Tradução: «rang»

Dormir na forma

      «Ao dizer estas palavras, mostrava-me um rapaz que estava à porta da aula, à frente da forma, e que eu não me recordava de ter visto no ano anterior em nenhuma das turmas do terceiro ano» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 9).
      Não atinamos logo que «forma» é aquela. O original esclarece-nos: «en tête des rangs». Ah. Fila, fileira. É a 9.ª acepção do respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «MILITAR disposição ordenada de tropas; formatura». A Ersílio Cardoso, que já atrás traduzira da mesma maneira — «O tambor rufou. Fomos para as formas» (p. 9) —, não ocorreu nada de melhor.

[Texto 2649]

«Mau grado/malgrado»

Fica o aviso

      «Salve-se, em parte, o verbete de João Palma Ferreira no Grande Dicionário dirigido por João José Cochofel, companheiro de Abranches em Coimbra, e louve-se, mau grado os erros da data de nascimento e da data da partida para o Brasil, o verbete do companheiro de Moçambique Ilídio Rocha, no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses» («Augusto dos Santos Abranches, o rumor de uma vida», Arnaldo Saraiva, Público, 4.03.2013, p. 47).
      Consultei meia dúzia de dicionários e só segundo um deles — o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — «mau grado» significa o que o texto acima exige. Ou seja, para todos eles, excepto para o da Porto Editora, malgrado é que significa apesar de, não obstante, ao passo que mau grado significa má vontade, desagrado. Lembramo-nos logo, é claro, da preposição francesa malgré, de que o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora dá a seguinte tradução: «apesar de; não obstante; contra vontade; a despeito de; mau grado». (Pelo menos desta vez, há coerência.) E é também este verbete, malgré, que consulto no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português (3088 páginas!), de Vasco Botelho de Amaral: «Esta palavra aparece de quando em quando em nossa prosa, onde é de todo inadmissível. Deve traduzir-se por: apesar de, a despeito de; mau grado, etc. Malgré lui, isto é, a seu pesar, em que lhe pese, contra sua vontade, mau grado seu, pois grado significa em português: gosto, vontade, consentimento (latim gratu-). Malgré tout verte-se para: apesar de tudo; suceda o que suceder; não obstante, embora; a despeito de tudo; sem embargo, etc. A expressão bon gré, mal gré deve traduzir-se: de bom ou mau grado, com vontade ou sem ela, por bem ou por mal, quer sim quer não, quer queira quer não» (p. 370, Vol. II).
      Até por esta divergência no que registam os dicionários, não tenho quaisquer dúvidas de que se verá de tudo, e carrear para aqui exemplos seria tarefa em parte inútil. Suspeito mesmo que se encontrarão exemplos contraditórios num mesmo autor.
[Texto 2648]

Léxico: «periquilho»

Maus ventos e boas palavras

      Juliana Couceiro Tavira, a criada invejosa da adúltera Luísa, usava cuia. Cuia vem do tupi. Lembrei-me então de uma palavra que não vi, até hoje, em nenhum dicionário, usada em algumas partes do Alentejo — periquilho. Conhecem? É o nome que se dá ao pequeno rolo de cabelo no alto da cabeça. Não vem do tupi, vem do castelhano: periquillo. E nós ainda recentemente aqui falámos de chignon, carrapito, carrapicho, coque e puxo.
[Texto 2647]

«Lot/Ló»

Pão de Lot

      Não sei, mas ia jurar que nunca tinha visto o nome do bíblico sobrinho de Abraão grafado Ló, sempre Lot. Vi-o agora. No entanto, em vez de Job é vulgar. Há dias, numa fila no supermercado, estava um miúdo reguila que disse chamar-se Davi, mas esta variante já eu conhecia.
[Texto 2646]

«Uso campeão»!

E professores universitários

      Vai para dois anos, escrevi no Assim Mesmo que «em Portugal e no Brasil, o bom povo — ou, para sermos mais precisos, um ou outro beira-corgo — diz “uso campeão” querendo dizer “usucapião” (aquisição pelo uso), esse termo da linguagem do Direito. Até se lê em certos requerimentos: “Fulano vem requerer uso campeão…” É a lei do mais forte». Pois agora ouvi o Prof. Júlio Machado Vaz, no programa O Amor É..., dizer «uso campeão», e não me parece que estivesse a brincar, pois disse-o duas vezes.

[Texto 2645]

Como se escreve nos jornais

Extremamente

       «Tem fama de ser espartano e imune a pressões o beirão ontem aprovado pelo Conselho Superior do Ministério Público para liderar o combate à criminalidade económico-financeira. Aos 58 anos, o ultra discreto procurador-geral adjunto Amadeu Guerra sucede à mediática Cândida Almeida à frente do Departamento Central de Investigação e Acção Penal» («Um beirão espartano imune a pressões passa a liderar combate à corrupção», Ana Henriques e Mariana Oliveira, Público, 1.03.2013, p. 12).
      Ultra, que é aqui um prefixo, fica assim solto, livre, descomprometido. E assim fica também uma ortografia descomprometida.
[Texto 2644]

Sobre «secretivo»

Como de costume

      «Susana recebeu-me com excessiva cerimónia, e deixou-me a sós com o nosso biografado, a fim de que estabelecêssemos o diálogo secretivo em que ela não ousava intervir» (Tiago Veiga, Uma Biografia, Mário Cláudio. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 695).
      A primeira ideia que nos ocorre é que se relaciona com secreções, mas não, claro. É mais um anglicismo, de secretive, «disposed to secrecy». Proclive a guardar segredo.
[Texto 2643]

 

«Tipo de Papa que o suceder»

A noite sucede ao dia

      «Não foi só os católicos que Bento XVI surpreendeu. Também os anglicanos e os ortodoxos ficaram espantados com o seu gesto. A pastora inglesa anglicana Debbie Flach confessa: “Achei que o Papa não se reformava”. É, porém, mais reticente em prever se a decisão vai ter impacto na estrutura da Igreja Católica: os próximos anos dependem mais do “tipo de Papa que o suceder”. Mas arrisca: o novo Papa “deve ser capaz de chegar a todos os católicos. Espero que o próximo Papa seja capaz de trabalhar com todas as igrejas cristãs”» («Anglicanos e ortodoxos surpreendidos com Bento XVI», Joana Gorjão Henriques, Público, 1.03.2013, p. 4).
      Já vimos este erro mais de uma vez. O verbo suceder, nesta acepção, é transitivo indirecto, tem como complemento um termo preposicionado — suceder a alguém. Ora, os transitivos indirectos que regem a preposição a requerem as formas lhe ou lhes. Logo, «tipo de Papa que lhe suceder».
      Quanto a «gesto» na acepção empregada no artigo, tudo o que havia que dizer disse-se aqui.

[Texto 2642]

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