Ardeatinas

Depende de quem o diz

      Na pequena cidade de Albano Laziale, a 30 quilómetros de Roma, milhares de pessoas impediram que o ex-comandante nazi Erich Priebke fosse ali enterrado. «Priebke», disseram no Telejornal de ontem, «foi extraditado para Itália, condenado em 1998 a prisão perpétua pelo massacre das grutas Ardeatinas.» Ora dizem que são fossas, ora grutas, ora cavernas... É tudo o mesmo, querem ver? Bem, em italiano sabemos como é: fosse Ardeatine.
[Texto 3410]

«Gramática do Português»

Com 16 mil exemplos

      Acabam de me chamar a atenção para uma notícia do Diário Digital: é publicada hoje a Gramática do Português, «resultado de 13 anos de trabalho coordenado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa», com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. «“É uma gramática descritiva e explicativa acessível que responde a dúvidas que não são esclarecidas nas atuais gramáticas”, afirmou a investigadora Maria Bacelar do Nascimento, num encontro esta semana com jornalistas. A obra, que faz a ponte “entre a tradição gramatical” dos séculos XIX e XX e “os resultados da investigação linguística contemporânea”, destina-se “a um público com nível de instrução acima da média”, mas com explicações “tão simples quanto possível”.»
[Texto 3409]

«Cartola», uma acepção

A propósito de futebol

      «A presidente da República, Dilma Rousseff, sancionou a Medida Provisória 620, que inclui alterações na Lei Pelé e fixa, entre outros, a limitação dos mandatos e reeleições de dirigentes de entidades esportivas, a exigência de transparência financeira e administrativa e a participação de atletas e ex-atletas em conselhos e órgãos técnicos das instituições» («Dilma aprova lei contra a reeleição dos cartolas», F. S. P., Agora, 17.10.2013, p. B8).
      Para nós, coloquialmente, cartolas eram os indivíduos importantes. No Brasil, cartola é termo popular e pejorativo para designar os dirigentes de clubes desportivos.
[Texto 3408]

«Rádio de palavra»

Talvez seja melhor de música

      «Entre as rádios de palavra, a Antena 1, do Estado, e a TSF, da Controlinveste (grupo a que pertence o DN), mantiveram as suas posições relativas e comportamentos semelhantes, ambas subindo em relação ao período homólogo (+1,1 pontos percentuais) e caindo na comparação com vaga anterior (-0,3 pp, a TSF, e -0,4, a Antena 1)» («Comercial reforça liderança e TSF cresce no verão», N. A., Diário de Notícias, 16.10.2013, p. 51).
      Rádios de palavra, pois é — só é pena que na maioria do tempo sejam palavras sobre o futebol, essa doença nacional.
[Texto 3407]

Preferem «tournée»

Mais artístico talvez

      «Aos 66 anos, Elton dividiu seu tempo nos últimos meses entre a turnê de comemoração dos 40 anos de seu maior hit, “Rocket Man”, a recuperação de uma extração de apêndice, os cuidados com os filhos que ele e seu companheiro adotaram e a gravação deste “The Diving Board”» («Elton John grava canções desleixadas em álbum que não faz justiça a seu talento», Thales de Menezes, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E5).
      Este aportuguesamento — turné, aliás — ainda não entrou nos nossos hábitos. Ainda achamos (acham os jornalistas) que tournée diz mais. É mais artístico.
[Texto 3406]

«Amicus curiae»

Conhecíamos os da onça

      «O Procure Saber [grupo composto por Roberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros] deve entrar no processo como “amicus curiae” (parte interessada). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a ONG Artigo 19 já atuam na ação por meio do mesmo dispositivo» («Direito à privacidade divide advogados», Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      No glossário jurídico do sítio do Supremo Tribunal Federal (STF), lá está a definição: «Intervenção assistencial em processos de controle de constitucionalidade por parte de entidades que tenham representatividade adequada para se manifestar nos autos sobre questão de direito pertinente à controvérsia constitucional. Não são partes dos processos; atuam apenas como interessados na causa. Plural: Amici curiae (amigos da Corte).»
[Texto 3405]

Léxico: «civilizatório»

Só no Brasil

      «“As editoras já não aceitam biografias não autorizadas. A Alice Ruiz [viúva de Leminski] pediu alterações, inclusive na parte que fala sobre o problema dele com o alcoolismo. Isso transformaria o livro em chapa-branca. Decidi disponibilizar na internet como contribuição civilizatória” [disse o escritor Domingos Pellegrini]» («Livro sobre Leminski será enviado por e-mail», Wilhan Santin, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      Hum, os nossos dicionários não conhecem o vocábulo «civilizatório». Regista-o o Aulete: «Que tem atuação positiva no processo de civilização».
[Texto 3404]

«Estrato social»

Absolutamente lamentável

      «Para além da violência, índios e exotismos, mostra latino-americana exibe fotógrafos que exploram temas de seu próprio extrato social» («Autorretrato da classe média», Daigo Oliva, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E1).
      Se pensavam que estas pérolas do jornalismo só as encontrávamos em Portugal, estavam enganados. Numa das vezes que tratei desta questão no Assim Mesmo, escrevi: «A sociedade tem, como sabemos, camadas, como os terrenos sedimentares e os bolos de noiva. Camadas — estratos. Isso mesmo, leitor arguto: diz-se estrato social e não — oh horror! — extracto social.» Como não está no corpo da notícia, não há-de ser erro do jornalista Daigo Oliva, mas, como este é editor, recai sobre ele a responsabilidade.

[Texto 3403]

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