Léxico contrastivo: «cepa»

Mas percebe-se

      «Cientistas americanos e sul-africanos decifraram o mapa genético de uma cepa da tuberculose resistente à maioria dos remédios, informou o Instituto Broad do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Os cientistas disseram que a cepa do Mycobacterium tuberculosis está vinculada a um surto da doença que matou mais de 50 pessoas na província sul-africana de Kwazulu-Natal» («Mapeado DNA de bactéria resistente», Jornal do Brasil, 22.11.2007, p. A24). Entre nós, diríamos «estirpe». «Os cientistas disseram que a estirpe da Mycobacterium tuberculosis está ligada a um surto da doença que causou a morte a mais de 50 pessoas na província sul-africana de KwaZulu, em Natal» («Tuberculose: Decifrado genoma de estirpe resistente», Diário Digital/Lusa, 21.11.2007).

Rómulo e Remo

Apetece acreditar

      «O ministro da Cultura italiano, Francesco Rutelli, anunciou ontem a descoberta do lugar onde, segundo a lenda de fundação de Roma, uma loba amamentou os irmãos Rômulo e Remo. Rutelli, que não assumiu a responsabilidade da teoria sobre a gruta mas a atribuiu aos arqueólogos, classificando como uma “maravilhosa descoberta arqueológica”, contou os detalhes do achado, depois divulgado em comunicado de seu Ministério. Finalmente encontramos um local mitológico que virou um local real afirmou Rutelli. O descobrimento de um covil recoberto de mosaico e conchas aconteceu meses atrás, no curso das obras que a Superintendência Arqueológica de Roma promove para acondicionar a colina do Palatino. Na página do Ministério de Cultura italiano na internet, podem ser vistas as imagens da gruta, obtidas através de uma câmera que foi colocada no seu interior no mês de agosto passado. A gruta está a 16 metros de profundidade entre o Circo Máximo e a casa de Augusto, tem o diâmetro de 6,53m e altura de 7,13m, e dataria da Idade do Bronze. No entanto, o ministro não revelou os detalhes sobre como fez a vinculação entre a caverna e a toca da lendária loba. Conta a lenda que os gêmeos Rômulo e Remo, cujo pai era o deus Marte, foram abandonados no rio Tiber por ordem do rei Amulio, cuja filha tinha descumprido o mandato de virgindade que ele tinha imposto a ela quando a obrigou a se dedicar ao culto de Vesta. Os irmãos foram depois adotados e amamentados pela loba Luperca junto com suas crias, o que garantiu a sobrevivência de ambos. Quando cresceram fundaram Roma, de acordo com o mito. Conta-se também que, após a fundação da cidade, houve um conflito entre os irmãos para decidir quem seria o rei e Rômulo acabou matando Remo, tornando-se o primeiro rei de Roma. As interpretações da lenda foram múltiplas e entre elas está a do ensaísta e escritor Corrado Augias, que em seu livro I segreti di Roma sustenta que é possível que Luperca tenha sido uma prostituta, já que na Roma antiga estas recebiam o nome de lupa (loba). Esse mesmo escritor adverte do perigo que se corre quando se dão por verdadeiras as lendas ao lembrar em seu livro que o fascismo elegeu o nome de filhos da loba para as crianças italianas que queria educar em sua ideologia. Conhecida como Lupercal, a caverna é o local onde acredita-se que os romanos antigos realizavam cultos pagãos em honra ao deus Faunus Lupercus, que protege os rebanhos de lobos» («Gruta onde loba amamentou Rômulo e Remo é encontrada», Jornal do Brasil, 22.11.2007, p. A24).

Léxico contrastivo: «galpão»

Barracão

      «O modelo Fox-2 que caiu ontem matando Paulo Gonçalves e Ericsson Brígido é o mesmo utilizado pelo empresário Maurocélio Rocha Pontes, 42, que caiu no dia 21 de abril, em Sobral, matando-o na hora. Na época, a esposa de Maurocélio, que também estava no aparelho, teve de ficar internada. Segundo informações dos bombeiros, uma forte chuva atingiu o aparelho, fazendo com que o empresário perdesse o controle e batesse contra um galpão» («Acidente com ultraleve mata piloto e passageiro», Marcos Cavalcante, O Povo, 21.11.2007, p. 7).
      De acordo com o dicionário Aulete Digital, é a «construção de grande tamanho, geralmente sem parede num dos lados, e empregada tanto na cidade como no campo para armazenamento de material, de máquinas e apetrechos». O étimo é o espanhol galpón: «Casa grande de una planta», «departamento que se destinaba a los esclavos en las haciendas de América» e, na América do Sul e nas Honduras, «cobertizo grande con paredes o sin ellas». Galpón, por sua vez, provém, provavelmente, do vocábulo nauatle calpúlli, «casa grande». No Brasil usam-se ainda os derivados «galponear» e «galponeiro».

Léxico contrastivo: «deslanchar»

Os deslizes de García Marquez

      Interrogado sobre como é o seu processo de tradução, Eric Nepomuceno (que traduziu sobretudo obras de Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti e Gabriel García Marquez) afirma: «Leio enquanto traduzo. Antes, não. O processo é exatamente o mesmo de quando escrevo meus contos. Começo à mão, até o texto ganhar fluidez. As palavras ganham mais peso, demoram mais para chegar. Quando chegam e começo a deslanchar, então posso ir para o computador. Na primeira versão, jamais vou ao dicionário. Imprimo tudo ­ correções na tela, jamais ­ e começo a revisão. E aí sim, na segunda versão, recorro aos dicionários. Uso o da Real Academia Espanhola, e principalmente a enciclopédia Larousse. Não conheço nenhum bom dicionário espanhol-português. Então, fico mesmo nos espanhóis. Os de sinônimos costumam ser úteis. Ah, sim: uso muito o Aurélio. Em alguns autores, como Rulfo ou o próprio García Márquez, muitas vezes a solução está lá. Eles usam um castelhano muito castiço, com muitas palavras que também estão no português arcaico» («Até García Márquez comete ‘gazapos’», Vivian Rangel e Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil, 17.11.2007, p. 4). «Deslanchar»? Adaptado do francês déclencher, significa dar impulso ou ganhar impulso. Ah, sim: o gazapo* de García Marquez: a da primeira e célebre frase de Cem Anos de Solidão: «Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.» Habría deveria ter escrito, o que foi agora corrigido na edição comemorativa do 40.º aniversário da publicação.

* Vocábulo espanhol derivado por regressão de gazapatón, e este do grego κακέμφατον, através do latim cacemphăton, «dito malsoante».

«Ticker» e rodapé

Rodapé serve

      «Os ticker — rodapés que passam informação complementar por escrito — vão desaparecer da SIC, no dia 19, anuncia Alcides Vieira», que acrescenta: «É um risco assumido, mas achamos que a sua existência só traz ruído à imagem. Fomos a primeira estação, em Portugal, a adoptá-los, seremos a primeira a acabar com eles» («Opção. Adeus [,] rodapés», Luísa Oliveira, Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 1997, p. 114). «Rodapés», dizem bem. Sobretudo agora que acabaram, a designação inglesa é mera excrescência. Ruído.

Léxico contrastivo: «zerar»

Reduzir a zero

      «O setor da construção civil apresentou ao governo um projeto para estimular a construção e financiamento de moradias populares e zerar o déficit brasileiro de 7,9 milhões de habitações em 12 anos» («Projeto prevê zerar déficit habitacional em 12 anos», O Povo, 17.11.2007, p. 23). Em Portugal, seríamos menos económicos a escrevê-lo: «Projecto prevê reduzir a zero o défice habitacional em 12 anos». Segundo o dicionário Aulete Digital, são as seguintes as acepções do verbo zerar: «Quitar (conta, dívida, etc.).│Reduzir a zero.│Compensar.│Dar ou receber nota zero.»

Acordo Ortográfico

As contas de Bechara

      As contas de Evanildo Bechara sobre o Acordo Ortográfico são outras. Em entrevista ao jornal O Globo (caderno «Prosa e Verso», 1.9.2007), começa por lamentar que não haja grandes revoluções (tinha de haver?) nas alterações que se vão fazer. Pior ainda: «O outro [ponto] é que as modificações no sistema brasileiro são em maior número do que as que os portugueses vão ter que fazer.» Em rigor, afirma, Portugal «só vai ter duas modificações: vão deixar de usar as consoantes mudas e eliminar o “h” inicial em palavras como “úmido”. O Brasil fez mais cedências». Está dado o mote. Deixa, contudo, conselhos sábios: «Seria bom que se economizasse mais na acentuação.» E explica: «Se você pegar um livro escrito antes da reforma de 1911, e esse mesmo texto na ortografia atual, portuguesa ou brasileira, vai ver que o texto tinha muito menos acentos antigamente.» Os acentos, afirma, surgiram numa «época em que a rede escolar era muito mais frágil do que hoje. Era necessária uma reforma em que a maneira de grafar as palavras ajudasse as pessoas a pronunciá-las corretamente». O que o novo acordo estabelece em relação ao hífen também não lhe parece satisfatório: «A reforma estabelece 13 regras para utilização do hífen. É um avanço, já que hoje Portugal tem mais de quarenta regras e sub-regras. Mas isso ainda poderia ser resolvido com quatro ou cinco regrinhas muito simples, que tivessem como critério básico impedir pronúncias erradas.»

Conjugador

Acabaram-se as desculpas

      Eis o LX Conjugator. Pese embora o nome, é um serviço em linha gratuito para a conjugação completa de verbos portugueses com características invulgares, como a opção de conjugação pronominal.

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