Sobre «sereia», de novo

Mais um r, e metia endoscopia

      De manhã, enquanto esperava que a minha 星 tivesse aula de mandarim, estive no Farol de Santa Marta. Mesmo no exterior, estão expostas algumas peças que se usam ou usaram nos faróis, e entre elas uma sereia eléctrica. É assim que se lê na cartela. Sereia — não sirene. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem em muitos outros. Registam, porém, «nefoscópio», um instrumento que serve para determinar a direcção e a velocidade das nuvens em movimento, que também lá está em exposição.
[Texto 3486]

«Envenenado até à morte»

Jornalistês

      A. M. Pires Cabral anunciou no Facebook — disseram-me, porque eu não frequento essas paragens — a sua próxima obra, Língua Charra, Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro (Âncora Editora, 2013), onde também deixou esta nota:

«JORNALISTÊS
Oiço na Antena 1 uma jornalista dizer, aparentemente sem arrepios de consciência, que Yasser Arafat “foi envenenado até à morte”. As maldades que estes jornalistas e tradutores apressados estão ao fazer ao Português! Recebem um despacho em inglês de uma qualquer agência noticiosa internacional, onde lêem que “Mr. Arafat was poisoned to death”, e nem param um minuto a pensar. Toca a traduzirem para jornalistês: “envenenado até à morte”. Dá impressão que, até morrer, o pobre Arafat foi sendo envenenado metodicamente, dia após dia, e só deixaram de o envenenar quando morreu. Já tínhamos o “espancado até à morte”, o “esfaqueado até à morte” e outros mimos que tais. Não seria muito melhor Português dizer “morto por envenenamento”, etc.? Pois era; mas para isso os jornalistas tinham de falar Português, e não jornalistês. E tinham que prestar culto à língua portuguesa, e não preito de submissão à língua inglesa.»

[Texto 3485]

Dois pesos, duas medidas

Ou não fosse ele indígena

      «No Ocidente, o abandono do cristianismo em qualquer das suas variedades tem sido progressivo desde o princípio do século XIX e reforçado, a partir de 1850-1870, pela crítica bíblica e pelo evolucionismo de Darwin. [...] Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo» («O inquérito do Papa Francisco», Vasco Pulido Valente, Público, 9.11.2013, p. 52).
[Texto 3484]

Léxico: «mal-do-panamá»

Soa a doença venérea

      «No início do século XX, o fungo que provoca o mal-do-panamá causou os primeiros prejuízos importantes em plantações de banana precisamente no Panamá» («O que é que a banana tem? Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar-se», Teresa Firmino, Público, 8.11.2013, p. 37).
      Acho que só ultimamente é que ando a ver o verbo «alastrar» como pronominal. Eu escreveria assim: «Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar.»
[Texto 3483]

Os «nostalgériques»

E os nostálgicos do nosso império?

      «Os “nostalgériques” (os nostálgicos da Argélia francesa), com importante peso eleitoral em Aix-en-Provence e com uma presença assinável [sic] nos novéis meios de comunicação, condicionaram o processo» («Albert Camus. Um homem irrecuperável», Miguel Bandeira Jerónimo, Público, 8.11.2013, p. 22).
[Texto 3482]

O dinheiro e o dicionário

Inveja não é

      Pode algum leitor do Linguagista ter a dúvida: «Sou multimilionário? Não sou multimilionário?» Se souber ler, procurará num dicionário. O da Porto Editora regista: «que ou aquele que é muitas vezes milionário; que ou aquele que é muitíssimo rico». Muitas vezes, pois, mas quantas? O Público esclarece: «Um relatório do banco suíço UBS concluiu que em Portugal há mais 85 milionários [sic] — indivíduos com fortunas superiores a 30 milhões de dólares (perto de 22,4 milhões de euros) — do que em 2012» («O número de multimilionários portugueses subiu e estão mais ricos», Camilo Soldado, Público, 8.11.2013, p. 22). O jornalista ficou de tal modo perturbado, coitado, que se enganou. Ah, sim, o título também é curioso.
[Texto 3481]

Literatura na política

Disse a rainha

      «Perante as críticas da oposição sobre a visão positiva do ministro da realidade do país, Maduro respondeu: “A forma como analisam a situação de Portugal só me recorda a Alice no País das Maravilhas: ainda não é pequeno-almoço e eu já acreditei em seis coisas impossíveis”» («Alice no País das Maravilhas, segundo o ministro Miguel Poiares Maduro», Maria Lopes, Público, 8.11.2013, p. 12).
      Está bem citado? Hum... «“I daresay you haven't had much practice,” said the Queen. “When I was younger, I always did it for half an hour a day. Why, sometimes I’ve believed as many as six impossible things before breakfast.”» Ficamos assim com vontade de reler esta obra.
[Texto 3480]

Tradução: «self-publishing»

Em busca do self

      «Memórias agora reunidas em Os Beatles na Imprensa Portuguesa 1963-1972, de Abel Soares Rosa, livro com tiragem limitada que acaba de ser lançado em autoedição» («Como se falava dos Beatles sob o olhar atento da censura», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 6.11.2013, p. 47).
      Parece que se pretende assim traduzir o termo inglês self-publishing. Pois, mas em português não se disse sempre, caro Nuno Galopim, «edição de autor»? Isso é arrombar portas abertas.
[Texto 3479]

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