Uso do itálico e das aspas

Cracatoa, seja

      «A mais violenta das erupções do vulcão indonésio Krakatoa, ocorrida em 1883, faz parte das lendas dos velhos marinheiros, pois foi escutada a sul da Austrália e, mais longe ainda, em pleno oceano Pacífico» («Filho do ‘Krakatoa’», Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 2007, p. 27). Já que ninguém pergunta, pergunto eu: porque é que «Krakatoa» está em itálico? Pior só mesmo Maria Filomena Mónica grafar o nome de estabelecimentos comerciais entre aspas. Para quê? «Finalmente, convidou-me para tomar chá, no dia seguinte, no “Covered Market”. […] Foi assim que me encontrei no que viria a ser o meu local preferido, o café “Brown’s”, não o restaurante que, no final dos anos 70, surgiu em Woodstock Road, mas o local esquálido, situado no Mercado Coberto, onde se cruzavam camionistas, estudantes e mendigos» (p. 261 de Bilhete de Identidade, Alêtheia Editores, 4.ª ed., Lisboa, 2006). 
      E para quem, impensadamente, já objectava, dedinho em riste, que, pensando bem, eram palavras inglesas, replico aduzindo o exemplo de duas páginas adiante: «Para quem considerava que a “Sá da Costa”, a “Buchholz” e a “Bertrand” eram boas, a “Blackwell’s” constituía um choque cultural.» Tirou-me a palavra da boca: choque, sim.

Africano ou negro?

Equívocos cromáticos

      Passava pela Estrada de Benfica, a Baixa da freguesia, quando vi um ajuntamento perto da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Aproximei-me, movido pela curiosidade e pelos pés, que se encaminhavam para a padaria. «Ah, foram dois africanos que…», dizia uma senhora idosa. Claro que esta testemunha não tinha falado com os «africanos» nem ninguém lhe tinha dado qualquer informação, e os indivíduos, para ela como para mim, tanto podiam ser africanos como asiáticos ou americanos. Por algum desvio semântico, «africano» é — imprópria e equivocamente — sinónimo de «negro». Mais estranho ainda é ver-se o equívoco em obras literárias. A autobiografia de Maria Filomena Mónica, que é socióloga, Bilhete de Identidade, para quem admita o exemplo como de obra literária, acolhe o equívoco: «A uma mesa, vi um africano, mais velho do que eu, ao lado de dois ingleses, que pareciam ter dez anos, e um egípcio, de idade indefinida» (p. 257). Claro que a autora está a adiantar-se na narração: não viu logo tanto. Viu, mais precisamente, um negro, dois brancos e um indivíduo menos negro que o negro (graças à miscigenação da população do Egipto, de origem semítica ou berbere, com os Núbios, que, aliás, eram na Antiguidade vistos pelos Egípcios como inferiores, precisamente devido à cor da pele), que se veio a revelar egípcio. O negro, que por acaso era africano, era um ex-embaixador do Gana nas Nações Unidas. Os negros da Estrada de Benfica não eram, desconfio, africanos. A senhora era branca, sim, mas podia ser, não lhe perguntei, africana.

Léxico contrastivo: «carceragem»

Prisões

      «Mais três casos de mulheres convivendo com homens na mesma cela foram revelados ontem, em Belém (PA). As histórias começaram a surgir depois da denúncia de L., que foi recolhida pelo Conselho Tutelar de Abaetetuba. Ela passou 15 dias com 20 homens na cadeia da cidade. O caso mais grave, depois do da menor L., é o de Parauapebas, no Sudeste paraense. Na cadeia da cidade, Enailde Brito Santos, de 25 anos, dividiu a mesma cela com 70 homens durante 45 dias» («Pará tem 4 casos de carceragens mistas», O Povo, 23.11.2007, p. 16). É termo, é verdade, tanto de Portugal como do Brasil, mas somente usado no outro lado do Atlântico. Na definição do Dicionário Houaiss: «carceragem s.f. 1 ant. imposto que os presos eram obrigados a pagar ao carcereiro 2 acto ou efeito de carcerar, de prender; prisão 3 despesa com a manutenção dos presos.»
      E por cárceres: ainda ontem, a propósito da explosão de um prédio em Setúbal, ouvi na Antena 1, no noticiário das 20 horas, que, àquela hora, ainda estava uma vítima «encarcerada» no prédio. Agora, a propósito de tudo e de nada, «encarcerado» é a palavra mágica. Já não bastava as vítimas de acidentes de viação ficarem «encarceradas» nos automóveis. Segundo o Diário Digital, os feridos foram «enviados para o Hospital Garcia D’Horta». Ignorância.

Ortografia: «ibero-americano»

É parecido

      «Ao que parece, o encontro já estava agendado antes do famoso “Por qué no te callas?!” (que, entretanto, passou a ser toque de telemóvel e já leva 500 mil downloads), dirigido pelo Rei de Espanha ao Presidente venezuelano, na recente Cimeira Iberoamericana» («Ninguém cala Chávez», Joana Fillol, Visão, n.º 768, 22 de Novembro de 2007, p. 50). Já temos sorte que a jornalista não tenha escrito «Cumbre Iberoamericana».

Símbolo de hertz

Sistema Internacional de Unidades
      
      O leitor V. Mendonça pergunta-me porque é que o símbolo da unidade hertz aparece muitas vezes com inicial maiúscula. O erro, caro leitor, é justamente aparecer apenas muitas vezes e não todas. Os símbolos das unidades são, em geral, escritos com minúscula inicial, excepto — como é o caso — se o nome da unidade derivar de um nome próprio. Logo, o símbolo de hertz é Hz, tal como o de kelvin é K, o de joule J, o de ampere A, o de pascal Pa… Assim o determina o Sistema Internacional de Unidades.
      Num livro recente, publicado já em Novembro, sobre Cosmologia, pode ler-se: «A temperatura pode ser expressa em graus Kelvin.» Está errado. Se estivesse correcto, poder-se-ia escrever, por exemplo, 300 ºK, e não pode. Desde 1967 (!) que não pode, pois a unidade passou a ter a designação de kelvin (com o símbolo K), e não grau kelvin. Na mesma obra também se pode ler «50 quilómetros por segundo por Megaparsec». Está errado: «megaparsec» se deveria ter escrito. Finalmente, também nesta obra se vê escrito «arco-segundo», quando o mais correcto é «segundo de arco».

Léxico contrastivo: «cepa»

Mas percebe-se

      «Cientistas americanos e sul-africanos decifraram o mapa genético de uma cepa da tuberculose resistente à maioria dos remédios, informou o Instituto Broad do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Os cientistas disseram que a cepa do Mycobacterium tuberculosis está vinculada a um surto da doença que matou mais de 50 pessoas na província sul-africana de Kwazulu-Natal» («Mapeado DNA de bactéria resistente», Jornal do Brasil, 22.11.2007, p. A24). Entre nós, diríamos «estirpe». «Os cientistas disseram que a estirpe da Mycobacterium tuberculosis está ligada a um surto da doença que causou a morte a mais de 50 pessoas na província sul-africana de KwaZulu, em Natal» («Tuberculose: Decifrado genoma de estirpe resistente», Diário Digital/Lusa, 21.11.2007).

Rómulo e Remo

Apetece acreditar

      «O ministro da Cultura italiano, Francesco Rutelli, anunciou ontem a descoberta do lugar onde, segundo a lenda de fundação de Roma, uma loba amamentou os irmãos Rômulo e Remo. Rutelli, que não assumiu a responsabilidade da teoria sobre a gruta mas a atribuiu aos arqueólogos, classificando como uma “maravilhosa descoberta arqueológica”, contou os detalhes do achado, depois divulgado em comunicado de seu Ministério. Finalmente encontramos um local mitológico que virou um local real afirmou Rutelli. O descobrimento de um covil recoberto de mosaico e conchas aconteceu meses atrás, no curso das obras que a Superintendência Arqueológica de Roma promove para acondicionar a colina do Palatino. Na página do Ministério de Cultura italiano na internet, podem ser vistas as imagens da gruta, obtidas através de uma câmera que foi colocada no seu interior no mês de agosto passado. A gruta está a 16 metros de profundidade entre o Circo Máximo e a casa de Augusto, tem o diâmetro de 6,53m e altura de 7,13m, e dataria da Idade do Bronze. No entanto, o ministro não revelou os detalhes sobre como fez a vinculação entre a caverna e a toca da lendária loba. Conta a lenda que os gêmeos Rômulo e Remo, cujo pai era o deus Marte, foram abandonados no rio Tiber por ordem do rei Amulio, cuja filha tinha descumprido o mandato de virgindade que ele tinha imposto a ela quando a obrigou a se dedicar ao culto de Vesta. Os irmãos foram depois adotados e amamentados pela loba Luperca junto com suas crias, o que garantiu a sobrevivência de ambos. Quando cresceram fundaram Roma, de acordo com o mito. Conta-se também que, após a fundação da cidade, houve um conflito entre os irmãos para decidir quem seria o rei e Rômulo acabou matando Remo, tornando-se o primeiro rei de Roma. As interpretações da lenda foram múltiplas e entre elas está a do ensaísta e escritor Corrado Augias, que em seu livro I segreti di Roma sustenta que é possível que Luperca tenha sido uma prostituta, já que na Roma antiga estas recebiam o nome de lupa (loba). Esse mesmo escritor adverte do perigo que se corre quando se dão por verdadeiras as lendas ao lembrar em seu livro que o fascismo elegeu o nome de filhos da loba para as crianças italianas que queria educar em sua ideologia. Conhecida como Lupercal, a caverna é o local onde acredita-se que os romanos antigos realizavam cultos pagãos em honra ao deus Faunus Lupercus, que protege os rebanhos de lobos» («Gruta onde loba amamentou Rômulo e Remo é encontrada», Jornal do Brasil, 22.11.2007, p. A24).

Léxico contrastivo: «galpão»

Barracão

      «O modelo Fox-2 que caiu ontem matando Paulo Gonçalves e Ericsson Brígido é o mesmo utilizado pelo empresário Maurocélio Rocha Pontes, 42, que caiu no dia 21 de abril, em Sobral, matando-o na hora. Na época, a esposa de Maurocélio, que também estava no aparelho, teve de ficar internada. Segundo informações dos bombeiros, uma forte chuva atingiu o aparelho, fazendo com que o empresário perdesse o controle e batesse contra um galpão» («Acidente com ultraleve mata piloto e passageiro», Marcos Cavalcante, O Povo, 21.11.2007, p. 7).
      De acordo com o dicionário Aulete Digital, é a «construção de grande tamanho, geralmente sem parede num dos lados, e empregada tanto na cidade como no campo para armazenamento de material, de máquinas e apetrechos». O étimo é o espanhol galpón: «Casa grande de una planta», «departamento que se destinaba a los esclavos en las haciendas de América» e, na América do Sul e nas Honduras, «cobertizo grande con paredes o sin ellas». Galpón, por sua vez, provém, provavelmente, do vocábulo nauatle calpúlli, «casa grande». No Brasil usam-se ainda os derivados «galponear» e «galponeiro».

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