«Tampa/tampo»

A ser assim, indiferente

      «Caetano Alves bateu com a cara em cheio na tampa do caixão cintado de ferro» (A Filha do Doutor Negro, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livrarias de Campos, Júnior, 2.ª ed., s/d, p. 203). É assim que sempre ouvi e li, mas o tradutor verteu couvercle du cercueil por «tampo do caixão». No entanto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tampa é a «peça móvel com que se tapa ou cobre um recipiente ou caixa», e tampo a «cobertura de recipientes grandes (arca, mala, etc.)». Ora, a ser assim, facilmente podíamos incluir neste etc. «caixão».
[Texto 3287]

Tradução: «globetrotter»

Com destino e sem destino

      «João Paulo II foi um papa globetrotter», dizia o texto. Bem, não é mentira, mas é triste ter de usar um termo inglês para dizer coisa tão comezinha. Na língua castelhana ficou bem resolvido: trotamundos: «persona aficionada a viajar y recorrer países». Perfeito. Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e que vemos? «viajante incansável». E «vagamundo», serve? Bem, quase: «que ou o que corre o mundo sem finalidade determinada». Enfim, vagabundo. Mas o papa, pelo menos ele, corre o mundo com uma finalidade determinada. Não é muito raro ver a palavra «trota-mundo(s)» em autores brasileiros. «“Sou um trota-mundo” — disse. “Calhou de ser a Irlanda, então, Irlanda! Você vai comigo, Aninha? Antes, quero acabar o seu retrato.” Falava muito nesse retrato, que já tinha começado. E nas viagens que faríamos montados na sua moto» (Os Filhos Pródigos, Lygia Fagundes Telles. São Paulo: Livraria Cultura Editora, 1978, p. 56). Contudo, consultamos o Dicionário Aulete, que regista «trota-mundos», e a definição não é diferente da de «vagamundo»: «indivíduo que anda sem destino, vagueando; andarilho; vagabundo».
[Texto 3286]

Tradução: «bleu de travail»

Ora, não custava nada

      É em França, e os funcionários do cemitério estavam vestidos de bleu de travail. Correu tudo bem, mas é preciso dizer que o Dicionário Francês-Português da Porto Editora ignora a expressão. O Dicionário Português-Francês regista, é verdade, para fato-macaco, bleu; salopette; combinaison. Contudo, todos os cuidados são poucos.
[Texto 3285]

Tradução: «Je suis désolé»

Sem desculpa

      Um pequeno desaire, e é logo: «Je suis désolé, je suis vraiment désolé.» A torto e a direito. Exagero melodramático dos Franceses. O tradutor experimentado é que não pode usar a palavra «desolado», porque não é assim que nós falamos. Também o I’m afraid not inglês aparece muitas vezes mal traduzido. Vá lá, um pouco mais de esforço.
[Texto 3284]

Léxico: «copa»

Copa C 18

      A miúda estava na praia. Aqui este mariola enfiou a mão «por dentro do boné, descobrindo-lhe o peito». A culpa é dos dicionaristas, pois claro. No Dicionário Francês-Português da Porto Editora lemos que bonnet é «cada uma das duas partes ou bolsas do soutien». Os tradutores não dedicam mais tempo à questão: são os «bonés». Mas há outro problema: o vocábulo copa, na acepção de cada uma das partes ocas ou bolsas que cobrem os seios, não está registado nos dicionários. E usa-se todos os dias, a toda a hora, por homens e mulheres.

[Texto 3283]

Sobre «estrado»

Símbolo de poder

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a primeira acepção de estrado é esta: «sobrado um tanto acima do chão ou de outro pavimento». Assim, ou a segunda acepção (que não encontramos, por exemplo, no Dicionário Houaiss) é desnecessária ou faltam outras acepções: «estrutura plana junto ao altar onde o sacerdote põe os pés enquanto celebra a missa». E então o estrado que havia dantes nas salas de aulas, alguns com meio metro de altura, que separavam simbólica e realmente a área reservada ao professor da área reservada aos alunos?
[Texto 3282]

Como se escreve nos jornais

«Liderar orações»!

      «O Governo do Egipto proibiu a actividade de 55 mil imãs não-licenciados, que foram classificados como “fundamentalistas” e “ameaças para a segurança nacional” e impedidos de liderar orações em mesquitas e outros centros religiosos» («Governo proíbe actividade de 55 mil imãs», Rita Siza, Público, 11.09.2013, p. 21).
[Texto 3281]

«À droite à gauche»

Numa rápida sucessão

      «On baise à droite à gauche», escreve Houellebecq: «fode-se a torto e a direito». Sem conjunção, ainda percebo; mas também sem vírgula? O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «à doite et à gauche», à direita e à esquerda; de todos os lados; em todo o lado. No Diário de Maria: «Já não sou acompanhante, embora continue a foder a torto e a direito» (Lisboa: Oficina do Livro, 2013).

[Texto 3280]

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