«A datar desse momento»

A datar deste momento, os Garcins

      «A datar desse momento, aboliu-se toda e qualquer complicação tanto para Teresa como para os Desqueyroux» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 185).
      Pois se Cabral do Nascimento evitou o omnipresente «a partir de», nós também somos capazes. Quanto aos Desqueyroux, claro que não dá para perceberem, mas há mais exemplos: «– Conhece, é a senhora do Octávio Garcin... dos Garcins de Laburthe... Não são ainda aparentados? Estão agora em Paris» (idem, ibidem, p. 75). «As férias do Natal tinham trazido, na véspera à noite, Jorge Filhot a Saint-Clair. Foi a cozinheira dos Filhots quem preveniu, através do padeiro» (idem, ibidem, p. 186).

[Texto 3327]

E «placodermo»?

Sim, e o singular, cada espécime?

       «O Entelognathus tinha cerca de 20 cm de comprimento (o tamanho de uma sardinha). Era um peixe da classe dos já extintos placodermos, cuja cabeça e ombros estavam cobertos por placas ósseas e que são considerados como o tipo mais primitivo de peixes com maxilares. Mas – e é aí que está a novidade –, embora à primeira vista os maxilares de Entelognathus parecessem bastante banais, afinal não eram. Tinham a estrutura dos nossos próprios maxilares, algo inédito num peixe como este. “É a primeira vez que vemos ossos [faciais] deste tipo num placodermo. Até aqui, os placodermos conhecidos tinham maxilares essencialmente feitos de cartilagem”, explicou ao PÚBLICO Min Zhu num email» («Este pequeno peixe viveu há 419 milhões de anos e tinha uma cara (quase) igual à nossa», Ana Gerschenfeld, Público, 26.09.2013, p. 37).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e noutros dicionários, é muito comum estar registado o nome plural, mas não o singular. É outro erro.
[Texto 3326]

«Devolver o bote»

Há sempre novidades

      «Foi bem ela, desta vez, quem falou: era a Teresa pronta a devolver o bote, a que esse imprudente acabara de despertar» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 152).
      Não conhecia. Devolver o bote é devolver a censura de que se foi alvo. Já ir no bote é deixar-se enganar.
[Texto 3325]

Léxico: «rectossigmoidoscopia»

É só mais um

      Também não encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o termo médico rectossigmoidoscopia (exame endoscópico no qual se utiliza um tubo rígido, o rectossigmoidoscópio, inserido através do ânus para examinar o canal anal, recto e porção mais distal do intestino grosso), o que é razão quase suficiente para alguns médicos não o escreverem correctamente.
[Texto 3324]

«Cursar», uma acepção

Sempre se aprende

      «A maioria dos doentes», lê-se no texto, «recupera no período de uma semana, contudo, a infecção pode evoluir com agravamento dos sintomas e cursar com risco de vida.» Nunca tinha visto ser usada esta acepção do verbo «cursar» — seguir o curso de.
[Texto 3323]

«Croça da aorta»

Lá se foi uma convicção

      Vai para sete anos (!), escrevi esta nota de rodapé num texto que publiquei no Assim Mesmo: «É curioso, na verdade, que ninguém tenha dúvidas em designar o arcus aortae como “crossa da aorta”, pela semelhança, a curvatura, que tem com o báculo episcopal. Neste caso, parece não haver dúvidas de que o étimo é o francês.» Ninguém? Algo mudou. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, à parte recurvada da artéria aorta dá-se o nome de... «croça». E o Dr. Google também dá clara vantagem a esta grafia, o que jamais me deixaria abalado, se não fora juntar-se-lhe a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. E esta foi publicada há décadas. A coisa é muito simples: para muitos dicionários, «crossa» nem sequer existe. Bem, assim pelo menos é mais simples...
[Texto 3322]

«Sentenciar» e «comprazer»

À escolha

      «Está a perder o cabelo, como um homem; é verdade, tem a testa devastada dum sujeito idoso: “testa de pensador”, sentenceia em voz baixa» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 13). «Teresa representara um bom papel, comprouvera-se nas atitudes tomadas» (idem, ibidem, p. 82).
      Igualmente correctas — meras variantes —, agora optar-se-ia, decerto, por «sentencia» e «comprazera-se».

[Texto 3321]

«Conforme»

Só à medida


1. «Jorge não sabia que ripostar. Conforme se aproximava a hora da partida, Maria menos afastava os olhos dele, observando-o com atenção — como se bebesse antecipadamente, prevendo que ia ter sede» (p. 84).

2. «E, conforme falava, ela tinha a certeza de que as suas palavras indispunham o convidado mais e mais contra Maria» (p. 108).

3. «Conforme ia enumerando os motivos que tinha um rapaz de vinte anos para amar a vida, Teresa recuperava pouco a pouco o tom de ironia: Jorge apurou então o ouvido e ergueu o rosto ávido e triste» (p. 121).

4. «– Até à distribuição dos prémios, tornei-me mais irritado e duro conforme o via mais triste» (p. 127).

      São os quatro exemplos da obra O Fim da Noite, de François Mauriac, com tradução de Cabral do Nascimento (Lisboa: Estúdios Cor, 1957). Hoje, já se sabe que nem um «conforme» ali estaria naquelas frases. É triste ver-se assim a língua a afunilar, a empobrecer. Bela história, este O Fim da Noite. Agora vou ler a primeira parte, Teresa Desqueyroux, na tradução publicada dois anos antes também pelos Estúdios Cor.
[Texto 3320]

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