Regência de «reverter»

Não percebi logo

      «A enóloga proprietária da marca Quinta de Remostias decidiu reverter um euro da venda de cada garrafa de vinho que produziu para a criação de uma bolsa de investigação que permita desenvolver novas formas de diagnóstico de doenças raras. Uma ideia invulgar e feliz para contribuir para o desenvolvimento da ciência. Portugal não está habituado a mecenato deste tipo e seria bom que outros seguissem Rola-Braz» («Ana Rola-Braz», Público, 18.04.2012, p. 48).
      Acho que estão a precisar de comprar um dicionário de regências verbais. Dá jeito tê-lo à mão. Em alternativa, estudarem um pouco mais.
[Texto 1386]

Rabo sem cauda

Ah, senhora professora...

      «Que lhe exibisse a miséria das placas dentárias, vá, mas agora as podridões do rabistel?...» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 78).
      Mero pretexto para contar o que me contaram: uma professora de Português convenceu os alunos a consultarem um dicionário para verem que, como ela afirmava, «rabo» é apenas «cauda» e nada mais. Não significa, argumenta ela, «nádegas» ou «ânus». Ainda estou para ver que dicionário usaram que não registasse a sinonímia.
[Texto 1385]

Da condestabresa à gerenta

Fazem companhia à «presidenta»

      Pois não, o título honorífico «condestável» não tem feminino, nem se está a ver como poderia tê-lo. Já a variante «condestabre» tem feminino: «condestabresa», como se lê, por exemplo, em Feliciano de Castilho. E «gerenta», já por aí viram?
      «Sim! Não sabia? Então vocês esfregam-se um no outro e você não sabia que ela era proprietária gerenta da oficina Ford de Cathays Street?» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 71).

[Texto 1384]

O lugar do til

O leitor que decida

      «Costumamos soletrar á ó til: ão. Diz-se assim, e não, como se esperaria, à til ó, porque antigamente, por exemplo, no século XVII, se escrevia e não ão. Há professores primários que hoje ensinam a pronunciar á-til-ó» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, p. 157).
      Decerto já viram que os semianalfabetos e as crianças quando começam a aprender a escrever não o põem sobre o a nem sobre o o, mas estrategicamente entre os dois: o leitor que decida onde pertence!

[Texto 1383]

«Implantação do Acordo Ortográfico»

Qualquer coisa assim

      «Fundamentos políticos, económicos, jurídicos. E linguísticos. A implantação do Acordo Ortográfico (AO) na totalidade da CPLP continua em discussão e os encontros de ministros da Educação e da Cultura em Luanda, há uma semana e meia, trouxeram à luz novos argumentos sobre os impasses na ratificação de Angola e Moçambique» («Angola e Moçambique querem gerir o seu tempo na ratificação do Acordo», Marta Lança, Público, 11.04.2012, p. 28).
      Alguns jornalistas ainda não sabem bem, tal é a complexidade da questão, se é «implantação», se «implementação». Eu sou mais adepto da terceira via. Em relação ao 5 de Outubro, também não sabem bem se é «implementação» ou «implantação».
[Texto 1350]

Como se escreve nos jornais

É preciso paciência

      «Os solavancos colocam à prova a perícia dos condutores. E a centenas de metrosde [sic] distância a unidade móvel é imediatamente reconhecida por aqueles a quem vai prestar apoio devido às suas cores vivas» («Uma luta diária para exorcizar o apelo suicidário nos velhos de Odemira», Carlos Dias, Público, 1.04.2012, p. 32).
      «Colocam à prova»! Ainda se isso fosse o pior do artigo. Começa pelo título: «suicida» já não chega para as necessidades, tem de se recorrer a «suicidário». E a pontuação? E as gralhas? Fica uma amostra:

1. «O mais novo, Manuel E., dirige-se bem humorado à equipa médica, desta vez acompanhada pelos dois psiquiatras e eplso [sic] PÚBLICO, enquanto remenda um velho cinto de couro.»
2. «O único contacto que os dois irmãos mantêm com o exterior, faz-se por telemóvel.»
3. “Se desviamos um palmo já não temos”, informa o irmão mais velho Olímpio E..»
4. «Álvaro de Carvalho, tenta confortá-lo, mas o homem insiste: ”Tenho cá uma coisa dentro da cabeça que não me deixa dormir, nem comer. Tomo comprimidos mas dói sempre.”»
5. «Deixou de trabalhar para tomar conta do pai. Está preocupado, porque acabou a medicação e tem medo de uma recaída. Conceição Quintas, descansa-o.»
6. «“Atão senhor Manel como vai isso hoje?”, pergunta a enfermeira Mónica Raimundo, que faz a muda de pensos, mede a tensão e verifica a medicação.»
7. «Uma constante observada entre os idosos isolados, realça a coordenadora da UMS, é “a ausência de capacidade reivindicativa, habituados que foram a ter pouco”. A primeira surpresa surge “quando se lhes dizque [sic] têm os direitos de toda a gente”, mas “recusam-se a pedinchar, não querem vistos como coitadinhos, têm a sua dignidade”.»

[Texto 1299]

«Se» apassivante (iii)

Boa pergunta

      «Os que defendem que o “se” é pronome indefinido e sujeito do verbo, raciocinam assim: o “on” francês é um pronome indefinido, sempre sujeito no singular e requer, portanto, o verbo no singular; ora o “se” português ocupa o lugar do “on” francês. Por conseguinte, o “se” português é também um pronome indefinido e sujeito do verbo no singular (vende-se casas, apanha-se urtigas, cata-se pulgas, etc.).
      Com franqueza! Os macacos me mordam se isto não é um argumento menos que primário! Se, por hipótese, e sem ponta de malícia, não existisse a caríssima Língua Francesa — que eu só ensinei trinta e nove anos! — mas houvesse a Língua Portuguesa tal como é, que haveríamos de chamar ao “se”?» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, pp. 85-86).

[Texto 1298]

«Comemos e ingerimos»

Introduzir pela boca

      Jornalista Carla Trafaria no Bom Dia Portugal de ontem: «Assinala-se hoje o Dia Mundial da Nutrição. É uma data simbólica de sensibilização para uma alimentação saudável e equilibrada que garanta o bem-estar e a saúde. Tanto assim é que aquilo que comemos e ingerimos pode estar na origem de várias doenças, como a obesidade, a hipertensão arterial, o aumento nos níveis de glicose sanguínea e também o alto colesterol.»
      Já tínhamos visto, algures, esta confusão. «Comer» e «ingerir» são sinónimos. O que a jornalista queria dizer era «comemos e bebemos», mas também não era necessário. No contexto, bastava usar um dos verbos, e de preferência o segundo, de sentido mais genérico.

[Texto 1297]

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