«Moto-quatro» ou «moto quatro»?

Eu ligo

      «Salvu Vella, 61 anos, chega à torre de Santa Maria, na ilha de Comino, cavalgando numa moto-quatro. É a mesma torre onde o realizador Kevin Reynolds filmou uma adaptação do romance O Conde de Monte Cristo, em 2002. Salvu chega à hora combinada. Veste um macacão de padrão camuflado e um chapéu cinzento — indumentária que torna mais fácil distingui-lo de um qualquer turista» («O homem pós-moderno da ilha não deserta», Fábio Monteiro, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 12).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen, «moto quatro», mas creio que é melhor com hífen.
[Texto 3311]

Léxico: «circanual»

Há quarenta anos

      Muita gente (mas sempre menos do que se possa pensar) conhece o conceito e a palavra circadiano: relativo à duração de 24 horas ou um dia; em fisiologia, diz-se do ciclo biológico de aproximadamente 24 horas. Os médicos, porém, usam, em relação a outros fenómenos (as enxaquecas em salvas, por exemplo), outro termo, que não está nos nossos dicionários: circanual. Está nos dicionários de língua inglesa: «noting or pertaining to a biological activity or cycle that recurs yearly».
[Texto 3310]

«Ruptura», um caso triste

Mas este é o pior

      Aquele jornalista disfarçado não pôs o dedo na ferida, não senhor: sou mesmo contra o Acordo Ortográfico de 1990. Mas temos de usar a cabeça. E já fiz mais do que muitos contra o AO: a minha opinião foi, em alguns casos, decisiva para não se adoptarem as novas regras ortográficas, além de todo o meu continuado labor de divulgação. Vamos lá ver: faz algum sentido afirmar, como se lê por todo o lado, que, em relação ao vocábulo «ruptura», se inventou uma terceira variante? Porque havia de ser logo neste caso que o princípio fonético ia ceder em favor do princípio histórico-etimológico? Porque é que só em relação a este caso aduzem o argumento de que houve «esquecimento das raízes das palavras», pois «ruto» não existe em português? Há muito por onde atacar o AO, a começar na necessidade e na oportunidade, não percam tempo com invencionices apalermadas.
[Texto 3309]

«Aporte», um galicismo

Seria menos um

      Já que andamos, nos últimos tempos, a falar tanto de termos médicos, não podemos substituir o galicismo aporte, em frases como «o aporte de oxigénio às células cerebrais», por termo genuinamente português?
[Texto 3308]

«Hemorróide/hemorróida»

Contra o AO

      «Em Junho e Julho pode apanhar folhas de figueira sãs, secá-las à sombra e depois pode utilizá-las para fazer infusões, às quais são reconhecidas propriedades anti-helmínticas, e são também usadas no tratamento de dermatites e hemorroides» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      Têm de dizer ao autor, engenheiro agrícola e professor universitário, que o Público não adoptou ainda (nunca?) o Acordo Ortográfico de 1990 (por vezes, nem o de 1945), para ele escrever «hemorróides», assim, com acento. Digam-lhe também que é «anticarcinogénicas» que se escreve. Não lhe digam, mas fiquem a saber que o termo «hemorróidas» (ou «hemorróides») designa propriamente os vasos sanguíneos que existem na porção terminal do recto e do ânus, e que talvez só por facilidade usamos para referir a dilatação varicosa das veias do plexo hemorroidário, acompanhada de edema e inflamação.
[Texto 3307]

Léxico: «unífero»

«Poético», lê-se no Aulete

      «Quando os figos crescem em ramos do ano anterior e a sua maturação ocorre pelo final de Junho/início de Julho, são figos lampos; por sua vez, quando frutificam em ramos do ano e a maturação ocorre a partir de Agosto até às primeiras chuvas, são figos vindimos. Há variedades que produzem só um destes tipos (uníferas), enquanto outras produzem figos lampos e vindimos (bíferas)» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      O adjectivo bífero — que dá flor ou fruto duas vezes no ano — está em todos os dicionários; o adjectivo unífero não está em nenhum.

[Texto 3306]

Ortografia: «megaespaço»

Sem esperança de mudança

      «Os fundadores dos Yotel foram beber à primeira classe da aviação, mas também ao Japão, claro. Agora, preparam-se finalmente para encetar operações na Ásia com um mega-espaço em Singapura, cujas 600 cabines devem abrir em 2018» («Dormir no aeroporto? Num sarcófago, se faz favor», Joana Amaral Cardoso, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 21).
      Ortografia não é com eles, e especialmente se envolve elementos de formação de palavras. E a existência da analogia escapa-lhes completamente, claro está. E diz-se «os Yotels», sem qualquer dúvida.

[Texto 3305]

Sobre pontuação

O cru e o cozido

      A frase era semelhante a esta — até o nome do autor tinha também hífen. «Tal como ressalta Lévi-Strauss (1964, 48), “le savant n’est pas l’homme qui fournit les vraies réponses, c’est celui qui pose les vraies questions”.» Esperem, está aqui um recado para mim: «Aqui não deve haver vírgula.» Como disse? Tem a certeza disso que está a afirmar? Não, não: trata-se de uma oração subordinada conformativa. O local normal desta oração seria após o verbo da oração principal; como está invertida, é necessária a vírgula. Aliás, pela sua natureza adjunta, é sempre necessário estar entre vírgulas.

[Texto 3304]

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