«Farrobodó» ou «forrobodó»?

Nada de novo

      Alguém me disse que Shyznogud, no Jugular, chamou por mim. Como foi ontem à noite, ainda não correu muito sangue. A questão é simples: «Há cerca de um mês, aquando da instalação de Paulo Portas no Palácio dos Condes de Farrobo, vi surgir na imprensa uma palavra para mim desconhecida: farrobodó. Toda a minha vida disse – e escrevi – forrobodó e estranhei a grafia que foi, amiúde, acompanhada de uma explicação similar à surgida na Visão [...] Não tenho outros dicionários à mão para verificar se esta ausência de “farrobodó” é geral e se há outra etimologia proposta.»
      Comecemos pelo fim: não percamos tempo com a etimologia, matéria não poucas vezes do domínio das suposições e da fantasia. O que se sabe ao certo é que a palavra não era conhecida antes do fim do século XIX. Conheço apenas um dicionário de sinónimos que regista a variante «farrobodó». No entanto, na larga maioria das vezes, foi esta forma que ouvi na boca do falante comum e não faltam exemplos na literatura. Aquilino, por exemplo, talvez não use nunca a variante «forrobodó», mas apenas «farrobodó». Para mim, são verdadeiras variantes, que uso indiferentemente.
[Texto 3271]

Léxico: «hemianopia/hemianopsia»

Nunca como agora

      Pascal de vez em quando pensava que um precipício se lhe abria ali mesmo ao lado da sua mão esquerda, e então puxava uma peça de mobiliário para esse lado. Os contemporâneos brincavam: é l’abîme de Pascal. Tratava-se de uma hemianopia passageira do lado esquerdo. Se consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vemos que só regista a variante hemianopsia. Ora, nunca foi tão fácil enriquecer, corrigir e melhorar os dicionários como no presente.
[Texto 3270]

Tradução: «watered silk»

A terceira língua

      O cúmulo da abdicação, no que respeita à língua e à tradução, é traduzir uma palavra ou uma expressão — watered silk, por hipótese —, não por uma palavra ou expressão portuguesa — ainda no mesmo exemplo, «seda ondeada» —, mas por uma expressão ou palavra de uma terceira língua: «seda moirée». Mas já alguém dirá que não é bem, bem o mesmo, e por isso...
      «Deus concedeu às mulheres de Londres o privilégio duns lindíssimos cabelos, fartos, todos feitos de delicados fios de fina seda ondeada, que, soltos, se adamascam de mordentes reflexos» (Londres Maravilhosa e Outras Páginas Dispersas, Manuel Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, 1960, p. 21).
[Texto 3269]

«Quemose, quemótico...»

E muitos outros

      Assim de repente, vejo que hoppy, waterbrash, chemotic, epiphora, laryngospasm, neurogenic, scotomatous, hypnagogic, diencephalon não estão no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora.
      E, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não vejo «mesomórfico», «neurogénico», «escotomatoso»... E também não via «quemose» e «quemótico» — que, todavia, encontro na magnífica Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira —, mas sugeri hoje de manhã a sua inclusão e já estão dicionarizados.
[Texto 3268]

Tradução: «liverish»

Está doente

      A pobre criatura sofria de um «liverish feeling», ou seja, ou seja... Ahn, bem... O tradutor diz que é de um «sentimento hepático». Há-de ser apenas, digo eu, porque para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora liverish é coloquial e se diz do «doente do fígado; achacado a problemas do fígado». («Achacado a» já vi, é verdade, mas tenho sérias dúvidas que seja correcto.) Não será antes «sentimento irritável» ou «sentimento bilioso»?
[Texto 3267]

Sobre «legista»

Metade de certo

      «Da mesma forma, foram lançadas dúvidas sobre o relatório médico-legal inicial assinado pelos três legistas, incluindo Thomas Noguchi. O legista das estrelas (que autopsiou entre outros os cadáveres de Marilyn Monroe, Robert Kennedy, Janis Joplin e John Belushi) e os seus colegas terão sido negligentes na autópsia?» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Legista, para nós, é somente o especialista em leis; jurisconsulto; jurisperito. O tradutor devia ter escrito médico-legista.
[Texto 3266]

«Tratar-se de»

Nem daqui a trezentos anos

      «As lesões têm entre 1,25 a 5 centímetros de diâmetro. São retiradas amostras de algumas delas para observação ao microscópio, que revela tratarem-se de “hemorragias subcutâneas recentes”, compatíveis, segundo o relatório, com equimoses recentes e superficiais» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Não, nem pensar: «entre 1,25 e 5 centímetros». Perturbado, o tradutor esqueceu-se que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, ele talvez agradeça.
[Texto 3265]

Sobre «revelim»

Nebulosa

      «A fortaleza militar de Almeida, rodeada por um fosso, foi construída nos séculos XVII e XVIII. Tem forma hexagonal e é constituída por seis baluartes (São Francisco, São Pedro, Santo António, ou de Santa Bárbara e de São João de Deus) e igual número de revelins (da Cruz, dos Amores ou Hospital de Sangue)» («Câmara de Almeida candidata antiga praça-forte a Património Mundial», Público, 2.09.2013, p. 17).
      Constituída por seis baluartes — e depois nomeiam quatro... Mas isso agora não interessa. Revelim (ou rebelim, que os dicionários já esqueceram) é, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a «construção externa de duas faces, que formam um ângulo saliente, para cobertura ou defesa de uma obra de arte». No mínimo equívoca, esta definição.
[Texto 3264]

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