Anglicismos e etc.

Português na Quinta Vigia


      Vi Alberto João Jardim na Grande Entrevista com Judite de Sousa. Alguns momentos baixos: «O gabinete de operações está aqui na Quinta Vigia [residência oficial do presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira], eu comando aqui as operações, obviamente com grande suporte da Protecção Civil.» Nesta acepção, suporte é anglicismo. Qual é a dimensão exacta dos prejuízos? «Nas contas do Governo, vamos já em mil milhões de euros, e para cima.» Isso é muito dinheiro. «Eu penso que vamos ir a uma coisa paradoxal: o volume, o custo, igual ao que é o orçamento anual da Região Autónoma.» Ou seja? «O orçamento anual da Região Autónoma é um bilião e meio de euros.» «O Sr. Dr. carrega essa mágoa de não ter tido uma vaga de fundo, nomeadamente há dois anos, para que o seu nome pudesse ser lançado?» Vaga de fundo é uma metáfora, muito do agrado da nova classe política, e, como se vê, de alguns jornalistas, que muito poucos telespectadores entenderão.

[Post 3185]

Acertos e erros na televisão

Pobres criancinhas


      Quase um terço das crianças portuguesas, soube-se ontem com a divulgação de um estudo da Deco, passa mais de nove horas por dia nas creches e a esmagadora maioria ocupa parte do tempo a ver televisão em jardins-de-infância. E mais: 27 por cento de pais com filhos entre 1 e 2 anos (creches) e 10 por cento com crianças nos jardins-de-infância (entre 3 e 5 anos) afirmam que gostariam que as instituições abrissem ao sábado. Em vez de empregados, as instituições têm televisões. Ainda há poucos minutos, no canal Disney, passava um episódio da série de desenhos animados A Nova Escola do Imperador. Uma das personagens (Kronk?) dizia: «Foi o tipo que nos deteu.»

[Post 3184]

Acertos e erros na televisão

Não é mais, não


      No programa de hoje, o apresentador do concurso Falaescreveacertaganha quis saber porque é que uma equipa que frequenta o Colégio de Gaia tinha o nome Bijagós. «Desculpem, mas não resisto. Em relação ao nome Bijagós. Porquê o nome Bijagós?» «Porque a professora... Os Bijagós são uma raça de negros que vêm da Guiné, e a professora...» «Os Bijagós são até mais aqueles ilhéus e aquelas ilhas ali na Guiné-Bissau. Mas sim, diz.» «... e a professora costuma chamar-nos isso muito nas aulas.» «Eu imagino porquê.» (Não perpassa por aqui uma sugestão de racismo?) Vejamos. Se Bijagós designa tanto o povo autóctone que habita o arquipélago de Bijagós, na Guiné-Bissau, como o próprio arquipélago, porque é que é mais este? Na verdade, inicialmente era só etnónimo.

[Post 3183]

Acertos e erros na televisão

Divertido ou perverso?


      «Qual é o feminino de comboio?», perguntou ontem o apresentador do concurso Falaescreveacertaganha. Só por pura perversidade se pode fazer uma pergunta destas a uma criança de 10 anos. E para quê? Sara, da equipa Rápidos e Ladinos, ficou embasbacada. Porque não se metem com crescidos, como eu, por exemplo? Na prova «Ler É Aprender», o apresentador disse: «O João [João Castro, actor que integrava, na altura, o elenco da peça Breve Sumário da História de Deus, no Teatro Nacional D. Maria II] vai ser quem nos vai ajudar a avaliar a prestação dos dois elementos, que penso que nesta altura já estarão escolhidos e destacados por cada uma das equipas para ler.» É este «o programa que mima a língua portuguesa»? Vá Pedro Castro por esse País fora e teste se as pessoas conhecem essa infeliz acepção do vocábulo «prestação». E deixe-se de colocações: «Coloca a frase “É para já!” no plural.» É ridículo.

[Post 3182]

Outra acepção ignorada

Casa grande, sim, mas...


      «O vento forte provocou ainda o desmoronamento de um casão agrícola, destelhou dois anexos e destruiu cercas nas herdades da Granja e Azinhal, que se estendem pelos concelhos de Nisa e Crato, no distrito de Portalegre» («Vento derruba azinheiras centenárias», Global Notícias, 24.2.2010, p. 4).
      Julgo que nenhum dicionário regista a acepção usada na frase. É sinónimo de barracão, mais ou menos o galpão brasileiro.

[Post 3181]

Acertos e erros na televisão

Contesto

      Ontem vi o novo concurso sobre a língua portuguesa que passa na RTP 2. Sabem que nome tem? Preparem-se... Falaescreveacertaganha. No sítio da RTP, o programa é assim apresentado: «É um jogo a pensar nas meninas e nos meninos do 5.º e do 6.º ano e na terceira geração de luso-descendentes. Todos os dias, duas equipas de concorrentes vão responder a perguntas sobre gramática e ortografia, vão escrever textos, soletrar palavras, corrigir erros, ler e interpretar. A brincar também se aprende.»
      Numa das rubricas ou provas, «Português à vez», surgiu esta pergunta: «Na frase “Vamos a votos!” em que tempo e modo está o verbo?» Pedro, da equipa Gonçalinhos, respondeu: «Modo indicativo, presente do indicativo.» E Pedro Castro, o apresentador, disse: «A resposta está correcta.» Não está. A forma verbal usada na frase (que é também o título da obra que serviu para as perguntas, da autoria de José Jorge Letria e publicado pela Texto Editores) está no modo imperativo. Se os dicionários de verbos mais antigos só referiam as formas vai e ide (e Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, escreveram que o «imperativo afirmativo possui formas próprias somente para as segundas pessoas do singular e do plural (sujeito tu e vós). As demais pessoas são expressas pelas formas correspondentes do presente do conjuntivo»), os mais recentes já indicam que as formas do imperativo são vai, vá, vamos, ide, vão.
      E dizia o apresentador, no início, que é «o programa que mima a língua portuguesa»... Embora com uma nota de arrogância, recomendou: «Façam um favor: não hesitem em corrigir, mesmo a mim, se for o caso, que não será.» Não foi o único erro. Na pergunta em que se pedia que os concorrentes passassem uma frase para o discurso indirecto, o concorrente, também dos Gonçalinhos, respondeu incorrectamente e o apresentador considerou-a correcta. Ou seja, pelo menos 20 pontos foram atribuídos indevidamente a esta equipa. O apresentador despediu-se da equipa derrotada com esta frase infeliz: «Mas não fiquem tristes, porque, muito contra a minha vontade, é certo, também vocês vão ganhar o livre acesso à Infopédia
[Post 3180]

Disparates na televisão

Que deterge ou limpa


      Ontem, no Jornal das 7 da Sic Notícias, a propósito do maior cão do mundo, um grand danois, a jornalista disse que o cão «até tem um site pessoal». Na RTP 1, numa reportagem para o Telejornal, Judite de Sousa, que estava no supermercado do Centro Comercial Anadia, no Funchal, falou em «detergentes de limpeza».

[Post 3179]

Ortografia: «secretário executivo»

Espera aí


      Podia ler-se: «O secretário-executivo da Convenção da ONU para as Alterações Climáticas (CNUAC), o holandês Yvo de Boer, renunciou à função e deixará o cargo no início de Julho.» A fúria hifenizadora não pára. A propósito do uso do hífen quando o adjectivo geral entra na formação de uma palavra composta que designa cargo, função, lugar de trabalho ou órgão correspondente, como directoria-geral, secretário-geral, procurador-geral, o Manual de Redação da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) aconselha: «Não se deve usar o mesmo procedimento para consultor jurídico, assessor jurídico, pois se passaria, do mesmo modo, a empregar hífen em professor adjunto, professor catedrático, professor horista, secretário executivo, gerente financeiro, gerente econômico, Gerência Financeira, etc.»

[Post 3178]

Arquivo do blogue