«Gibraltarino» e «gibraltino»

E já não é mau

      «A Assembleia Geral da ONU aprovou várias resoluções apelando ao início de negociações entre Espanha e Reino Unido para pôr fim ao colonialismo em Gibraltar. Isto levou ao referendo de 1967, em que 99,64% dos llanitos (como em Espanha se designam os habitantes de Gibraltar) disseram querer continuar a ser britânicos» («Um troféu de guerra britânico que Espanha nunca desistiu de tentar recuperar pela espada ou pela caneta», Clara Barata, Público, 13.08.2013, p. 25).
      Isso são lá coisas dos Espanhóis, ou de alguns — Álvaro I. Sanromán optou (ou esqueceu-se?) por não a incluir no Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, que salta de llaneza passa para llano. E nos verbetes gibraltareño e gibraltareños também não a usa. Nós, para os habitantes do Rochedo, só temos duas designações: gibraltarino e gibraltino.
[Texto 3177]

As aspas intrometidas

Não se justificam

      «Até aos anos 1980, os comboios portugueses tinham não um segundo maquinista mas sim um “condutor”, que tinha como função dar o alerta à aproximação dos sinais, dizendo em voz alta “aberto” ou “fechado” consoante a posição destes. Uma medida destinada a reforçar a segurança no caso de o maquinista ir distraído. [...] Os “condutores” — que descendiam dos antigos fogueiros que punham carvão nas locomotivas — passaram a ser uma classe em extinção e hoje só se mantêm nos comboios de mercadorias» («Acidentes abrem debate sobre as vantagens de um segundo maquinista a conduzir comboios», Carlos Cipriano, Público, 12.08.2013, p. 9).
      As aspas devem ser porque «condutor» é quem conduz — e este segundo elemento apenas assinala, alerta. Mas nada justifica as aspas, porque é esse o nome da função. E mais, o próprio jornalista afirma que «a mesma evolução tecnológica que tornou dispensável o segundo elemento na condução do comboio, etc.». Na condução, então.
[Texto 3176]

«Ciclopista»?

Ora, já temos outra

      «No que diz respeito à possibilidade de o serviço vir a estar ao alcance de visitantes ocasionais, Nuno Santos diz estar a “avaliar” a situação, acrescentando que a rede de 30 quilómetros de ciclopistas está aberta a todos» («O uso da bicicleta “chique” em Vilamoura virou moda nas idas à praia», Idálio Revez, Público, 12.08.2013, p. 13).
      Até agora, «ciclopista» só da boca ou da pena de espanhóis é que a vi sair. Já temos o neologismo «ciclovia», talvez chegue.
[Texto 3175]

Léxico: «chega»

Chega!

      Ontem, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem sobre chegas de bois de raça barrosã (com mais de 1000 kg!) em Montalegre. A entrada custava 10 euros, e o prémio para o dono do vencedor foi de 750 euros. Tudo ficou resolvido em 2 minutos. Dantes, a chega era a luta entre bois do povo, isto é, sementais, bois reprodutores que pertenciam a toda a aldeia. Pois acontece que a palavra «chega», nesta acepção, não está em todos os dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Às tantas, até nos dicionários de galego se encontra, pois os galegos arraianos com o Barroso, os de Randin, Muínos, Baltar, também tinham antigamente chegas de bois. Não é assim, Fernando Venâncio?

[Texto 3174]

Léxico: «mandinga»

Não me mandingues!

      Só hoje, que cheguei ao conhecimento do Antigo Breviário de Rezas e Mandingas, é que soube que até as dores de cabeça têm patrono — Santo Aspácio. A mim tem-me feito bem Aspegic (que fica aqui para não estar apenas nas crónicas de António Lobo Antunes. Ala). Ah, sim, e também não conhecia a palavra «mandinga» — feitiçaria, sortilégio —, que recebemos de África.
[Texto 3173]

Léxico: «contrapicado»

Do cinema para todo o lado

      «Depois ninguém sabe explicar o que se deu. Se foi dos eflúvios etílicos que envolveram a sala, se foi o olhar contrapicado do médico agachado no chão para a cara seguramente sinistra de Joaquim – e, olhada de baixo, toda a gente assume um ar aterrador» (Que Importa a Fúria do Mar, Ana Margarida de Carvalho. Lisboa: Editorial Teorema, 2013).
      Tem de ser o Dicionário Houaiss a registá-lo e a dizer que se trata de um lusismo, pois os nossos dicionários, estranhamente, omitem-no. É mais um — ou menos um, conforme a perspectiva.

[Texto 3172]

«Está bem, abelha»

Como quem manda à merda

      Acabei de ler a expressão, que não ouvia nem lia há muito, e lembrei-me que Cardoso Pires a usou várias vezes nas suas obras. «Sorriso maldoso do inspector. Óculos escuros é com ele, mas em tecnicolor polaroid. No entanto faz-se desentendido; pensa: Está bem, abelha. E recosta-se na cadeira. Tem a ordem de captura à mão de assinar mas quer ouvir primeiro, saber opiniões. Opiniões? Elias não há meio de entender por que diabo aparece o mangas da secretaria metido naqueles expedientes. Conselheiro chamado de aflição para os devidos efeitos?» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, 17.ª ed., p. 136).
[Texto 3171]

«Período compulsivo»

Também foi

      «“Entendeu-se que [o palacete] era ideal para albergar sindicatos e uma cooperativa, a Cooperativa de Produção e Consumo Proletário Alentejano”, recorda Valverde Martins [antigo coordenador da União dos Sindicatos do Distrito de Beja]. Sem conseguir precisar a data da entrada na casa, recorda ter sido “no período compulsivo a seguir ao 11 de Março”» («“Sentíamos repulsa por eles. Quando me entregaram a chave da casa senti que era justo”», Vanessa Rato, Público, 11.08.2013, p. 12).
      Pois, foi isso que disse Valverde Martins, e a jornalista, mesmo vendo que está incorrecto, que é um lapso manifesto, deixa tal qual. Mas sim, também foi um período compulsivo para alguns, como os grandes proprietários, os latifundiários, alguns militares que não sabiam exactamente o que estavam a fazer, porque nada lhes era explicado ou eram enganados...
[Texto 3170]

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