«Contradição em/nos termos»

Em termos linguísticos

      O autor terminou o raciocínio a pedir: «desculpem a contradição em termos». Já todos lemos dezenas de vezes a expressão «contradição em termos». E outras tantas «contradição nos termos», que me parece mais conforme à nossa língua. Aquela está mais colada ao inglês contradiction in terms. Sinónima é a expressão latina contradictio in adjecto. Literalmente, contradição no que se acrescenta.
      «Esta ideia é de tal forma inovadora que a primeira reacção é pensar que “verdade empírica necessária” é uma contradição nos termos» (Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 13).
[Texto 3255]

Léxico: «hipertelia»

E também este

      «O mundo em que vivemos entrou num regime de manifestação hipertélica de onde só sairá por interrupção catastrófica. A hipertelia é uma lógica coerciva que impele qualquer coisa para além dos seus próprios fins, anulando os seus objectivos primeiros e instituindo um conflito interno, uma espécie de silencioso dilema que não pode ser resolvido e só pode prosseguir na sua via fatal» («Os conflitos da liberdade de expressão», António Guerreiro, «Ípsilon»/Público, 30.08.2013, p. 24).
      Também estes não os encontramos em muitos dicionários. Esta acepção, concretamente, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas regista um sentido. Basta ver que o Aulete regista quatro acepções, e nenhuma coincide com a registada pelo dicionário da Porto Editora. Neste caso, hipertelia é, segundo o Aulete, a «situação, e sua lógica intrínseca, que determina o movimento de um sistema para além de sua finalidade racional [Termo criado por Baudrillard]».
[Texto 3254]

Léxico: «dactiloscrito»

Acrescentem

      «Dactiloscrito do poema The Copulation Blues, assinado à mão por Bukowski e datado do dia 9 de Maio de 1973» («Site dedicado a Bukoswki reúne poemas, cartas, fotos e até a ficha no FBI», Luís Miguel Queirós, Público, 30.08.2013, p. 32).
      Não está em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3253]

Tradução: «enveloppe»

Pois, mas não

      «No raciocínio — elaborado — do procurador [John Miner], a ausência de resíduos de comprimidos no estômago seria incompatível com uma absorção maciça por via oral: a ingestão de uma quantidade importante de cápsulas de Nembutal teria causado a morte antes que estas (e o seu envelope amarelo) se tivessem dissolvido completamente no estômago» («Marilyn Monroe. Os comprimidos da infelicidade», Sandrine Cabut, Público, 30.08.2013, p. 26).
      Como temos — mas não precisamos — «envelope», o tradutor achou que bastava tirar um p ao francês enveloppe e estava tudo bem. Não está: neste caso, deve ser traduzido por envoltório, invólucro.

[Texto 3252]

«Genuidade»?

Devolvam-nos a sílaba

      «Segundo Sílvia Machado, as características que atestam a genuidade e a classificação de um azeite podem perder-se ao logo da cadeia do produto: na produção, mas também no armazenamento, na distribuição ou na comercialização. Os azeites chumbados pelo teste da Deco não punham em causa a saúde e a segurança das pessoas» («Deco nega falta de rigor em teste do azeite», Público, 30.08.2013, p. 11).
      Ainda será resultado da lei do menor esforço ou antes mero desmazelo e ignorância? O que sei é que Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, apenas regista «genuinidade».

[Texto 3251]

Como se escreve nos jornais

Mas que bem

      «As chamas rodearam várias aldeias no Parque Natural do Alvão. Ventos fortes dificultaram o trabalho dos bombeiros. De tarde, labaredas continuaram a ganhar terreno. Foram accionados três meios áreos pesados e duas máquinas de rasto militares» («DGS alerta para concentração de fumo no Porto», Ana Cristina Pereira, Público, 29.08.2013, p. 7).
      Cá estão, novamente, várias frases seguidas sem nenhum articulador, simplesmente justapostas. É a desagregação da linguagem. Depois disto, os jornalistas passarão a dar-nos meras notas, alcançando dessa maneira a almejada objectividade.
[Texto 3250]

Como se escreve nos jornais

Que bem que eles escrevem!

      «Essa passagem [do discurso de Martin Luther King], que passou largamente desapercebida nas notícias do dia seguinte, levou um dos directores do FBI, William Sullivan, a escrever num relatório que Martin Luther King se tinha tornado “o negro mais perigoso para o futuro do país, do ponto de vista do comunismo e da segurança nacional”» («Discurso histórico está protegido por lei até 2038», Público, 29.08.2013, p. 20).
      Como não têm tempo para escrever bem, escrevem mal. Exige um bocadinho mais de esforço, mas é o emprego deles, e por isso não se importam.
[Texto 3249]

Tradução: «political junkie»

Fanáticos

      «Mas o orador que falou ontem, num dia chuvoso, apresentou um discurso familiar — tão familiar que os junkies políticos de Washington foram buscar os primeiros e famosos discursos de Obama (como o que fez na Convenção Democrata em 2004) para concluir que eram semelhantes» («Obama tem um sonho: igualdade económica para todos os americanos», Kathleen Gomes, Público, 29.08.2013, p. 20).
      Vamos imaginar que o leitor do Público só tem à mão o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Que encontra no verbete «junkie»? O termo de calão para «drogado». Ora, em inglês, um political junkie é um fanático da política, alguém que segue, de forma obsessiva, tudo o que diz respeito à política. E isto precisava de estar em inglês? É claro que não.
[Texto 3248]

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