Itálico

É claro que não é preciso

      «As leis memoriais abriram uma corrida entre “memórias concorrentes”, exacerbando velhos conflitos históricos ou de identidade. Acusa Assouline: “Os lobbyistas e políticos de todas as áreas, que atiraram azeite para o fogo com a ajuda dos velhos combustíveis da demagogia por motivos eleitoralistas, deverão responder por esta nova restrição das liberdades intelectuais.”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Se a palavra está aportuguesada, caro Jorge Almeida Fernandes, para quê o itálico?

[Texto 1174]

Aspas, para que vos quero

Nunca se sabe, não é?

      «O Conselho Constitucional francês “chumbou” a lei sobre o genocídio arménio aprovada pelo Parlamento no dia 23 de Janeiro. Essa lei sancionava penalmente (multa e prisão) a contestação ou a minimização de um “genocídio reconhecido pela lei francesa”. O Conselho declarou-a inconstitucional por atentar contra a liberdade de expressão, “cujo exercício é uma condição da democracia”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Jorge Almeida Fernandes, autor próvido, pensou que o melhor seria usar aspas, não fosse o indígena ignorante julgar que o Conselho Constitucional francês tivesse soldado ou tapado ou guarnecido ou selado com chumbo a lei.

[Texto 1173]

Tradução: «redneck»

Por andarem a moirejar ao sol

      «O resultado desta experiência sociológico-humorística deu pelo nome de The Muslims Are Coming! [Os Muçulmanos estão a chegar!] e invadiu como uma praga alguns dos recantos mais redneck (fechados e conservadores) dos EUA» («Combater a islamofobia com uma gargalhada de cada vez», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 7).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de redneck, um termo depreciativo, «(agricultor branco) atrasado». É mesmo? Não será antes um norte-americano branco, pobre, agricultor ou não, das zonas rurais? Mas como traduziremos para ter o mesmo registo? «Labrego»?

[Texto 1172]

«Norte-americano»

E no entanto

      «De pé, mãos nos bolsos, calças, colete e gravata preta e camisa branca: é esta a nova imagem de cera de Justin Bieber no museu Madame Tussauds. A nova figura do cantor pop norte-americano faz jus à actual fase da vida de Justin, que fez 18 anos na quinta-feira» («Bieber mais adulto no Madame Tussauds», «P2»/Público, 3.03.2012, p. 13).
      De facto, que país poderia ser geograficamente mais norte-americano que o Canadá? E, no entanto, Justin Bieber é canadiano.

[Texto 1171]

«Trilho/trilha»

Não sabem o que dizem

      «Espero que o mesmo não me aconteça com os trilhos, a que os cariocas chamam trilhas, porque dizem que trilhos são os do comboio, aliás trem» («O arrastão», Alexandra Lucas Coelho, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 8).
      Alguns — considerados inteligentes e que ganham a vida a escrever — consideram que o Acordo Ortográfico de 1990 não é bom porque não acaba com estas diferenças. Estão a falar, sem o saber, de outro acordo, esse sim impensável, ou pelo menos impossível de concretizar, para uniformização lexical. Ou seja, não sabem o que dizem.

[Texto 1170]

«Safe House»

Entre aspas?

      As Irmãs Oblatas sugeriram a criação de uma cooperativa gerida por prostitutas («trabalhadoras do sexo», disseram a repórter da RTP e a coordenadora do grupo de rua daquela congregação) e a Câmara Municipal de Lisboa pondera concretizar o projecto. É um prostíbulo, pois então, mas já macaquearam o que dizem os frandunos e é uma safe house. («Casa das safadas», dirão depois os moradores do bairro.) João Meneses, responsável do programa de requalificação da Mouraria, disse: «Veja, isto distancia este projecto claramente, tem muitíssimas mais valências do que um projecto de natureza meramente sexual, e de facto não tem o primado do lucro, e de facto não tem o indivíduo, que é o empresário, que explora, entre aspas, essas mulheres.» Mas a CML vai mesmo apoiar? Hum... A repórter só conseguiu arrancar isto ao presidente, António Costa: «Não vou antecipar a análise sobre esta ou aquela medida isoladamente, por muito sexy que possa ser o título de algumas propostas.»

[Texto 1169]

«Fazer “pendant”»

‘Tá mal

      No Reino Unido, a rainha, a duquesa da Cornualha e a duquesa de Cambridge foram de Rolls-Royce visitar uma loja. O jornalista da RTP Luís Filipe Fonseca disse que iam «todas vestidas de azul, a fazer pendant». A indumentária da rainha atirava mais para o verde, isso é que eu vi, e que o jornalista usou desnecessariamente uma palavra francesa. Ah, sim, já há dicionários — dada a estonteante frequência de uso da palavra — que a aportuguesaram para «pandã».

[Texto 1168]

Como falam os médicos

‘Tá bem?

      Uma repórter da RTP, Margarida Neves de Sousa, foi assistir a três operações cirúrgicas para remoção de implantes mamários da marca PIP, em Lisboa e em Vila Nova de Gaia. Numa delas, o médico ia dizendo o que estava a fazer, com direito a legendas (pouco fiéis) e tudo: «Vamos fazer uma biopsiazita, ‘tá bem?, porque é mandatório.» A jornalista, contudo, disse o mesmo mas em linguagem de gente: «A notificação ao Infarmed deveria estar a ser feita em tempo real, até porque é obrigatória, tal como a retirada de amostras para análise.»

[Texto 1167]

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