Tradução: «work through»

Só falta o verbo

      O original, uma obra de medicina, falava em «work through», que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista: trabalhar sem parar; influenciar, afectar; avançar (em); (problema, situação) lidar com, resolver». O tradutor, contudo, verteu por «perlaborar». Work through é termo da psicologia: «to resolve (a problem, esp an emotional one), by thinking about it repeatedly and hence lessening its intensity either by gaining insight or by becoming bored by it». «Perlaborar», na verdade, não vejo em nenhum dicionário. «Perlaboração» está no Aulete: «Processo pelo qual o psicanalisando integra uma interpretação e supera as resistências que ela suscita; elaboração interpretativa.»

[Texto 3303]

Mais uns quantos que faltam

E por aí fora

      Que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe «nutracêutico», nem sequer acho mal. Se já não podemos esperar que Bernardes e Vieira o usem — porque a História vai para a frente e não para trás —, pelo menos devemos aguardar que o conceito estabilize e o vocábulo se use mais. Mas talvez devesse registar, sei lá, «sonofobia», pois que regista muitas outras semelhantes; «hipocalcemia», pois regista «hipercalcemia»; «dermatófito», «hipomagnesemia», «osteopenia» e «xerostomia», porque estão no Dicionário de Termos Médicos e no Vocabulário Ortográfico; «hipocaliemia», já que regista «hipercaliemia»; «hiperuricemia», já que acolhe «hiperglicemia»; «liquor» e «rinifima», pois estão ambos no Dicionário de Termos Médicos.
[Texto 3302]

«Estrato socioeconómico»

E agora um médico

      Pois desta vez foi um médico a escrever o grande disparate: «extracto socioeconómico»! Caramba, será que nunca viu a expressão nem o vocábulo «extracto» num dicionário? Tudo é possível. É estrato socioeconómico, porque se refere aos grupos ou camadas da sociedade. Agora só falta que prescreva o *estrato de alguma planta...
[Texto 3301]

Comorbidade, acneico, aprático

Ainda na área médica

      E já que tenho andado por aqui, nos últimos oito anos, a denunciar os erros, falhas e incongruências nos dicionários, eis mais três de uma vez: «comorbilidade» (ou «comorbidade»), «acneico» e «aprático» (ou «apráxico») não estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Contudo, aprático encontramo-lo no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora; comorbidade e acneico estão no Vocabulário Ortográfico da mesma editora e, portanto, falta-lhes a definição.
[Texto 3300]

Léxico: «dermoabrasão»

Não se percebe

      Neste caso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não apresenta a incoerência que acabámos de ver em relação a «hipestesia/hipoestesia». Nada disso: apenas regista a grafia dermabrasão («processo cirúrgico que consiste na raspagem da pele até à camada dérmica com o objectivo de remover sinais, cicatrizes ou outras imperfeições»), quando muitíssimo mais usada é a variante, igualmente correcta, dermoabrasão.
[Texto 3299]

«Hipestesia/hipoestesia»

Nem pensar

      É um problema — um erro — comum a vários dicionários: registarem variantes com definições diferentes. Veja-se o caso de hipestesia/hipoestesia no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em hipestesia, regista: «diminuição da sensibilidade»; em hipoestesia, regista: «diminuição relativa, sem ir até à supressão do conjunto, de várias ou de uma das sensações». Ora, não pode ser, e muito menos quando não têm, como é o caso, remissões recíprocas.
[Texto 3298]

«Manteiga em nariz de cão»

Continuem

      «Esta mentira, camaradas e amigos», disse ontem, em Évora, Jerónimo de Sousa, «durou tanto como manteiga em nariz de cão.» É o único dirigente político português cujo discurso merecia um estudo, mas é ver o que se diz nas redes sociais: que não sabem como ele inventa estes ditados; que não é «nariz», mas «focinho», etc. Nada sabem nem nada investigam, pensam, e pensam mal, e escrevem. Nariz é outra forma de nos referirmos ao focinho dos animais. Este ditado concretamente pode ler-se, por exemplo, em Herculano. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira cita esta frase de Rebelo da Silva: «– É segredo! e segredo em boca de mulher derrete-se que nem manteiga em nariz de cão!... Sabe o ditado, tia Angélica?...» (De Noite Todos os Gatos tão Pardos).
[Texto 3297]

«A partir de»

Porque dá que pensar

      Há pessoas que, vá-se lá saber porquê, ficam sempre irritadas com estas estatísticas, mas cá vai, afoitamente: num texto de pouco mais de 200 páginas, encontrei 183 vezes a expressão «a partir de». É muito, é pouco? Bem, na maioria das vezes, foi possível alterar para melhor. Agora vejam aí num dicionário, pode ser no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «a partir de: de … em diante». Nada mais. Ora, as ocorrências da expressão naquele texto repartem-se igualmente pelas três acepções que encontramos num bom dicionário de francês: «a) en prenant pour point de départ (un lieu); b) à compter de, à dater de (un moment dans le temps); c) en prenant comme origine; d) en prenant comme origine logique». Não chegamos a ser mais Franceses do que os Franceses, mas ultrapassamos e bem tudo o que os nossos dicionários admitem. Mesmo tendo em consideração os erros e as falhas que encontramos (eu encontro) todos os dias nos dicionários, é obra. Pensem nisto.
[Texto 3296]

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