«Espoletar/despoletar»

Dispenso

      «No entanto, o ano de 1914 tinha sido até então relativamente calmo no plano internacional. Ao contrário da primeira metade de 1913, cheia de notícias sobre a guerra dos Balcãs, que envolvera a Grécia, a Sérvia, a Bulgária e a Roménia (e também a Itália, que a ajudara a espoletar ao invadir a Líbia) contra a Turquia, a primeira metade de 1914 não tinha tido muito noticiário de guerra ou de preparação dela, exceto uma hipótese de conflito entre os Estados Unidos e o México, na primavera» («Nada é inelutável», Rui Tavares, Público, 7.08.2013, p. 48).
      Como se fala da guerra, até se pode pensar que ficam aqui muito bem espoletas. Já não é mau que não seja «despoletar», que é precisamente, como escreve Daniel Ricardo na obra Ainda bem Que Me Pergunta, «tirar a espoleta; travar; tornar inactivo; tornar impossível o disparo de; impossibilitar a acção ou o desencadeamento de (o contrário, pois, de desencadear)» (p. 260). Fora da guerra, dispenso espoletares e despoletares.
[Texto 3153]

«Porra» na televisão

Fica mal

      O mundo é pequeno e de certeza que algum leitor do Linguagista conhece o simpático chefe Ljubomir Stanisic. Digam-lhe, por favor, que evite dizer repetidamente «porra», como faz no programa Papa-Quilómetros, no canal 24 Kitchen. Fica mal. Já agora, digam-lhe também que a unidade de medida de massa é do género masculino, «o grama».
[Texto 3152]

Léxico: «irreligião»

Nada de impiedade

      Um texto que estou a ler alude a vários estudos sociológicos «quer da situação de monopólio ou pluralismo confessional, quer ainda da proporção da irreligião em cada país». Não sei, mas parece-me que poucas vezes tenho lido o termo irreligião neste sentido de falta de religião. Mais comum será o adjectivo irreligioso (e, curiosamente, mais na acepção de contrário à religião) e talvez o substantivo irreligiosidade.
[Texto 3151]


«Abancar»/«atabancar»

Das tais

      O autor usa por duas vezes o verbo «atabancar». Qualquer coisa como «atabancámos num hotelzinho perto do rio» e «atabancámos à farta mesa». Há aqui engano — das tais convicções que se têm do princípio ao fim da vida. Como combateu em África na Guerra Colonial, talvez tenha ouvido o verbo atabancar, que significa «entrincheirar-se», e que nem sequer está dicionarizado. O autor quer dizer abancar — sentar-se à banca ou em banco; instalar-se temporariamente.
      «Sucumbi com dentes de lobo e abancámos à mesa do clube da velha cidadezinha de madeira — a rirmos imenso de histórias patetas. Eles com a serenidade de quem nunca pensou na salvação do mundo» (Imitação dos Dias, José Gomes Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1966, p. 77).
[Texto 3150]

Léxico: «extrema»

Autênticos funis

      Ninguém se lembra de Pinheiro Chagas, mas aqui vai: «Aqui na extrema do Occidente houve um povo pequeno, que praticou grandes feitos, cujo nome encheu o mundo, cujas bandeiras tremularam em todos os mares, porque tinha um grande elemento de vida — o patriotismo!» (Ensaios Críticos, Pinheiro Chagas. Porto: Em Casa da Viúva Moré, 1866, p. 121).
      Apenas para dizer isto: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o substantivo «extrema». Impressionante! Para o Dicionário Houaiss, é «o ponto mais distante que se pode alcançar com a vista».
[Texto 3149]

«Comprar mercearia»

Um caso singular

      «No regresso do passeio, e depois de se despedir da imprensa presente, o líder do Executivo afirmou ainda que era necessário “ir às compras”, provavelmente referindo [sic] às mercearias necessárias para duas semanas de descanso maioritariamente caseiro» («“Estamos a precisar de tirar uns dias de descanso”, confessa Passos», Raquel Costa e Lília Bernardes, Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 11).
      Nesta acepção — conjunto de géneros alimentícios —, sempre o tenho visto ser usado no singular. «O pobre labrego do tempo do senhor D. Carlos — eu fartei-me de vê-lo a migar a malga do caldo, meia entalada entre os joelhos, com pão centeio de oito dias, e limpar as ventas ao canhão da véstia — comia da leira e da horta visto não ter posses para comprar mercearia» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 216).
[Texto 3148]

«A páginas tantas»

É uma condição

      O escritor Manuel Jorge Marmelo tem dois novos livros, ambos vendidos somente através da Internet. Porquê? O escritor explicou no Bom Dia Portugal de ontem: «Primeiro, por uma tentativa de chegar a novos públicos, uma vez que o livro, estando na Amazon, pode ser comprado por pessoas em qualquer parte do mundo, desde que falem português e leiam português.» E se só falarem e só lerem tagalo, por exemplo, não podem comprá-los? Claro, não era isto que queria dizer.
      A entrevistadora, que confunde escritor com narrador, perguntou-lhe: «Às páginas tantas, tu dizes que “ser um zero à esquerda, ter disso consciência, viver plenamente com essa circunstância é decerto o mais venturoso dos estados de alma”. Porquê?» Prefiro a páginas tantas, até porque também não digo «às páginas vinte e uma».
[Texto 3147]

«Implantação/implementação»

Francamente...

      A propósito da China e de disparates, este de alto coturno. Jornalista Carlos Daniel, no Jornal da Tarde de ontem: «A China está a ser atingida por uma de onda de calor como não se sentia no país há 140 anos. As temperaturas estão acima dos 40 graus em várias províncias das zonas leste e sul do país. Há 35 dias que não chove. A economia local já está a sofrer as consequências. Numa zona de forte implementação agrícola, muitas colheitas estão já condenadas.»
      «Implementação agrícola»... Isto é que é conhecer bem a língua. O jornalista devia deitar uma olhadela ao Boletim Colonial. E se fosse apenas isto, mas não: o texto da notícia, que continua, não tem articuladores. São frases a seguir a frases, nada mais.
[Texto 3146]

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