O audacioso «acordo ortográfico»

O pouco e mal que escrevem

      «Só que os portugueses, quando não conseguem pagar as contas, pensam imediatamente em conquistar um império, de preferência o império que perderam. E, como são modestos, pensaram logo no Brasil. O nosso alto comando congeminou logo uma estratégia irresistível: importar para Portugal a ortografia brasileira. No momento em que os portugueses escrevessem (o pouco e mal que escrevem) sem consoantes mudas, o Brasil não podia deixar de se render, com uma saudade arrependida e desculpas rasteiras. Mas, como a humanidade é má, em particular no hemisfério sul, o Brasil terminantemente recusou o nosso audacioso “acordo ortográfico” e deixou Portugal sem consoantes mudas, pendurado numa fantasia ridícula e sem a menor ideia de como vai sair deste sarilho: um estado, de resto, habitual» («Histórias portuguesas», Vasco Pulido Valente, Público, 11.01.2013, p. 52).
[Texto 2499]
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Podem escrever: «subestrutura»

Ora, está mal

      Querem então mais uma incoerência (lacuna, erro...) encontrada nos dicionários? Seja no de sempre. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «substrutura», mas não «subestrutura», ao passo que acolhe o par «superestrutura/superstrutura».
[Texto 2498]
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Acordo Ortográfico II

Alguém com juízo

      «A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai continuar a redigir os seus documentos e a sua comunicação de acordo com a norma ortográfica antiga, recusando-se a implementar já as disposições do Acordo Ortográfico (AO). [...] Este polémico dossier teve, esta semana, mais um desenvolvimento na AR, com a aprovação, por unanimidade, na terça-feira, da criação de um Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do AO, sob proposta do deputado comunista Miguel Tiago» («SPA não adoptará o Acordo Ortográfico», Sérgio C. Andrade, Público, 10.01.2013, p. 27).
[Texto 2497]
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Acordo Ortográfico

Corrijamos a monstruosidade

      Eis o último parágrafo do texto de Maria Alzira Seixo hoje no Público a propósito do Acordo Ortográfico de 1990: «É tempo, é ainda tempo! Se saber escrever foi, até hoje, caminho para pensar melhor, com o Acordo Ortográfico pôr-se-ia em prática a máxima ideal para Governos opressores ante os cidadãos que governam: quanto mais analfabetos, melhor... Ora isto não se compadece com um passado de Abril, e se alguém sai beneficiado não é, pela certa, o cidadão, nem a cultura, nem a política — pelo menos a de espinha direita! Saúde-se, pois, o baque de consciência de Evanildo Bechara, e a hora feliz em que Dilma Rousseff atalhou: “Alto! e pára o baile” — em vez de “para o baile”, como quer o Acordo, que tira o acento a “pára” assimilando-o a “para”, confundindo movimento com inacção, numa simbólica emblemática dos seus confusos objectivos. Contra esta confusão do entendimento, corrijamos de vez a monstruosidade que nos sai tão cara: em dinheiro que não temos, e no saber que é nosso, e alguns se interessam em destruir» («O Acordo Obscurantista», Maria Alzira Seixo, Público, 10.01.2013, p. 47).

[Texto 2496]
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Sobre «supposed»

Não desta vez

      «It wasn’t supposed to get serious between us», lia-se no original. «A nossa relação não era para ser nada de sério», verteu o tradutor. Vai sendo relativamente raro podermos ler coisas assim. O «ser suposto» veio para ficar, quem sabe se para sempre, se é que há alguma coisa («na puta da vida», acrescentaria A. B., que, mesmo milionaríssimo, morreu com menos de 50 anos) para sempre. Desta vez, contudo, perdeu.

[Texto 2495]
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Léxico: «caveado»

Bem aviados, isso sim

      «You were wearing a tank top», dizia-lhe ele, nostálgico. «Tu trazias uma camisola de manga caveada», verteu o tradutor. E, de facto, tank, para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, é a camisola sem mangas, camisola caveada. O pior é que, quando vamos ver o verbete «caveado», o mais próximo que encontramos é... «aveado»: que tem veia de doido; telhudo.

[Texto 2494]
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Léxico: «latissolo»

Incongruência

      O autor falava em latissolo, e eu fui consultar, como me competia, o dicionário. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, só conhece latossolo: «solo geralmente profundo, de cor vermelha ou vermelho-amarelada, rico em ferro e alumina, encontrado em florestas tropicais, num clima húmido e de temperaturas altas». Nem quero saber se regista argissolo, cambissolo, chernossolo, fluvissolo, luvissolo, neossolo, plintossolo, vertissolo...
[Texto 2493]
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Sobre «hiperventilar»

Só transitivo

      Está aqui uma personagem antipática a hiperventilar. «Oh, my God.» Ela «started hyperventilating». No entanto, se para os dicionários de língua inglesa hyperventilate é «to breathe in this manner [abnormally fast or deeply] as from excitement or anxiety», para os nossos é apenas «fornecer ar ou oxigénio em quantidade excessiva a».
[Texto 2492]
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«Reboliço/rebuliço»

Há-de continuar a ser

      «Surpreendidos? Também nós. Brad Pitt não é um adepto das redes sociais e não tem conta no Facebook, nem utiliza o Twitter. Mas desde segunda-feira pode encontrá-lo na rede de microblogging chinesa Weibo. A mensagem: “It is truth. Yup, I’m coming.” (“É verdade. Sim, estou a chegar.”) Foi um reboliço. Reenviada milhares de vezes, obteve mais de 20 mil respostas em pouco tempo. A conta do actor na Weibo tem já mais de 175 mil seguidores, mas ainda está longe de Emma Watson — mais de 470 mil seguidores na mesma rede» («Facebook ou Twitter? Não, Pitt está no Weibo», Público, 9.01.2013, p. 39).
      Certa vez, Montexto comentou no Assim Mesmo que no Aulete Digital se encontrava a informação de que «reboliço» e «rebuliço» são variantes. E é verdade, como também é verdade que o verbete actualizado daquele dicionário não reproduz toda a informação do verbete original, e compreende-se porquê, embora a abonação seja do mesmo autor. No verbete original, está a informação de que «reboliço» como variante de «rebuliço» é brasileirismo. Com certeza que não deixou de o ser.
[Texto 2491]
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Tradução: «in house lawyer»

Da casa, mas não a nossa

      Este aqui insiste em identificar-se como «advogado in-house» (ou in house ou inhouse...) e, por isso, acabei de sugerir ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «lawyer» do Dicionário Inglês-Português inclua a expressão in house lawyer e a tradução: advogado de empresa. Talvez se possa também traduzir por «advogado interno».
[Texto 2490]
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Sobre «rotundo»

Vão ver que não

      Há sempre uma primeira vez: um autor português escreve aqui «um rotundo sim». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rotundo» é somente redondo e, em sentido figurado, gordo, obeso. Não chega, não explica nada. Já para o Dicionário Houaiss, «rotundo» é, além de, em sentido próprio, redondo, esférico; em forma de círculo, circular, em sentido figurado é o que soluciona, decide; que encerra uma questão, uma pendência; decisivo, categórico, peremptório. Claro que o sim também pode ser quase tudo isto, não me parece é que possa ser rotundo. Posso estar enganado (como hoje quando enfiei pela Sousa Loureiro quando queria ir para a Barjona de Freitas), mas este «rotundo» vem da forma como fica a boca ao pronunciar a palavra «não». Rotunda, redonda, aberta, hiante. Experimentem agora pronunciar a palavra «sim» da mesma maneira para ver se são capazes. Ridículo.
[Texto 2489]
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Acordo Ortográfico

Portugal, 2016

      «Em 2016, eis um cenário muito possível: Angola manterá a ortografia existente anterior ao “Acordo”. Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre “acordês”. E o Brasil terá entretanto revisto e certamente “melhorado” o “Acordo”, escrevendo numa terceira ortografia. Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira, e ter-se-á esfrangalhado a ortografia comum que, até agora, era seguida por todos os países lusófonos, com excepção do Brasil. Ou seja: será um verdadeiro “acordo português”, em que ninguém sabe acordar» («Nem gregos nem troianos: assim-assim», Helena Buescu, Público, 8.01.2013, p. 47).
[Texto 2488]
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«Em linha»

Está quase

      «A página original, reproduzida na Vanity Fair, dizia: “Esta é a terceira nomeação de Sharen Davis, que tinha sido anteriormente nomeada por Dreamgirls (2006) e Ray (2004)”. A página esteve pouco tempo em linha (na sexta-feira, dia 4) e foi substituída por um inócuo anúncio a lembrar que “as nomeações serão anunciadas no dia 10 de Janeiro de 2013”. [...] Se não parece haver dúvidas de que a página que chamou a atenção da Vanity Fair foi colocada em linha por erro, é já bastante menos claro que se deva concluir que Davis será mesmo nomeada. Uma fonte da Academia de Hollywood citada pela revista online Atlantic Wire explica que são criadas páginas para “todos os possíveis nomeados”, e que o aconteceu [sic] é que uma delas foi colocada em linha por engano. E há um bom argumento em favor desta explicação: problemas no sistema informático usado na recolha de votos para as nomeações levaram a Academia a prolongar o prazo de votação, que só terminou no dia 5, ou seja, já depois de a suposta fuga de informação ter estado em linha» («Academia de Hollywood deixou escapar nomeação de estilista?», Público, 7.01.2013, p. 48).
[Texto 2487]
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«Arriar a bandeira»

Só calhou a vez ao calhau

      No dia 10 do mês passado, sugeri ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «arriar» incluísse a locução arriar a bandeira. É que o Dicionário da Língua Portuguesa acolhe outra locução — e menos usada, convenhamos: arriar o calhau. Até agora, nada. Entretanto, continuo a ver todas as semanas a calinada «arrear a bandeira». Todas as semanas, há meses.
[Texto 2486]
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