes plásticas, imprimadura é o acto ou efeito de imprimar e a primeira demão de tinta em tela, madeira, etc.

[Post 3226]

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