«Idem, aspas»

Em toda a parte, pelo menos

      «Onde se levantasse arraial, era sabido, aparecia padre; onde cheirasse a desgraça idem, aspas. E assim é que devia ser porque a palavra de Deus tem de estar em toda a parte, pelo menos» (O Burro-em-Pé, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2011, p. 65).
      É expressão que devia estar registada em todos os dicionários gerais da língua. Provavelmente, porém, não está em nenhum.
[Texto 3342]

Léxico: «zunga»

E quando é preciso, não usam

      «Zunga é como se chama a venda ambulante em Angola. A ela se dedicam essencialmente mulheres, conhecidas como zungueiras. Muitas vivem na “pobreza extrema”» («Human Rights Watch denuncia violência policial em Angola contra vendedores de rua», Ana Dias Cordeiro, Público, 1.10.2013, p. 35).
      «Pobreza extrema» com pinças, para não nos comprometermos, cara Ana Dias Cordeiro? E «zunga» e «zungueiras», mais abaixo — que até estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — em itálico.
[Texto 3341]

«Comprar», uma acepção

Porque é impossível

      «Perante a acrescida notoriedade nacional que esta vitória trouxe a Rui Moreira, haverá já quem se pergunte se não estará destinado a outros desafios, que ultrapassem o âmbito do Porto. Mas nenhum dos amigos e apoiantes com quem o PÚBLICO falou compra essa tese, e os vários cargos que Moreira foi discretamente recusando, incluindo uma Secretaria de Estado oferecida por Durão Barroso, parecem corroborá-lo» («O burguês de boas contas e que gosta da cultura», Luís Miguel Queirós, Público, 1.10.2013, p. 10).
      Esta é acepção que falta, pelo que pude ver, em todos os dicionários publicados deste lado do Atlântico. Para o Aulete, é «aceitar ou acreditar em (história, desculpa, etc.)». Não há dicionários perfeitos, completos.
[Texto 3340]

Léxico: «amimado»

Então não é

      «Foi desde esse momento que te amei. Eu sei que as mulheres já te devem ter dito isto muita vez, a ti, que és um menino amimado» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 119).
      Pois que me lembre, assim de repente, só em Camilo e em Eça já lera «amimado» em vez de «mimado». E nas traduções. Não é curioso?
[Texto 3339]

Ponto de exclamação invertido

Mas datável

      «¡A gente não mente na hora da morte de um filho único!» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 109).
      Sem data, sim, mas antes de 1945, com certeza — ali está o ponto de exclamação invertido —, pois só o Acordo Ortográfico de 1945 é que veio abolir as formas invertidas do ponto de interrogação e do ponto de exclamação.
[Texto 3338]

«Pernada», uma acepção

Passada larga

      «Os criados e os porteiros subiam e desciam febrilmente as escadas; acordaram todos os hóspedes e telefonaram para a polícia. Mas, no meio de todo este tumulto, o homem gordo, de colete desabotoado, passava em grandes pernadas, através da noite, soluçando e gritando, de forma insensata, um único nome: “Henriette!... Henriette!...”» (Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972, pp. 15-16).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cinco acepções do vocábulo «pernada»: movimento violento ou pancada com a perna; pontapé; passada larga; ramo grosso de árvore; braço de rio. Pena é, como muitos outros dicionários, a maioria, não acolher abonações.
[Texto 3337]

«Esporão/gume da quilha»

Já vamos ver

      «Enfim, tropeçando nas cordas e passando pelos cabrestantes, atingi a proa do navio, que avançava na sombra, e vi a claridade líquida da lua saltar, espumante, dos dois lados do esporão» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 13).
      Estão (marinheiros de água doce) aqui a dizer-me que em vez de «dos dois lados do esporão» é mais correcto «os lados do gume da quilha». Numa tradução francesa, lê-se «des deux côtés de l’éperon». Esta é uma questão para Paulo Araujo.
[Texto 3336]

«Húmido/úmido»

Molha, mesmo sem agá

      «Como tinha feito parar o ventilador [da cabina do navio], o ar úmido e engordurado molhara-me a testa» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 11).
      Mesmo sem agá, alguém fica sem perceber? E «herva» e «hontem», por exemplo, não perderam o agá? Alguém morreu por causa disso?
[Texto 3335]

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