«Intersectar/interceptar»

Assim está correcto

      «O princípio é o mesmo que está por trás das escutas telefónicas. Baseia-se na triangulação, ou seja, determinar uma localização a partir da distância a que se encontra de três satélites. “O que acontece é que se desenham três circunferências que se intersetam num ponto, que é a origem.” O projeto já mereceu a atenção de uma revista da Sociedade Americana de Física, mas a equipa quer explorar outros caminhos na área do marketing viral e das redes sociais» («Investigador português descobriu algoritmo que identifica a origem de uma mensagem», A. R., Diário de Notícias, 11.08.2012, p. 20).
      Já aqui tínhamos visto esta questão. Desta vez está certo: intersectar é cortar. Intersetar na nova grafia, mas na última página do Diário de Notícias, em entrevista ao investigador (Pedro Pinto, do Instituto Politécnico de Lausana, na Suíça), lê-se «intersectam». É como calha.
[Texto 1961]

«Descrição/discrição»

Confusões de todos os tempos

      «Caso tenha a sorte de se tornar um euromilionário, além do Gabinete de Apoio ao Alto Premiado poderá contar com a ajuda do seu banco. O Santander Totta, por exemplo, encaminha o cliente para “um gestor financeiro individualizado com capacidades e ferramentas para definir e executar estratégias de gestão de património que otimizem a relação rentabilidade/risco”. O gestor – asseguram-nos – poderá, ainda, deslocar-se a casa ou ao local de trabalho do cliente, permitindo maior conforto, descrição e confidencialidade no processo» («Sete cruzes aumentam 21 vezes hipóteses», Joana Capucho, Diário de Notícias, 10.08.2012, p. 14).
      Para fazer uma descrição, é claro que se recomenda que o gestor vá a casa do cliente. Para discrição, um hotel seria melhor. Acho eu.
[Texto 1960]

«O que não falta é/são»

Elas gostam de apanhar

      Quem é que disse que não podíamos ir para trás? Para a frente é que não podemos, porque não sei que disparates os jornalistas vão escrever amanhã. Mas ia escapando um de lesa-sintaxe: «E se estiver na região e o tempo não for um problema, então mais vale levantar-se bem cedo e rumar até ao Luso, onde o que não faltam são espaços verdes e a água fresca jorra livremente nas bicas da fonte do centro da vila» («Levar o farnel na cesta e pôr a mesa ao ar livre», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 48).
      Então agora já não somos capazes de identificar o sujeito da frase, a isso chegámos ou nisso estamos?
      «— Mas claro! Na praia, o que não falta são rapazes bonitos, verdadeiros Tarzans. É ou não é? E quero saber o seguinte: quando você vê um, nessas condições, você não me compara com ele? Confessa! Sim ou não?» (Elas Gostam de Apanhar, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 123).
[Texto 1959]

Margem Sul

Divergências de família?

      «Todas as ligações fluviais entre a Margem Sul e Lisboa voltaram a parar ontem em dois períodos parciais, de manhã e de tarde, devido a nova greve dos trabalhadores do Grupo Transtejo (que opera as ligações entre Cacilhas, Montijo, Seixal e a Trafaria e Lisboa) e da Soflusa (empresa responsável pela ligação entre o Barreiro e Lisboa)» («Barcos no Tejo voltaram a parar ontem durante três horas», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 48). «Um pouco mais à frente na mesma rua, a Casa da Sorte também tem bastante afluência. Manuela Agostinho vem da margem sul, Fernão Ferro[,] e está em Lisboa porque foi a uma consulta com o marido» («Os 14 ‘jackpots’ já custaram 1,241 mil milhões em apostas», Sara Moreira e Marina Almeida, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 14).
[Texto 1958]

Ses e entãos

Se, então

      «A interpretação dos resultados dos cenários deverá pois ser condicional, isto é: “se... então...”. Os “se” são as hipóteses e os “então” os resultados possíveis.» E porque não hão-de estar no plural as palavras assinaladas? «Os ses são as hipóteses e os entãos os resultados possíveis.»
      «O homem teve outros ‘mas entãos’ – e de fúria deixou cair os papéis no chão» (O Surrealismo em Portugal, Maria de Fátima Marinho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, p. 47).

[Texto 1957]

Zagrebe e Pionguiangue

Um carácter especial

      Não sei porque não é mais usada a grafia Zagrebe. Já é alguma coisa estar registada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora. Que também regista, pois claro, Pionguiangue, a capital da República Popular Democrática da Coreia, vulgo Coreia do Norte. Se não são susceptíveis de ser aportuguesados, prefiro então manter a grafia original mais usada, ainda que obrigue a usar caracteres (singular: carácter) especiais: Međugorje, por exemplo.
[Texto 1956]

«Autocarros expressos»

Não percebo a dúvida

      «Junto da comunidade portuguesa mais abastada, conseguimos então um emprego para o filho mais novo numa empresa de autocarros expressoExpresso, o comboio ou camioneta que vai do local de partida ao de chegada sem fazer paragens, é substantivo e adjectivo. Como adjectivo, concorda com o nome que qualifica: autocarros expressos.
[Texto 1955]

«Devido a»

Um devido indevido

      «Na década de 90, milhares de pessoas morreram no país devido à fome, como indicam várias organizações não governamentais» («Ri Sol-Ju exibe mala Dior num país com fome», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      «Que faria ele em Leiria? Leiria era ao pé de Fátima. “Continua a rondar os milagres”, pensou. Nesse ano, morreram de fome na União Soviética cinco milhões e meio de pessoas» (Café República, Álvaro Guerra. Lisboa: BIS/Leya, 2010, p. 144).
[Texto 1954]

Arquivo do blogue