Ortografia: «homem-forte»

Assim mesmo

      «Agora, a filha de 29 anos do magnata Silvio Berlusconi é a ponta de lança no afastamento do CEO e vice-presidente dos rossoneri, 40 anos mais velho e homem-forte do antigo primeiro-ministro e magnata italiano durante a ascensão do clube milanês ao topo europeu» («Berlusconi entrega Milan nas mãos da filha Barbara», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 37).
      Em 2010, terminava desta forma um texto no Assim Mesmo: «E justifica-se o hífen neste caso? Não configura um sentido diferente da simples adjunção dos vocábulos “homem” e “forte”? Como entre “braço-direito” e “braço direito”. Está aí a resposta.» Chegou a hora: por sugestão minha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe agora o vocábulo composto homem-forte: «indivíduo que detém poder real e desempenha uma função de topo no meio em que se move».
[Texto 3599]
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Ortografia: «livre-arbítrio»

E talvez não

      «Grande parte da sua base social de apoio indignou-se e aqueles que procuraram manter uma atitude compreensiva recorreram ao argumento da necessidade. Uma tal opção não poderia ser o resultado do exercício autónomo do livre arbítrio de um governante socialista, mas sim a consequência inelutável de uma posição exterior à sua própria vontade. Só um contexto de profunda fragilidade política poderia justificar uma tal abjuração de natureza programática» («Portugal precisa de uma alternativa séria e rigorosa», Francisco Assis, Público, 28.11.2013, p. 50).
      É muito comum ver-se mal grafado o vocábulo «livre-arbítrio», mesmo em obras revistas. Contudo, Francisco Assis, licenciado em Filosofia e professor, há-de ter lido a palavra mais vezes do que muitos de nós. Está nos dicionários, embora não seja sem alguma surpresa que confirmo não estar registada no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.
[Texto 3598]
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«Badamecos do MEC»

É assim que se fala?

      «Esta prova [prova de avaliação de conhecimentos e capacidades], depois de se conhecer a matriz divulgada, deixou de ser apenas uma iniquidade para também passar a ter de se considerar uma idiotice chapada. Percebe-se que Grancho precise de um qualquer argumento para justificar a tal coisa a que dá o nome de ordem, que é reclamada pela sua associação; percebe-se que o funcionário das finanças que dirige o MEC necessite de um argumento para afastar mais professores do emprego, afastando-os da própria profissão. Mas o que também toda a gente percebe é que os docentes que estão devidamente habilitados científica e profissionalmente, que são avaliados anualmente, que obtêm menções de Bom e superior, que veem renovados os seus contratos por reconhecimento da qualidade do seu trabalho, não têm de provar nada aos badamecos do MEC, ou seja a quem for» («Professores provam todos os dias o que valem!», Mário Nogueira, Público, 28.11.2013, p. 51).
[Texto 3597]
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Léxico: «bandana»

O pipi de Eliza Doolittle

      «O Henry [Holland]», diz Eliza Doolittle, «é mais que um estilista, é um criador. Ele foi pioneiro nas coleções com bandanas. E foi incrível» («“Não mostro mamilos nem o pipi”», Metro, 26.11.2013, p. 8).
      Outra novidade: bandana. É, pode ler-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o «lenço colocado à volta da cabeça, passando pela testa, que é utilizado como adorno». A minha filha usou algumas durante o Verão, mas a mãe dizia que eram fitas e, para mim, eram lenços. Vem do francês. Quanto a Eliza Doolittle, será que ela disse mesmo o equivalente a «pipi»? Li que disse: «My rule is no nipples, no nunny.» Eu até pensava que se escrevia «nanny», como já tenho lido.
[Texto 3596]
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«Torá» ou «Tora»?

Vendo bem

      «Mais tarde, os rabinos e outros eruditos judaicos criticaram os cristãos por usarem livros em códice (ou seja, com cadernos de folhas coladas e uma lombada, como os nossos livros modernos) em vez de usarem livros em rolo. A razão da crítica era que os padres da nova igreja podiam comparar facilmente o que se passava no primeiro e no último livro da Torá, pois bastava saltar de uma página para a outra, coisa que era muito difícil num rolo, por ser necessário enrolar e desenrolar de novo. Os sábios da religião antiga eram por isso submetidos a exercícios de memorização que os adeptos da nova religião poderiam evitar, e por isso os primeiros criticavam os segundos em termos semelhantes ao que usam as pessoas que fazem cálculos de cabeça (ou no papel) em relação às que recorrem à calculadora no telemóvel» («Tela ou janela?», Rui Tavares, Público, 27.11.2013, p. 54).
      Parece coisa simples, mas se soubessem o que é preciso para convencer os autores portugueses a não usarem Torah... Torá é também como eu escrevo, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e não é o único, regista Tora. No que procederá bem, pois também Rebelo Gonçalves é assim que grafa. Na verdade, assim: Tora. Com uma variante, Toura, que se lê, por exemplo, nas Lendas e Narrativas, de Herculano.
[Texto 3595]
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Em todas as línguas

O que é que o nariz

      Por onde quer que passemos, vemos a língua desvirtuada. Mesmo quando não é a nossa, incomoda. Agora mesmo, vi, ao fundo da minha rua, na parede exterior de um cabeleireiro destes finos que pululam agora (é da crise), um autocolante que anunciava «bruschings» a 54 euros. Ontem, a minha mulher comprou um par de meias-calças (colãs, se insistirem) para a minha filha. Não numa dessas retrosarias que havia e agora não há em todas as ruas aqui em Benfica, mas numa loja de chineses. Na etiqueta (ah, sim, têm etiqueta), lia-se «fashion pantynose».
[Texto 3594]
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Da importância das marginálias

E vamos tentando

      «Apesar de não ser muito usado, este volume [dos Lusíadas, depositado no Harry Ransom Center (HRC)] pode ser de extrema valia para várias áreas de investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke, professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma “evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke defende que as marginálias expressam o que o leitor considera importante, aprova ou desaprova numa leitura» («Camões no Texas», Cláudia Silva, Público, 27.11.2013, p. 33).
      É melhor continuarmos a fazer anotações nas margens dos livros que lemos, e quem sabe se a História não nos lembra daqui a uns séculos, como aconteceu com frei Joseph Índio, carmelita descalço que pode ter assistido Camões no leito de morte e que terá ficado com o exemplar dos Lusíadas que pertencia ao poeta. Claro que também se pode, não da mesma forma decerto, anotar um livro electrónico, mas não é o mesmo. Eu, por exemplo, que leio centenas de textos em PDF, não sou capaz de ler um livro electrónico. Começo, mas desisto. Quero interessar-me, mas desinteresso-me. A última vez foi com o Colecionador de Erva, de Francisco José Viegas. Tive de comprar um exemplar físico, de papel. Talvez me esteja a fazer falta um Kindle.
[Texto 3593]
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Sobre «ob-reptício»

Li e não gostei

      «Sintomático é que a presidente da Associação de Professores de Português tenha, a priori, o capcioso argumento, típico dos ob-reptícios: dizer que com estas metas regredimos vinte anos... Não, minha senhora. Veja bem: o professor não fica dentro dum espartilho com este programa — liberta-se é dum programa que, admitido em 2001, terá, em 2015 (quando este Novo Programa vigorar), mais de uma década de leccionação. O resultado qual foi? Média nacional de 8,9 no secundário e uma iliteracia nefanda. Eis o resultado. Para quem, como Edviges Ferreira, tem sempre a posição do “não li e não gostei”, estas metas colocam um problema óbvio: o professor terá de ler e terá de saber como ensinar a ler e a escrever. Terá de ler literatura e ensaio sobre obras da nossa cultura (e não só...) e terá de saber articular o discurso literário com História e a Filosofia, com Música e as Artes... É chato. Dá trabalho. Mas os alunos agradecem. Merecem. E o país também» («Verdades sobre o ensino do Português: metas curriculares e não só», António Carlos Cortez, Público, 27.11.2013, p. 50).
      Digamos que o uso de «ob-reptício» — obtido por ob-repção; doloso, fraudulento — é um tanto inusitado.
[Texto 3592]
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«Genograma»?

E «árvore genealógica»?

      Vejam o que pedem às criancinhas de 5 e 6 anos: «Desenha o rosto dos teus familiares no genograma, de acordo com as legendas, ou então cola fotografias» (Estudo do Meio – Alfa, 1.º ano, Eva Lima et al. Porto: Porto Editora, 2013).
      Em 2005, Tavares Louro, no Ciberdúvidas, dizia sobre esta palavra: «Consultados vários dicionários da língua portuguesa, da língua francesa e da língua inglesa, não encontrámos registo da palavra “genograma” nem equivalente nas línguas estrangeiras referidas.» Pois agora, passados estes anos, todos os caminhos vão dar à língua inglesa. Esta acepção está em poucos dicionários. O Merriam Webster regista: «a diagram outlining the history of the behavior patterns (as of divorce, abortion, or suicide) of a family over several generations; also: a similar diagram detailing the medical history of a family in order to assess a family member’s risk of developing disease».
[Texto 3591]
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Léxico: «estrafega»

«Acto de estrafegar»...

      «“Acho que há muito tempo que não me enervava tanto”, diz ao PÚBLICO o Nuno Markl, que conseguiu bilhetes para dois dias do espectáculo: o primeiro e o último. “Às tantas éramos três pessoas em três computadores, em três sítios diferentes, todos na mesma demanda: o Bruno Nogueira, o Rui Lourenço (responsável pela gestão das redes sociais da Rádio Comercial) e eu, numa estrafega a ver quem conseguia primeiro”, continua o humorista, que vê nos britânicos uma grande influência, ou como diz: “São parte do cocktail que me fez amar a comédia para a vida”. “Nunca fui tão fã de ninguém como deles. Devo-lhes a devoção de os ir ver, nem que viessem os cinco acamados ou com próteses nas ancas”» («E em 43,5 segundos esgotaram-se os bilhetes para os Monty Python», Cláudia Carvalho, Público, 26.11.2013, p. 36).
      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira é muito mais claro: «luta, braço a braço».
[Texto 3590]
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Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]
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«Checks and balances»

Era escusado

      «E não existe uma forma de o parar na sua desfilada. O sistema incipiente de checks and balances [sic] que temos em Portugal não funciona. O Governo ignora oposição, parceiros sociais, manifestações, tribunais e a academia e o PR assobia para o lado. O cocktail é explosivo e, como diz Soares, a violência está à porta. E a violência é uma arma política legítima quando não existe outra arma possível» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      Se até nas faculdades de Direito e em obras jurídicas se usa, quando seria de esperar o contrário, a expressão equivalente em português — freios e contrapesos —, não vejo a necessidade de se usar na imprensa a expressão inglesa.
[Texto 3588]
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«Quando mais não seja»

Já disse: Torga sabia

      «Não tenho a mínima dúvida de que Soares receia uma explosão de violência — quanto mais não seja porque, uma vez iniciada, ninguém pode prever a sua evolução. E não tenho notícia de que o PS, ou mesmo os “radicais” do BE ou do PCP, se preparem para enquadrar, controlar e liderar essa explosão de violência de forma que sirva os seus objectivos políticos» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      «Enfim, eu estou e estarei sempre com eles, quando mais não seja porque tenho de estar com os meus. Mas já ouço sem convicção o “venha com Deus” habitual. Há também nestas humanidades uma faca debaixo de cada sorriso, e a bênção de amor com que o mundo precisa de ser regado necessita de alargar os braços e chegar até aqui» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 244).
[Texto 3587]
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Léxico: «engraçadismo»

É mais uma

      «Só que, diante disto, confesso que os meus sentimentos se misturam. Por um lado, acho comovente que o Pacheco Pereira que leio há mais de 20 anos, o homem cerebral, racional, antidemagógico, opositor do engraçadismo, combatente de todas as simplificações, se transforme subitamente num vulcão de emoções, de indignação e de acusações simplistas. Por outro, faz-me confusão a falta de critério desta sua análise e a forma como ela legitima o silêncio sobre a mais urgente pergunta dos nossos dias: o que fazer a seguir?» («Carta a Pacheco Pereira ­– parte I», João Miguel Tavares, Público, 26.11.2013, p. 56).
      Não sabia que esta palavra — e «engraçadista», que li numa crónica de Ferreira Fernandes — circulava por aí.
[Texto 3586]
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Tulipeiro-da-virgínia, etc.

Comecemos por algo mais simples

      «Já uma vez disse que sou péssima com nomes de árvores. Gostava de olhar para elas e saber identificá-las num instante. Não pelos seus nomes científicos e quase sempre impronunciáveis, mas pelos nomes comuns, doces e que se enrolam na língua: liquidâmbares, tília-de-folhas-pequenas, cedro-do-Atlas-de-folhas-azuis, castanheiro-da-Índia, tulipeiro-da-Virgínia» («Todas as cores do Outono», Patrícia Carvalho, «2»/Público, 24.11.2013, p. 42).
      É uma ambição como outra qualquer, mas Patrícia Carvalho fica a saber que pode começar por melhorar a ortografia. Em nomes compostos, os topónimos perdem a maiúscula: cedro-do-atlas-de-folhas-azuis, castanheiro-da-índia, tulipeiro-da-virgínia... Ora, não tem de quê.
[Texto 3585]
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Léxico: «calulu»

Em Angola ou em São Tomé?

      «O almoço estava marcado para as 13h, mas uma hora antes o aroma intenso do calulu de peixe, prato tradicional de São Tomé e Príncipe, já se fazia sentir por toda a casa. Anilta, que sonha abrir um restaurante seu para ver as pessoas comerem “satisfeitas” aquilo que cozinha, passou as últimas horas à volta dos tachos, a preparar um almoço atípico de domingo: ao seu lado vai sentar-se um casal de origem ucraniana e nacionalidade portuguesa, com o qual a são-tomense de 39 anos nunca trocou uma palavra que fosse» («São-tomenses e portugueses nascidos na Ucrânia juntos à volta de um calulu», Inês Boaventura, Público, 25.11.2013, p. 14).
      Também o podemos encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, no entanto, regista que em São Tomé e Príncipe se diz cálu, ao passo que calulu é o termo usado em Angola. Entre os leitores do Linguagista de certeza que há quem saiba.
[Texto 3584]
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Agora em russo

No alfabeto cirílico, портя́нки

      «Desde o século XVII que os soldados do exército russo utilizam simples panos a envolver os pés, em vez das meias comuns. Durante a Guerra dos Sete Anos, as Invasões Napoleónicas e ainda nas duas guerras mundiais, eram os portyanki que acomodavam os pés dos homens que combateram pela Mãe Rússia, fosse em nome do czar ou do proletariado. Mas a sua existência tem os dias contados. Até ao final do ano, os portyanki vão ser postos de lado, por ordem expressa do ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e isto pode ter uma importância crucial para o futuro do xadrez geopolítico mundial» («Soldados russos marcham em direcção ao século XXI», João Ruela Ribeiro, Público, 25.11.2013, p. 21).

[Texto 3583]
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Sobre «seguidista»

Não só

      «Ainda que tenha obra espalhada pelo país, ficou sempre associado à Escola do Porto – mesmo se a certa altura foi “acusado” de cedência ao pós-modernismo: “É verdade que fui considerado, não direi um trânsfuga, mas um herético da Escola do Porto. Não é totalmente verdade. O que não fui foi um seguidor epidérmico da Escola. Mas os princípios, a interpretação do sítio, todos esses mecanismos que subjazem à Escola estão sempre nas coisas que fui fazendo, mas não de uma forma seguidista”, comentou à Fugas. E considerava que a Escola do Porto tinha já acabado, depois de cumprido o seu papel. “Teve o seu princípio, o seu apogeu, e acabou naturalmente.”» («Morreu Alcino Soutinho, o arquitecto da Câmara de Matosinhos», Sérgio C. Andrade, Público, 25.11.2013, p. 48).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, seguidista é a «pessoa que segue uma autoridade ou um partido sem deles fazer qualquer juízo crítico». Há definições melhores; esta, no contexto do artigo do Público, não se adequa propriamente.
[Texto 3582]
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Sobre «contraprodutivo»

E a explicação é

      «A prevista redução, diminuição do número de magistrados nas novas comarcas não tem justificação, é contraprodutiva e vai ser muito má para a reorganização que está em curso» (Rui Cardoso, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), Telejornal, 25.11.2013).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como outros, apenas regista «contraproducente». Creio que até recentemente não deparávamos nunca com «contraprodutivo», que se vê agora com alguma frequência — ou não estivesse mais próximo do inglês counterproductive.

[Texto 3581]
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Ou o revisor por ele

Torga sabia

      «Até ao princípio do século XVIII, São Tomé viveu o ciclo do açúcar, acompanhado e potenciado pelo crescimento do tráfico negreiro, então a principal fonte de riqueza da coroa portuguesa. E são as explorações de açúcar que constituem o precedente para a instalação das roças de cacau, a partir da segunda década de oitocentos. As diferentes tipologias destas vão acompanhando as mudanças sociais» («10 anos para salvar as roças de São Tomé», Vanessa Rato, Público, 25.11.2013, p. 27).
      Torga sabia: «Um Gama que descobrisse o caminho para a Índia em Quinhentos, desembarcasse no Mindelo em Oitocentos e jogasse o futebol agora» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 327).
[Texto 3580]
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Sobre «hã»

Mais do que um espirro

      «“Hã?” em português, “huh?” em inglês, “hein?” em francês, “eh?” em espanhol. Estas palavras simples, curtas, que saem da boca sem esforço, interrogando logo ali o interlocutor e pedindo-lhe para repetir o que disse, são estranhamente parecidas. Um estudo publicado online na revista de acesso livre PLoS ONE mostra que existem na realidade inúmeros pequenos vocábulos semelhantes nas línguas humanas. [...] “Hã?” e as suas congéneres são tão excepcionais na sua uniformidade que os cientistas quiseram demonstrar que são palavras “a sério” — e não apenas “ruídos” inatos, tais como os espirros ou o choro. Uma cuidada análise fonética revelou então, explica um comunicado do Instituto Max Planck, que elas são de facto palavras porque precisam de ser aprendidas em cada língua. A prova disso, argumentam os investigadores, é que os nossos “primos” mais próximos, os chimpanzés, não emitem nenhum som desse género, os bebés também não usam essas interjeições e que as crianças só começam a usar bem o “hã?” ou afins mais ou menos a partir dos cinco anos, quando já dominam as principais estruturas gramaticais da sua língua. Para os autores, só faz sentido ter uma palavra destas, tão especializada na clarificação da compreensão, quando já existe um sistema de comunicação como a linguagem» («“Hã?”: uma palavrinha curta, simples e quase igual em todas as línguas», Ana Gerschenfeld, Público, 25.11.2013, p. 25).
[Texto 3579]
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Sobre «spam»

É verdade

      «A base dos fritos empapados em gordura era uma pasta pré-cozinhada de carne de porco e cor rosada chamada Spam. Ao lado, um puré de batata de pacote, de preferência com muitos grumos, e por cima um líquido viscoso castanho a que se convencionou chamar molho. E, sim, a palavra spam para indicar correio electrónico insistente e não desejado tem que ver com o Spam dos almoços escolares e com um sketch dos Monty Python passado num café de qualidade duvidosa em que todos os pratos do menu incluem Spam — qualquer coisa como “ovo, bacon, salsicha e Spam; Spam, bacon, salsicha e Spam; Spam, ovo, Spam, Spam, bacon e Spam; Spam, Spam, Spam, ovo e Spam”, e por aí fora, terminando numa lagosta Thermidor com... Spam» («Regresso aos anos 70», Alexandra Prado Coelho, «2»/Público, 24.11.2013, p. 12).
[Texto 3578]
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Futuro da língua portuguesa

E nós acreditamos

      «O Português foi considerado como um dos 10 idiomas estrangeiros mais importantes nos próximos 20 anos no Reino Unido, segundo um estudo [«Languages for the Future»] do instituto British Council, divulgou ontem o Instituto Camões» («Português língua de futuro», Metro, 22.11.2013, p. 3).
      O futuro do português está nas Ilhas Britânicas, pois claro; cá, nem já sabem pontuar.
[Texto 3577]
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Sobre «inteligência»

Melhor do que интеллигенция

      «Nunca nenhum deles percebeu que um partido exigia dinheiro: dinheiro para sedes, para funcionários, para telefones, para carros, para propaganda. Pertenciam na maior parte à “inteligência” urbana (à universidade, ao funcionalismo, às profissões “liberais”), não sabiam onde ficava Figueiró dos Vinhos e traziam como toda a bagagem meia dúzia de “ideias”, que não se distinguiam nem pela originalidade, nem pela pertinência. Ao fim de pouco tempo, de umas conversas na “net” e de umas fotografias nos jornais (raramente conseguiam chegar à televisão), arranjavam maneira, quando arranjavam, de se apresentar a eleições que perdiam miseravelmente ou de que extraíam, como o Bloco, uns lugares na Assembleia da República, para vociferar às “massas”» («As fantasias do costume», Vasco Pulido Valente, Público, 24.11.2013, p. 56).
      Parece ser — não liguem às aspas — o que se costuma designar com um termo russo transliterado, intelligentsia, que é o conjunto de intelectuais de um país. Ainda não vejo esta acepção nos dicionários.

[Texto 3576]
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Léxico: «umbiguista»

Ele é assim

      «Herman é Herman. Por vezes, blasé, por vezes aburguesado, por vezes, umbiguista, mas sempre interessante na forma como cavalga a atualidade, mordaz na forma como constrói as suas personagens, certeiro na escolha dos atores que chama para si» («O fim de um ciclo», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.11.2013, p. 52).
      Está apenas, tanto quanto pude comprovar, no Aulete: «contemplativo, indolente, que leva a vida a olhar para o próprio umbigo». Já o vi em autores portugueses.
[Texto 3575]
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Como se escreve nos jornais

«Seria aqui que seria»?

      «Seria aqui que Carlsen seria “descoberto” por Simen Agdenstein, o seleccionador norueguês, que na sua época chegara a integrar o top 50 mundial e que, curiosamente, também pertencera à selecção principal de futebol» («Aos 22 anos, Magnus Carlsen é o novo campeão mundial», Jorge Guimarães, Público, 23.11.2013, p. 49).
[Texto 3574]
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Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]
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«Decisão sobre a sorte»

Cá está

      O Presidente da República sobre a demissão do director nacional da PSP: «Já hoje de manhã tive ocasião de falar sobre esse assunto. É uma competência exclusiva do Governo a decisão sobre a sorte do Sr. director nacional da PSP.» Cá está um claro sinal dos tempos de pré-ditadura denunciada ontem. É como se pertencesse ao Governo o poder discricionário de degredar o director nacional da PSP para as Berlengas (coitadas das lagartixas-de-bocage) ou pendurá-lo pelos pés do Arco da Rua Augusta.
[Texto 3572]
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Auto-retrato de Chateaubriand

Ainda para lá dos Pirenéus

      «Propre à tout pour les autres; bon à rien pour moi: me voilà.» Não é um enigma, é antes o auto-retrato de Chateaubriand. Parece uma frase muito simples, compreensível. Será igualmente fácil de traduzir? É o desafio que lanço aos bons leitores do Linguagista.
[Texto 3571]
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Sobre «vernissage»

Mais francês

      Este caso faz lembrar o que aconteceu com a expressão «a partir de». Trata-se da inauguração de uma livraria. No original, é a vernissage, extensão de sentido de um sentido figurado. O tradutor optou por não encontrar uma equivalência em português. Se formos consultar o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, não regista esta extensão de sentido, limitando-se ao sentido figurado: «dia de abertura de uma exposição; inauguração de uma exposição».
[Texto 3570]
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Tradução: «plat à emporter»

Pois é

      Estava tudo emporcalhado, com «les boîtes de plats à emporter» a juncar o chão. E agora, como traduzir? Para muitos tradutores, o melhor é traduzir para inglês, até porque quase ninguém reclama nem acha inconcebível. «Comida comprada no takeaway»! No entanto, vou até à Estrada de Benfica e encontro meia dúzia (fecharam muitos, ultimamente) de restaurantezinhos com um letreiro na montra em que se lê «Comida para fora». E os donos serão, tenho a certeza, semianalfabetos.
[Texto 3569]
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Tradução: «plat surgelé»

Tudo simples, mas depois...

      Se fosse a tradução para inglês, havia mais gente a saber. Talvez «frozen ready meal», não? Mas em português, qual será a melhor tradução? «Refeição pré-cozinhada»?
[Texto 3568]
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«Massachusetts», só com um esse

Miudezas

      «“Kennedy foi o primeiro a usar, de uma forma brilhante e inédita, os meios de comunicação social e de propaganda para criar uma imagem que não correspondia à verdade”, diz o historiador Tiago Moreira de Sá, professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Kennedy mostrava-se como homem novo, bonito e dinâmico, que ficava bem de fato escuro e gravata, mas também de pólo e caquis a jogar futebol com os irmãos ou a velejar nas águas do Massachussetts» («JFK, o príncipe imperfeito», Ana Gomes Ferreira, Público, 22.11.2013, p. 24).
      Porquê o plural «caquis» e o itálico? Já muita gente errou a ortografia do nome do Estado norte-americano. São muitos ss. É Massachusetts, só com um s.
[Texto 3567]
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Léxico: «tocaia»

Mais uma do Brasil

      «Foi assim que os dois jovens se viram envolvidos numa perseguição pelas ruas de Paris em Outubro de 1994, em que acabaram por matar quatro pessoas, entre as quais três agentes da polícia, explica o Le Monde. Maupin acabou por morrer de ferimentos sofridos na perseguição. Rey foi condenada a 20 anos de prisão, dos quais cumpriu 15. Só anos depois revelou Dekhar como cúmplice, a pessoa que comprou armas e ficou de tocaia na noite do assalto. Por isso ele só foi julgado em 1998 — e negou conhecer Rey ou Maupin» («Atirador de Paris denunciou em cartas “manipulação das massas pelos media”», Clara Barata, Público, 22.11.2013, p. 21).
     Não aparece muitas vezes na escrita, talvez mais na oralidade. Veio, creio que os dicionários são unânimes, do Brasil. Tocaia é a emboscada para matar alguém ou caçar, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3566]
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Tensão no Parlamento

E na gramática

      José Rodrigues dos Santos no Telejornal de ontem: «Lígia, notas, Lígia, não se se me estás a ouvir, notas alguma relutância por parte da autoridade que está a fazer a segurança do Parlamento e também da polícia de choque em actuar por se tratarem de colegas de profissão?» Por quem é, José Rodrigues dos Santos, reveja-me lá esses conhecimentos de gramática.
[Texto 3565]
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Ortografia: «pobre diabo»

Sim, mas no Brasil

      «Ainda por cima, as trapalhadas da investigação do assassinato — a direcção e a quantidade de tiros (dois, três, quatro, oito), a prisão de Oswald, um pobre-diabo a roçar o louco obsessivo, e a expeditiva liquidação de Oswald por um dono de um cabaré com ligações à Máfia — permitiam especulações sem fim e ajudavam a refulgir a nossa virtude democrática» («Símbolos», Vasco Pulido Valente, Público, 22.11.2013, p. 60).
      «Pobre-diabo», «pobres-diabos» é como se escreve no Brasil. O nosso pobre diabo, o indivíduo sem importância, tolo, não tem hífen.
[Texto 3564]
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Léxico: «frésia»

Não a conhecem

      «Os gladíolos, as frésias e as dálias estavam ainda aprisionadas nos botões verdes, à espera de se abrirem, enquanto as begónias e as camélias terminavam o seu ciclo de florescimento» (Lição de Tango, Sveva Casati Modignani. Tradução de Regina Valente. Alfragide: Edições Asa, 2011, 3.ª ed., p. 213).
      Anda por aí há muito tempo nos livros, não apenas desde 2011, mas poucos são os dicionários que a conhecem.
[Texto 3563]
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Tradução: «café littéraire»

Les gens de lettres

      Vivem em França, e por isso não fica mal terem um café littéraire, com estantes repletas de livros. Contudo, o conceito que eu tinha de café literário (como o tradutor verteu) era precisamente o que se lê no Trésor: «Café où se réunissent les gens de lettres». Ou seja, pode não ter sequer um livro, mas apenas um exemplar do Record ou do jornal preferido dos taxistas num canto do balcão. Traduzimos ainda assim por «café literário»? Não é ambíguo?
[Texto 3562]
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Sobre «pulseira electrónica»

Tornozeleira eletrônica

      «Os mais mediáticos são os casos de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva), considerado o rosto da burla que lesou o Estado em quase 4 mil milhões de euros, e o de Duarte Lima (ex-líder parlamentar do PSD). Os dois integram um grupo de nove pessoas que, no âmbito das averiguações ao BPN/SLN, estiveram (alguns ainda estão) na cadeia e encontram-se, agora, em prisão preventiva com pulseira electrónica» («Supervisor impõe multa de 400 mil euros aos antigos donos do BPN», Cristina Ferreira, Público, 2.11.2013, p. 16).
      Não vimos nós quando os guardas prisionais tiraram a pulseira electrónica a George Wright, que estava em prisão domiciliária? Espera lá. Não era à volta de um pulso, mas à volta de um tornozelo. Ainda assim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista: «pulseira electrónica: pulseira com um transmissor que possibilita detectar à distância e de forma permanente a localização da pessoa em cujo tornozelo foi aplicada». No Brasil, já encontraram a solução: «A PF (Polícia Federal) já adiantou que o parlamentar não terá escolta 24 horas em casa e deverá usar tornozeleira eletrônica» («Genoino deverá usar tornozeleira, diz PF», Metro Brasília, 21.11.2013, p. 3).
[Texto 3561]
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Léxico: «estromboliano»

Ou ilhas Eólias

      «Segundo Erik Klemetti, geofísico da Universidade de Denison (EUA), citado pelo site noticioso Nature World News, esta mais recente erupção aconteceu na nova cratera sudeste do vulcão e foi classificada como sendo [sic] “estromboliana” — isto é, uma erupção de relativamente baixa intensidade (a palavra deriva do nome de um outro vulcão, situado na ilha de Stromboli, ao largo da Sicília)» («Última erupção do Etna: um autêntico fogo-de-artifício», Ana Gerschenfeld, Público, 21.11.2013, p. 33).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-a (e não fui eu que lá a pus): «que se refere ao vulcão Estrômboli, nas ilhas Líparas (Lipari), italianas, no mar Tirreno; do mesmo tipo eruptivo do vulcão Estrômboli».
      Líparas não conhecia; em Xavier Fernandes tinha lido ilhas Lipárias, que é também como se lê na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e é o que me ficou na mente. Isto dos dicionários... Ainda ontem um escritor me dizia: «Como é possível que no “Grande” e volumoso dicionário da Porto Editora falte “descaso”?» O que é curioso é que Cândido de Figueiredo o abona com uma citação de Filinto, embora não saiba o que significa: «inoportunidade?» É, ou foi, muito mais usado no Brasil.

[Texto 3560]
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«Os Obamas e os Clintons»

Há quem aprenda

      «Os Obamas e os Clintons, os casais políticos mais poderosos da América, foram juntos ao cemitério de Arlington, em Washington, prestar homenagem ao Presidente John Fitzgerald Kennedy (JFK), morto a 22 de Novembro de 1963. [...] E ao mesmo tempo, a cerimónia em que Obamas e Clintons surgem juntos a homenagear Kennedy oferece a Hillary Clinton o que parece ser uma legitimidade de herdeira, num momento em que a especulação sobre a sua possível candidatura à presidência em 2006 está nos píncaros» («Dois Presidentes homenagearam Kennedy e... nomearam uma herdeira», Clara Barata, Público, 21.11.2013, p. 31).
[Texto 3559]
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O dicionário da Academia das Ciências

Não é o único a dizê-lo

      «O fenómeno começou com a adopção de programas sem pés nem cabeça e perfeitamente desajustados nos seus conteúdos literários (preteridos em favor de relatórios, de reportagens e de coisas assim...), prosseguiu com essa iniciativa infeliz que foi o dicionário da Academia das Ciências (que deveria ter sido retirado da circulação no próprio dia do seu lançamento), agravou-se com a monstruosidade da TLEBS (que confunde insensatamente a investigação universitária e científica da língua com o seu ensino no primário e no secundário) e oxalá não se tenha tornado irreversível com os professores formados na convergência letal dessas sinistras metodologias. Serão eles capazes de se adaptar aos novos programas em tempo útil?» («Ainda o ensino do Português», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.1.2013, p. 54).
[Texto 3558]
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Léxico: «hipertimésia»

Que seca

      «A hipertimésia, descrita pela primeira vez em 2006, faz com que estas pessoas consigam lembrar-se de pormenores dos eventos de cada dia da sua vida desde que eram crianças, incluindo a data e o dia da semana em que aconteceram. “No que respeita a pormenores verificáveis, as pessoas com HSAM [memória autobiográfica altamente superior, na sigla em inglês] acertam 97% das vezes”, escrevem os cientistas. “Conseguem lembrar-se melhor do que aconteceu num dado dia, há dez anos, do que a maior parte [de nós] se lembra do que aconteceu há um mês”» («Nem com uma memória fora de série somos imunes às falsas memórias», Ana Gerschenfeld, Público, 20.11.2013, p. 35).
[Texto 3557]
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«Os Sousas»

Vejamos: 1 + 1?

      «Já Eddie Sousa e “Clarkie” Sousa, açorianos e operários têxteis de Fall River, Massachusetts, lá estiveram em 1950, alinhando pela vulgar seleção dos EUA. Em Belo Horizonte, eles jogaram contra a Inglaterra, a inventora do futebol. Pela primeira vez esta fazia o favor ao resto do mundo de ir a um Mundial. Três anos antes, o império britânico perdera a joia da coroa, a Índia, mas naquela tarde perdeu um mito mais fundo: a seleção dos Sousa operários deu-lhes 1-0» («Carta aos rapazes de logo à noite», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 19.1.2013, p. 56).
[Texto 3556]
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«Campos Elísios»

O que é que se diz?

      «A polícia diz que o homem, que se estima ter uns 40 anos, terá sido o autor de disparos, horas mais tarde, contra a fachada de uma das duas torres do banco Societé Générale [sic] no distrito financeiro da capital, sem provocar vítimas, e que obrigou um condutor a levá-lo para a zona dos Campos Elíseos» («Caça ao homem em Paris para encontrar o “atirador louco”», Maria João Guimarães, Público, 19.11.2013, p. 24).
      Aprenda aqui com Albano Matos, do DN: «Ainda a polícia estabelecia comparações com o homem que disparara no átrio do Libération quando apareceu um automobilista a jurar ter sido sequestrado perto de La Défense por um homem armado que o obrigou a conduzi-lo até à Avenida George V, perto dos Campos Elísios» («Caça ao homem em Paris para apanhar invasor do ‘Libération’», Albano Matos, Diário de Notícias, 19.11.2013, p. 23).
[Texto 3555]
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«Distrito financeiro»?

Sempre do mesmo sítio

      «A polícia crê que terá sido a mesma pessoa — um homem branco com idade entre os 35 e 45 anos — que, após os disparos na recepção do Libération, se dirigiu para o distrito financeiro de Paris, em La Défense, e atirou contra a fachada de uma das duas torres do banco Societé Générale [sic]. Este indivíduo é também suspeito de, na sexta-feira, ter entrado na recepção da televisão BMF e, depois de tirar dois cartuchos da sua arma, deitando-os para o chão, ter ameaçado: “Para a próxima, não vou errar”» («Polícia conhece o rosto do atirador de Paris», João Ruela Ribeiro, Público, 20.11.2013, p. 31).
      «Distrito financeiro»? Hum... Não temos esta acepção em português. E mesmo alguns dicionários de língua francesa atestam que se trata de anglicismo.
[Texto 3554]
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Tradução: «selfie»

Ora toma

      «Os auto-retratos existem quase desde sempre mas nunca estiveram tanto na moda como agora. Isto por causa da evolução da tecnologia, ou seja, do boom dos smartphones e, claro, das redes sociais. Afinal quem é que nunca tirou uma fotografia sua e partilhou no Facebook ou no Instagram? Ou quem é que nunca criticou quem tivesse feito isto? É que de uma maneira ou de outra, a moda veio para ficar e tem um nome: selfie, a palavra inglesa do ano 2013. [...] O próximo passo é incluí-la no Dicionário de Inglês de Oxford. Para já, tem apenas uma entrada no site OxfordDictionaries.com, com o significado formal: “uma fotografia que uma pessoa tira a si mesma, geralmente com um smartphone ou uma webcam e que depois descarrega numa rede social na Internet”» («De Rembrandt a Bieber, o auto-retrato agora é uma selfie e está na moda», Cláudia Carvalho, Público, 20.11.2013, p. 36).
      Nós somos muito, mas muito mais rápidos: já está no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora: «coloquial autofotografia».
[Texto 3553]
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Léxico: «meio-bilhete»

No título, a tal doença

      «Historicamente, sempre houve o meio-bilhete de criança no caminho-de-ferro em Portugal. O desconto de 50% para idosos é posterior ao 25 de Abril, inicialmente apenas para quem adquirisse um “cartão dourado” que custava 60 escudos (30 cêntimos). O processo foi simplificado e basta agora que o passageiro se identifique como tendo mais de 60 anos» («CP vendeu 6,5 milhões de “meios-bilhetes” a crianças e a idosos», Carlos Cipriano, Público, 18.11.2013, p. 10).
[Texto 3552]
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Os nomes da libélula

Para mim, era só tira-olhos

      «Mandíbulas dilacerantes e asas enormes fizeram com que estes animais de voos graciosos fossem temidos pelo homem. Reflexo disso é o conjunto de outros nomes comuns atribuídos às libélulas: tira-olhos, cavalinho-das-bruxas, dragões-voadores ou balanças-do-diabo» («Voando com as libélulas de Portugal», Vera Novais, Público, 18.11.2013, p. 26).

[Texto 3551]
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Tradução: «stacking»

É só isso?

      «Cada uma destas imagens de pormenor é composta pelo empilhamento digital de várias fotografias (um dos casos chega às 150) tiradas com diferentes profundidades de campo, para permitir focar o maior número de detalhes possível em cada plano. “É a primeira vez que esta técnica de stacking é utilizada num guia de Entomologia [ciência que estuda os insectos]”, sublinha Ernestino Maravalhas, autor destas fotografias» («Voando com as libélulas de Portugal», Vera Novais, Público, 18.11.2013, p. 26).
      Sabem que se traduz por «empilhamento», mas resistirem a usar o termo inglês é que é muito mais difícil.
[Texto 3550]
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Léxico: «pentalogia»

E por aí fora

      «Da sua vastíssima bibliografia, que lhe valeu, em 2007, o Prémio Nobel da Literatura, podem destacar-se ainda O Verão Antes das Trevas (1973), a pentalogia de ficção científica Canopus em Argos (1979-1983) ou A Boa Terrorista (1985), relato perpassado de ironia da vida de uma militante de esquerda, no qual Lessing mostra como a fronteira entre as convicções ideológicas e a prática terrorista pode tornar-se perigosamente delgada» («Morreu Doris Lessing, uma ficcionista de intelecto feroz e coração afectuoso», Luís Miguel Queirós, Público, 18.11.2013, p. 28).
      É para trilogia e tetralogia não se sentiram sozinhas que se inventou esta pentalogia. O modelo é o mesmo.
[Texto 3549]
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Léxico: «verde-tropa»

Vamos tratar disso

      «O atirador não disse uma palavra: chegou à entrada da redacção do diário francês Libération, disparou contra um assistente de fotografia e saiu. A polícia procurava por meia Paris o homem, descrito como usando uma gabardina verde-tropa e de boné, e tendo um aspecto parecido com o de um caçador» («Caça ao homem em Paris para encontrar o “atirador louco”», Maria João Guimarães, Público, 19.11.2013, p. 24).
      Ainda não está nos dicionários, onde não faltam outros verdes compostos. Já o tinha visto, contudo, na literatura e todos o ouvimos. «O Pedro despenteado. E o Pedro com gel no cabelo. De jeans. De calças de combate. Com uma T-shirt azul. Com uma T-shirt verde-tropa. Um Pedro sério, com uma ruga vertical entre as sobrancelhas e um ar ameaçador e triste ao mesmo» (Os Factos da Vida, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2007, p. 173).
[Texto 3548]
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«Publicações»?

Pelo menos é português

      «Sobre estes temas [William S. Fyfe (1927-2013)] escreveu mais de 800 publicações na literatura internacional. Humanista insigne, cultivou ativamente a relevância social da ciência que praticou. Mas houve trabalhos noutras áreas, como as implicações do consumo humano de energia no ambiente» («O pai da geoquímica moderna era um “amigo de Portugal”», Diário de Notícias, 19.11.2013, p. 43).
      Serão estas «publicações» os tais papers de que já temos tratado? Não serão antes «comunicações»? Aqui, que talvez seja a fonte do jornalista, leio: «Bill’s research activities are well-documented in five books, more than 800 scientific papers, etc.»
[Texto 3547]
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Outro «ad hoc»

Nada a fazer

      «Na informação: o programa não fôra integralmente avançado e, na sala, havia uma (uma!) folha A4 com o nome das obras escrito à mão! Além disso, houve alterações de última hora, “anunciadas” (com aspas, pois foi quase inaudível) por Paulo Branco. Na preparação: o ensemble reunido para o Szymanowski (a cantora prevista afinal não veio...) pareceu “tresmalhado”, claramente subensaiado e visivelmente ad-hoc» («Informalidade não quer dizer ‘à toa’», B. M., Diário de Notícias, 19.11.2013, p. 47).
      É claramente melhor do que o inacreditável «ADOC» da colega, mas ainda tem ali uma excrescência: o hífen. O mais-que-perfeito «fora» não tem acento circunflexo. Não é que não precisasse, mas não leva.

[Texto 3546]
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Como se escreve nos jornais

Nada de novo

      «O que resta dos magníficos armários — muitos ter-se-ão estragado quando foram deslocados do local original — e dos animais (golfinho, leopardo, veado e canguru desapareceram; crocodilos ainda há dois, mais uma piton e o gigantesco crânio de um hipopótamo), assim como centenas de relíquias de laboratório e uma coleção de modelos de plantas em porcelana alemã de rara beleza (e decerto valor), está armazenado numa sala pequena, juntamente com o “quadro de honra”, uma caravela feita por alunos para oferecer ao reitor, uma “carteira” original, daquelas em que o assento está pegado à mesa, com buraco para tinteiro e tampo de levantar, na qual Artur Antunes consegue ainda acomodar-se, e muita nostalgia» («Camões e a lição do liceu», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 28).
      Já vimos, e até mais de uma vez, que píton (ou pitão) é do género masculino. «Quadro de honra» e «carteira» entre aspas é tolice de muitos jornalistas, a que Fernanda Câncio — oh surpresa! — não escapa. Ainda na semana passada vi duas salas de aulas no Colégio Militar com carteiras — mesas inclinadas para escrever ou estudar — destas. Não tinham aspas.
[Texto 3545]
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Um «idiomatismo» desajustado

Também é cómico

      «Insuficiências», segundo o crítico do Diário de Notícias, na ópera La Fille du Régiment, de Donizetti, actualmente no São Carlos. «Exemplos: Luciani foi um canastrão de início ao fim, nunca entrou na personagem; a Marquesa pecou pelo exagero e a Krakenthorp parecia a “Duquesa do Mercado da Ribeira”... Também a pronúncia/entoação do francês careceu de idiomatismo» («Um regimento atravancado e a filha com o nome trocado», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 48).
      Contudo, idiomatismo ou (com sua licença) idiotismo é a construção ou expressão peculiar a uma língua. É isto que pretendia dizer? A avaliar pelo contexto, é claro que não.
[Texto 3544]
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Um «fato» triste

Não surpreende assim

      «Também o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz não acha relevante rever a atual legislação. “Os argumentos para baixar a idade de consentimento sexual andam muitas vezes à volta de fatores como a adolescência ser muito diferente do que era antigamente e de começar mais cedo. Respeito-os, mas tenho dúvidas que o fato de os jovens iniciarem a sua vida sexual mais cedo corresponda a uma maior capacidade de escolhas maduras e acertadas”, afirma» («Baixar idade da emancipação sexual não reúne consenso», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 16).
      Uma jornalista — e depois de tudo o que se tem dito e escrito — a escrever semelhante barbaridade. Não admira que o zé-povinho, e não apenas o zé-cuecas, depois, em fóruns e entrevistas à queima-roupa na rua, «ache» que é assim que se escreve.
[Texto 3543]
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«Lateranense/latranense»

Quem manda...

      «Mas eu não quero “Concílio Lateranense”», mandou o autor dizer. «Como é que de “Latrão” o leitor vai deduzir “lateranense”? Tem de ser “latranense”.» Está bem, mas — e o latim? Tardio, decerto, mas latim. Desta língua é que nos chegou directamente «lateranense» para nos referirmos à Igreja de S. João de Latrão ou a qualquer dos cinco concílios ecuménicos que se realizaram nesta basílica (ou catedral? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lê-se que é catedral). Bem sei que não prova quase nada, mas não conheço nenhum dicionário que registe essa forma nascida na língua portuguesa.
      Entretanto, caros leitores espanhóis, acabei de mandar uma mensagem de correio electrónico para a vossa Real Academia, pois na entrada «lateranense» do dicionário da RAE aparece isto: «Perteneciente o relativo a la basílica de San Juan de Letrán, en Roma, o al concilio allí celebrado. Concilio lateranense. Padres lateranenses.»
[Texto 3542]
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Mal traduzido

Isto é que é insólito

      «Na fotografia oficial da visita dos príncipes das Astúrias às instalações da filial da farmacêutica espanhola Grifols, em Los Angles [sic], nos Estados Unidos, a princesa Letizia e uma das funcionárias da empresa (que está à esquerda) coincidiram com o mesmo vestido» («Princesa Letizia e empregada de farmacêutica usam vestidos iguais», F. A., Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 53).
      Cá estamos de novo, cara Filomena Araújo. «Coincidiram com o mesmo vestido» parece português, mas é castelhano. Nesta língua, uma das acepções do verbo «coincidir» é, em relação a duas ou mais pessoas, «concurrir simultáneamente en un mismo lugar». É o que aconteceu: estiveram no mesmo sítio com vestidos iguais. «La princesa Letizia y una empleada de Grifols coinciden con el mismo vestido.»

[Texto 3541]
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O que se escreve nos jornais

Não me diga

      «Cristiano Ronaldo surpreendeu sexta-feira à noite ao falar aos jornalistas, no final do Portugal-Suécia, com o filho pela mão. Cristiano Ronaldo Júnior, que a família trata carinhosamente por Cristianinho, fez 3 anos a 17 de junho último, mas tem cada vez mais protagonismo e está a tornar-se uma das crianças mais influentes do mundo, como de resto acontece com os filhos de outros futebolistas, como David Beckham» («Filho de Ronaldo ganha mais protagonismo e fãs nas redes sociais», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 53).
      E que influência é essa, cara Filomena Araújo, que Cristiano Ronaldo Júnior exerce no mundo? Não deteve o tufão Hayan, por exemplo, pois não? Protagonismo tem, graças aos jornalistas acéfalos deste mundo.
[Texto 3540]
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«Bloguer/blogueres»?

E «bloguista», não chega?

      «A pátria, a que retorno, não se escandalizou tanto assim e os poucos que se indignaram remeteram a coisa para uma generalização: jornalistas e blogueres a mesma choldra! Estaria certa a reação se a estes se juntassem estucadores e agentes imobiliários, e a todos se desse a indicação necessária: patifes. Porque é isso que é Fernando Moreira de Sá (o tal entrevistado da Visão). Não foi a sua condição de bloguer que o levou a ser um dos “blogueres da corda” (como ele próprio se autodefiniu na entrevista), foi a de ser patife» («A pátria continua ela própria», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 56).
      E também gostava de saber como é que Ferreira Fernandes pronuncia a palavra no singular e no plural.

[Texto 3539]
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Léxico: «sufi»

Também falta

      «No final dos anos 1960, a autora [Doris Lessing] conhece um mestre sufi, e os seus livros ganham uma dimensão mística que virá a explorar enfaticamente nos seus romances de ficção científica» («Nobel da Literatura Doris Lessing morreu aos 94 anos», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 46).
      Esta também não a encontramos na maioria dos nossos dicionários, apenas «sufista».
[Texto 3538]
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Tradução: «valet parking»

Um criado

      «O projeto resulta de um investimento avultado e disponibiliza serviços exclusivos para clientes VIP: área privada com camarotes individuais, entrada exclusiva e um valet parking são benefícios esperados pelos frequentadores “de luxo”» («O Olympia volta a abrir portas na Baixa do Porto como clube de luxo», Joana de Belém, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 21).
      E agora, como vamos traduzir a expressão? Aos que desempenham esta tarefa, no Brasil chamam-lhes manobristas. Cá, porém, os manobristas apenas executam manobras nas embarcações ou nos bastidores da política.
[Texto 3537]
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Sobre «superiorizar»

Não me parece

      «Segundo Paulo Pisco, o fecho do posto consular de Ajjacio torna-se ainda mais “estranho” quando se sabe que, tirando as despesas com vencimentos, esta era uma instalação diplomática em que as receitas se superiorizavam às receitas» («Emigrantes desesperam sem posto consular», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 10).
      Hum... Só conhecia no sentido de passar além de; ultrapassar em valor, em mérito. «Não de todo inesperadamente, mas bastante ridiculamente, voltou a pôr-se a questão sobre se o Romantismo se superioriza ou não ao Realismo. E o voto vai para o Romantismo através de Camilo, julgado de novo o maior romancista português» (Conta-Corrente (1980-1981), Vergílio Ferreira. Lisboa: Bertrand Editora, 1980, p. 448).
[Texto 3536]
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Léxico: «chancelar»

Autenticar com chancela

      «Os emigrantes [portugueses na Córsega] precisam de um posto consular para tratar de questões como o cartão do [sic] cidadão, passaportes e procurações e muitas vezes, segundo [o deputado do PS] Paulo Pisco, “ficam presos na ilha” porque não conseguem em tempo chancelar oficialmente as declarações que lhes permitem sair da ilha com os filhos» («Emigrantes desesperam sem posto consular», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 10).
[Texto 3535]
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Léxico: «porta-helicópteros»

Não o vi em nenhum dicionário

      «Também o Reino Unido envia o porta-helicópteros Illustrious, capaz de transportar 22 mil toneladas de material e equipado com um dispositivo que permite dessalinizar a água do mar» («Ajuda às Filipinas só agora começa a chegar», Albano Matos, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 27).
[Texto 3534]
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Léxico: «graneleiro»

A granel

      «Dois homens foram encontrados mortos, ontem de manhã, num dos porões do navio graneleiro Vatan L, de bandeira turca, no início da operação de descarga da matéria-prima que trazia a bordo para o fabrico de rações, no porto de Ponta Delgada» («Descobertos dois mortos em porão de navio turco», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 17).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o adjectivo «graneleiro», que, diga-se, não é recente.
[Texto 3533]
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Segundo o AO, «infantojuvenil»

Quando adoptar

      «No próximo sábado, 26, será lançado o seu [de Álvaro Magalhães] mais recente romance infanto-juvenil, O Rapaz dos Sapatos Prateados» («O brincador», Florbela Alves, Visão, 24.10.2013, p. 112).
      Se a Visão já tivesse adoptado as novíssimas normas ortográficas, seria «infantojuvenil» que a jornalista teria escrito. Assim, está tudo certo.
[Texto 3532]
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«Esqueletos no armário»

Forasteira

      «Temperamental, o mayor [Rob Ford] já teve inúmeros problemas com as autoridades, mas a família sempre o apoiou. Até nos últimos incidentes, a mãe realçou que não haviam prejudicado o seu trabalho. E foi exatamente o que ele defendeu no debate de quarta-feira. Mas também admitiu que pode ter mais esqueletos no armário...» («Um autarca em apuros por causa de droga e prostitutas», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 28).
      As palavras são portuguesas, todos as reconhecemos. A expressão, contudo, é inglesa, skeletons in the cupboard, não nos diz nada, pois não faz parte do nosso reportório de expressões idiomáticas.

[Texto 3531]
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«Escrutíneo»!

Já não há dicionários?

      «Confrontado com o pedido para se afastar temporariamente e “resolver os problemas longe do escrutíneo público”, Rob Ford garantiu que vai cumprir o mandato até ao fim» («Um autarca em apuros por causa de droga e prostitutas», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 28).
[Texto 3530]
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«Missa exequial»

Mais uma missa

      Coincidências. Outra missa: «O corpo de monsenhor José Agostinho Moita chegou ontem à tarde à Casa Sacerdotal por volta das 17:00. Para hoje, está marcada, para as 10:00, uma missa exequial que será presidida pelo patriarca emérito cardeal D. José Policarpo» («Faleceu o antigo secretário do cardeal António Ribeiro», H. R., Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 37).
[Texto 3529]
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«Missa póstuma»

Rezada, cantada, póstuma

      Santa Cristina, a Admirável, morreu com 20 anos e ressuscitou durante a missa de corpo presente. Quando morreu pela segunda e — até agora, decorridos quase oitocentos anos — definitiva vez, já tinha 70 anos. Mero pretexto para dizer que «missa de corpo presente» está nos dicionários, mas não, por exemplo, «missa póstuma». Porquê, se registam, por exemplo, «missa cantada» e «missa rezada»?

[Texto 3528]
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«Esta prova é um erro CrXto»!

Será mesmo um erro?

      «A ideia surgiu», respondeu o professor Arlindo Ferreira, «um pouco por brincadeira, nos comentários do blogue. Uma leitora sugeriu fazer T-shirts para os protestos [que se realizam hoje em várias cidades] e até sugeriu algumas frases. Acabou por ficar “Esta prova é um erro CrXto”. Depois juntou-se outro colega que tinha capacidade para tratar da impressão e entrega das T-shirts. E foi assim que surgiu a campanha» («“Será difícil convencer 500 professores a corrigir a prova”», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 48).
      Hã?! Primeiro, vem-nos à mente o acrónimo ΙΧΘΥΣ. A frase que se lê em todo o lado é «Esta prova é um erro Crato»; na T-shirt, em cima do que pode ser um a, surge o sinal de errado. Como diriam os da glote, a frase permite várias leituras. Quem escreveu a frase (um aluno?) enganou-se e em vez de «crasso» saiu «crato» (como está tudo grafado em maiúsculas, o nome do ministro é apenas sugerido). Por isso, algum professor — competentíssimo, que certamente não precisa de se submeter à prova de avaliação — apôs o sinal de errado sobre o a. Ou — inclino-me mais para esta — o que se pretendia escrever era uma apóstrofe ao ministro da Educação, mas, como até revisores (!) e professores de Português (!!) fazem, sem a vírgula antes do vocativo: «Esta prova é um erro, Crato.» São Marcos lhes valha.
[Texto 3527]
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É latim!

Também isto merecia um estudo

      Acabei de ouvir no programa de José Candeias, na Antena 1, uma entrevista telefónica a uma estudante de doutoramento, Carolina Doran, que está a desenvolver o projecto, sobre tomada de decisão colectiva, na Universidade de Bristol. Apesar de estar lá vai para dois anos, ia eu pensando, nem uma cedência ou contágio do inglês. Contudo, quando disse o nome científico (em latim, não se esqueçam) da espécie das formigas com que está a trabalhar, Temnothorax albipennis, parecia que estava a seguir, com aplicação e zelo de neófito, os exercícios do «How to Speak in a British Accent».
[Texto 3526]
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Confusões de sempre: «porque/por que»

Os magos da escrita

      O artigo, «Redução da despesa com pessoal é permanente», é de ontem, no Diário de Notícias. Os jornalistas foram ouvir as «reacções» aos alertas de Christine Lagarde. João Oliveira, deputado do PCP, disse, segundo transcrição que se lê na página 5, que «FMI assume (...) que as políticas de austeridade têm de continuar seja porque período for». Magos da escrita porque transformam pérolas em calhaus.

[Texto 3525]
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Bairrismo exacerbado

Bend over backwards

      «Empossado há 24 dias, o presidente da Câmara [Municipal do Porto], eleito como independente, foi “apresentar cumprimentos” ao Comandante Metropolitano da PSP [António Bagina] e “deixar uma mensagem de preocupação e solidariedade” sobre a falta de meios da polícia, que traduziu na locução “os agentes da PSP fazem das tripas coração”, uma “expressão que é tipicamente portuense”» («Há duas alternativas para substituir a 12.ª esquadra», José Miguel Gaspar, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 22).
      Já li, e mais de uma vez, que Rui Moreira é um homem culto, mas isto ultrapassa o que pudesse imaginar.
[Texto 3524]
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Léxico: «telecadeira»

E faz falta, na serra

      «Nesta fase, a telecadeira, que na época passada esteve frequentemente parada por falta de manutenção, já está operacional» («Serra da Estrela quer roubar turismo que vai para Espanha», Madalena Ferreira, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 26).
      Não está em todos os dicionários, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «sistema de transporte de pessoas em locais de altitude elevada, constituído por uma série de cadeiras ou assentos que deslizam sobre um cabo aéreo».
[Texto 3523]
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«Grafito» e «grafiteiro»

Ora, paciência

      «Contactaram os DEDICATED, um grupo de grafiteiros, que aceitaram a empreitada. A licença ainda não foi aprovada pela Câmara, mas há mais de duas semanas que o grafiteiro Youth trabalha na tela» («Está a nascer um grafito com 170 m2 em Gonçalo Cristóvão», Tiago Rodrigues Alves, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 23).
       Imagino que eles, os grafiteiros, não gostem mesmo nada, mas isso, naturalmente, é o que menos importa.
[Texto 3522]
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«Fronteiro/fronteiriço»

Parecido, sim

      «“Parecer [sic] ser um espaço muito agradável, calmo e sossegado”, concorda Antónia Fonseca, elogiando a forma como a estrutura [Passeio dos Clérigos] foi inserida na paisagem fronteiriça da Torre dos Clérigos» («Oliveiras em jardim suspenso nos Clérigos», Hermana Cruz, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 22).
      Será mesmo «fronteiriça» — que fica na fronteira — ou «fronteira» — situada em frente? Que acha, cara Hermana Cruz?
[Texto 3521]
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Um AO à medida

À catanada

      «Turistas europeus, sul-africanos e zimbabweanos estão a cancelar as suas reservas para o final do ano em estâncias turísticas de Gaza e Inhambane, no Sul de Moçambique. O facto é justificado pelos incidentes político-militares que se verificam [sic] nos últimos dias na região centro do país, caraterizados por ataques dos guerrilheiros da Renamo a civis e por confrontos com o exército governamental. Em Vilanculos, província de Inhambane — considerado um dos maiores centros de turismo do país — não foram revelados números globais, mas é certo que trinta reservas, num só estabelecimento turístico, estão comprometidas, pois um grupo de turistas do Zimbabue [sic] já disse, em definitivo, que não virá a Moçambique» («Turistas estão a cancelar viagens a Moçambique», Alexandre Chiure, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 26).
      Quanto a «zimbabweanos» e «Zimbabue», nada a comentar. Já no que respeita à aplicação do novo acordo ortográfico, vê-se que o jornalista se limita a decepar todos os cc e, presumivelmente, todos os pp, sejam mudos ou não. Mas cá também não falta quem escreva «caraterizado» e «caraterística», que, se são variantes, são muito menos usadas. A meu ver, deviam evitar omiti-las nestas palavras. «Facto» é que, graças a muita insistência, já sabem — sem compreender porquê — que não perde o c.
[Texto 3520]
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«Antes de se o ver tombar»

Onde é que nós já vimos isto?

      «No ecrã, a limusina de Kennedy fazia a curva da Praça Dealey, com três polícias em motorizadas a abrir caminho para a tragédia iminente, sendo perfeitamente visível o rosto presidencial a sorrir para a multidão que estava na Elm Street, bem como o aceno com a mão, milésimos de segundos antes de se o ver tombar para a esquerda e encostar-se à mulher[,] Jacqueline, antes de esta subir para a longa tampa do porta-bagagens e ser reposta no lugar pelo segurança, ou de se reparar na forte presença do vestido e chapéu da quase viúva, de um cor-de-rosa que enche o ecrã por segundos até os ramos de uma árvore darem por terminado o filme feito por Zapruder com a sua câmara Bell & Howell Zoomatic» («486 fotogramas para Don DeLillo recordar as 500 páginas de ‘Libra’», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 47).
[Texto 3519]
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Antes minúsculas

Não merece tanto

      «A audiência, formalmente chamada Conferência de Interessados, durou mais de duas horas e foi conclusiva: Marisa Cruz e João Pinto saíram já divorciados do tribunal e com as responsabilidades parentais para com os dois filhos em comum — Diogo, de 4 anos, e João, de 8 — decididas por acordo entre os pais e homologado por sentença» («João Pinto e Marisa Cruz estão divorciados», Sara Oliveira, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 53).
      Nem a lei lhe dá a honra das maiúsculas — e, se desse, não era razão bastante para fazermos o mesmo.

[Texto 3518]
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Tradução: «percutant»

Fere, e muito

      «O mais interessante, [sic!] é o debate entre o jornalista iconoclasta Jean-François Kahn e Marcel Gauchet, sem dúvida alguma hoje o pensador francês com um olhar mais percutante sobre as transformações da política contemporânea, tanto em termos franceses como globais» («A lição francesa», Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 55).
      Será tudo verdade — ou não, porque se trata apenas de uma opinião, mas «percutante» não é português. É francês. Em português, o que percute ou fere é percuciente.
[Texto 3517]
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«Coloração rosa intensa»

Dúvidas persistentes

      «A licitação da pedra preciosa, de forma oval e com uma coloração rosa intenso (ver foto), durou apenas cinco minutos, num despique entre potenciais compradores e com o futuro proprietário na sala a manter-se no anonimato» («Diamante rosa ‘vale’ 55,1 milhões de euros», Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 56).
      Então, o adjectivo «intenso» está a qualificar que substantivo? Só pode ser «coloração», o único presente. Coloração rosa intensa.
[Texto 3516]
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Ortografia: «Celsius»

Jornalismo científico

      «A não haver travão, o mundo caminha para um aquecimento global, a médio prazo, de mais 3,6 graus Célsius, um valor 1,6 graus mais alto do que foi estimado como limite seguro pelos cientistas» («2013 já tem a marca das alterações climáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 30).
      Como parece convicção e não descuido, pois escreveu desta maneira duas vezes, é preciso dizer: Celsius não tem acento.
[Texto 3515]
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Uma letra a mais

E é outra coisa

      «A história das centenas de cartas inéditas trocadas entre Camilo Castelo Branco e o amigo de infância, Carlos Ramiro Coutinho, visconde de Vouguela, agora publicadas em Camilo Íntimo (Clube do Autor, 378 págs.), é um enredo que exigiria deliberação a Calisto Elói Barbuda, o inocente morgado de província, corrompido pelos costumes da capital, no clássico A Queda de um Anjo» («As cartas perdidas de Camilo», Sílvia Souto Cunha, Visão, 1.11.2012, p. 110).
      Que diria neste caso o autor do tal blogue «político»? Talvez que a jornalista devia ter mais cuidado. É verdade que, mais à frente, é Ouguela — o correcto — que se lê, mas esta é a primeira ocorrência, e no leitor que desconheça de quem se trata fica a dúvida. E mais: terá tido Camilo apenas este amigo na infância? Bem, algo certo, para contrabalançar: «Este tesouro camiliano inédito faz, igualmente, um vívido retrato da sociedade da época, e das convulsões sociais e políticas; nomeadamente, a conspiração que levou Ouguela à prisão, que pretendia afastar os Braganças do poder e destituir D. Luiz I.»

[Texto 3514]
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Léxico: «betetista»

É só esperar

      «Mesmo assim, o livro [A Gloriosa Bicicleta, Laura Alves e Pedro Carvalho. Lisboa: Texto Editores, 2013] distingue autóctones, betetistas, carapaus de corrida, hipsters de roda fixa e salteadores urbanos» («Bicicletas. Tudo o que tem de saber para se fazer ao piso com estilo», Ana Tomás, i, 13.11.2013, p. 33).
      Para levar a sério, só o «betetista», que leio com frequência e ainda não chegou aos dicionários gerais da língua.
[Texto 3513]
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«Psicopatáveis»!

Eu sabia

      «Os pivôs de televisão e rádio estão no top 3 das profissões com personalidades mais psicopatas; pior, só mesmo os presidentes de empresas e os advogados. O autor do estudo é Kevin Dutton, um psicólogo, profissão que, curiosamente, não consta da lista de psicopatáveis» («O perfil alargado dos psicopatas», Rita Ramos, Telejornal, 12.11.2013). Mas vejam aqui o arzinho do investigador, «da prestigiada Universidade de Oxford».
[Texto 3512]
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