Léxico: «occisar»

Muito lidos, os legisladores

      Diz o artigo 6.º, n.º 5, do Decreto-Lei n.º 113/2013, publicado hoje no Diário da República: «O disposto nos n.os 2 e 3 não é aplicável sempre que, em circunstâncias de emergência e por razões de bem-estar, de saúde pública, de segurança pública, de saúde animal ou de ordem ambiental, seja necessário occisar os animais.»
      Occisar é matar, não há dúvida, mas não encontramos o vocábulo em nenhum dicionário da língua portuguesa. Encontramos, e nem sequer em todos, occisão, porque a tendência, estamos fartos de o comprovar, é os dicionários irem deixando palavras pelo caminho. O dicionário da Real Academia Espanhola regista também occiso, «morto violentamente».
[Texto 3157]

Mais colocações hediondas

Reagir a pedido

      A pergunta do jornalista Luís Soares, no noticiário das 9 da manhã da Antena 1, a Nicolau Santos foi muito simples: «Este comunicado das Finanças vem esclarecer alguma coisa ou vem colocar ainda mais confusão em toda esta história?»
      A Antena 1, dissera antes o jornalista, tem estado a «pedir reacções aos partidos com assento parlamentar» sobre este caso, mas ainda era cedo (menos para o PS, que «reagiu numa declaração por escrito», na qual afirmou que isto era «um triste espectáculo», e disso eles percebem). «A maior miséria da vida humana (outros dirão outra), eu digo que é não haver neste mundo de quem fiar», lê-se hoje no «Escrito na pedra» do Público.
[Texto 3156]

Tradução: «verja»

Coisas de Espanha

      Para Carmen Crespo, delegada do Governo espanhol na Andaluzia, diálogo com o Reino Unido sim, «mas a primeira coisa que deve ser feita é retirar esses blocos de cimento, permitir aos pescadores que pesquem e os controlos da passagem estão estabelecidos, e o governo faz um controlo exaustivo do seu lado, contra o contrabando e contra a fraude fiscal». Não se podia traduzir de forma muito diferente. Em castelhano: «y el control de la verja es un control que esta firmado, que está estabelecido». Verja é o nome que Espanha — para evitar o termo «fronteira» — dá ao limite entre o território dominado pelos Britânicos e o dominado pelos Espanhóis no istmo de Gibraltar. O termo, que vem do francês verge e aparece muitas vezes com maiúscula (como, oh ironia, numa edição em linha do Jornal de Notícias: «as medidas de controlo que Espanha leva a cabo na Verja (fronteira entre Espanha e Gibraltar)»), significa vedação, cerca, e refere-se à cerca que no início do século XX o Reino Unido ali construiu, consagrando assim a ocupação do território.
[Texto 3155]

À volta do AO

Muito para despiorar

      «Para além das razões linguísticas e políticas, espero que estas razões sejam tidas em conta, para que a AR proceda à desvinculação ao tratado. [...] A partir do grupo “Em aCção contra o Acordo Ortográfico”, do Facebook (https://www.facebook.com/groups/emaccao; para o qual gostaríamos de convidar todos aqueles que sejam contra o Acordo Ortográfico e que utilizem aquela rede social), foi colocada para assinatura a “Petição pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990”; entregue na AR; continuando a ser assinada no site da petição pública» («Os malefícios do Acordo Ortográfico», Ivo Miguel Barroso, Público, 7.08.2013, pp. 46-47).
[Texto 3154]

«Espoletar/despoletar»

Dispenso

      «No entanto, o ano de 1914 tinha sido até então relativamente calmo no plano internacional. Ao contrário da primeira metade de 1913, cheia de notícias sobre a guerra dos Balcãs, que envolvera a Grécia, a Sérvia, a Bulgária e a Roménia (e também a Itália, que a ajudara a espoletar ao invadir a Líbia) contra a Turquia, a primeira metade de 1914 não tinha tido muito noticiário de guerra ou de preparação dela, exceto uma hipótese de conflito entre os Estados Unidos e o México, na primavera» («Nada é inelutável», Rui Tavares, Público, 7.08.2013, p. 48).
      Como se fala da guerra, até se pode pensar que ficam aqui muito bem espoletas. Já não é mau que não seja «despoletar», que é precisamente, como escreve Daniel Ricardo na obra Ainda bem Que Me Pergunta, «tirar a espoleta; travar; tornar inactivo; tornar impossível o disparo de; impossibilitar a acção ou o desencadeamento de (o contrário, pois, de desencadear)» (p. 260). Fora da guerra, dispenso espoletares e despoletares.
[Texto 3153]

«Porra» na televisão

Fica mal

      O mundo é pequeno e de certeza que algum leitor do Linguagista conhece o simpático chefe Ljubomir Stanisic. Digam-lhe, por favor, que evite dizer repetidamente «porra», como faz no programa Papa-Quilómetros, no canal 24 Kitchen. Fica mal. Já agora, digam-lhe também que a unidade de medida de massa é do género masculino, «o grama».
[Texto 3152]

Léxico: «irreligião»

Nada de impiedade

      Um texto que estou a ler alude a vários estudos sociológicos «quer da situação de monopólio ou pluralismo confessional, quer ainda da proporção da irreligião em cada país». Não sei, mas parece-me que poucas vezes tenho lido o termo irreligião neste sentido de falta de religião. Mais comum será o adjectivo irreligioso (e, curiosamente, mais na acepção de contrário à religião) e talvez o substantivo irreligiosidade.
[Texto 3151]


«Abancar»/«atabancar»

Das tais

      O autor usa por duas vezes o verbo «atabancar». Qualquer coisa como «atabancámos num hotelzinho perto do rio» e «atabancámos à farta mesa». Há aqui engano — das tais convicções que se têm do princípio ao fim da vida. Como combateu em África na Guerra Colonial, talvez tenha ouvido o verbo atabancar, que significa «entrincheirar-se», e que nem sequer está dicionarizado. O autor quer dizer abancar — sentar-se à banca ou em banco; instalar-se temporariamente.
      «Sucumbi com dentes de lobo e abancámos à mesa do clube da velha cidadezinha de madeira — a rirmos imenso de histórias patetas. Eles com a serenidade de quem nunca pensou na salvação do mundo» (Imitação dos Dias, José Gomes Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1966, p. 77).
[Texto 3150]

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