Aviamento: acepções

Em extinção

Há uma acepção do vocábulo «aviamento» que não é encontradiça. Trata-se da acepção «conclusão ou andamento de um negócio, de uma actividade». Eis que surge: «Mas os planos europeus [prosseguidos através dos acordos de parceira económica, como o Acordo de Cotonou] compreendem também a erradicação das bolsas de pobreza e o apoio da integração económica regional, através da harmonização dos quadros normativos nacionais e o aviamento da transformação das relativas economias, a fim de as integrar nos processos de globalização» («Acordos de Parceria Económica», Marco Cochi, revista Além-Mar de Novembro). Eu sei: o próprio termo em si, independentemente da acepção, não se encontra facilmente na imprensa. Mais um motivo para trazer para aqui este achado. Mérito do tradutor, pois o termo corresponderá certamente ao italiano avviamento: «l’avviare e il suo risultato, avvio: a. dei lavori pubblici│inizio di un’attività commerciale: a. di un locale pubblico». Na burocracia italiana, avviare una pratica é dar início a um processo.

Uma palavra por dia: «ictus»

O ritmo da morte

«Controlar la hipertensión, no fumar, vigilar el colesterol y hacer ejercicio moderado para mejorar la condición cardiaca, son prácticas que pueden prevenir los ictus o derrames cerebrales» («Medidas para prevenir los derrames cerebrales», Público, 9.10.2007, p. 43). Ictus, pois. No contexto, não é o acento métrico, é o «cuadro morboso que se presenta de un modo súbito y violento, como producido por un golpe» (do latim ictus, golpe, pancada, e em especial o que marcava o ritmo). Também em português temos o vocábulo e a acepção médica, ambos desusados. Temos, até, palavras em que entra como elemento de formação, como «ictiúltimo»: diz-se do vocábulo que tem o acento tónico na última sílaba; agudo; oxítono. E a propósito de medicina, a Real Academia Nacional de Medicina apresenta na edição da Feira do Livro de Frankfurt (que este ano tem como convidada de honra a cultura catalã) que hoje começa o maior dicionário de terminologia médica do mundo.

«Icto, s. m. Acentuação mais forte de uma sílaba em palavra ou frase; acento tónico.│Mús. Notas muito acentuadas do primeiro e do último tempo forte de um ritmo.│Ataque mórbido que se manifesta de forma brutal.│Batimento, pulsação» (in Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva).

Etimologia: mouco

Imagem: Fresco de Fra Angelico (c. 1450) de Prisão de Cristo.

A poesia dos verbetes

No verbete actualizado do vocábulo «mouco», o Dicionário Aulete, a respeito da etimologia, regista: «De or. obsc., talvez ligado a mocho.» Mas o verbete original afirmava: «F[ormação ou étimo]. arameu Malka (rei), através do lat. Malchus (nome de um dos soldados que prenderam Cristo e a quem S. Pedro cortou uma orelha).» Talvez por acharem demasiado fantasiosa a etimologia estabelecida até hoje, os responsáveis deste dicionário decidiram modificar o verbete. Aliás, o Dicionário Houaiss também afirma ser a etimologia de «mouco» de origem obscura, mas talvez ligada a «mocho». Lembro a história bíblica, que se pode ler no Evangelho segundo S. João, 18,10: «Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote [Caifás], cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.» Nas palavras da Vulgata: «Simon ergo Petrus, habens gladium, eduxit eum et percussit pontificis servum et abscidit eius auriculam dextram. Erat autem nomen servo Malchus.» Caifás dissera ao seu servo que este era os seus ouvidos. Em hebraico, o nome do servo era Melekh (nos caracteres hebraicos, ךלמ), que significa «rei», muito comum nas línguas semitas.

Ir para o maneta

Frase feita

A propósito do lançamento de várias obras sobre a História de Portugal, escrevia José Gabriel Viegas na revista Actual: «Deste conjunto faz igualmente parte Ir Pró Maneta, de Vasco Pulido Valente (Alêtheia). O «Maneta» é o lendário (e famigerado) Louis Henri Loison, general dos Exércitos franceses que participou nas três invasões da Guerra Peninsular. Ficou na história da saga napoleónica sobretudo pela sua total falta de escrúpulos no que tocava à apropriação em proveito próprio dos saques e impostos cobrados em zonas ocupadas e, em Portugal, pela dureza e crueldade com que tratava as populações submetidas. Traços de carácter que deram origem à expressão «ir pró maneta» e que inspiraram numerosas rimas satíricas populares, como esta: “Aos alheios cabedais/ lançava-se como seta/ namorava branca ou preta/ toda a idade lhe convinha./ Consigo três Emes tinha:/ Manhoso, Mau e Maneta.” O livro de Vasco Pulido Valente não se fica, porém, por estes aspectos anedóticos, sendo a figura de Loison o ponto de partida para um ensaio rigoroso e vivo da história das Invasões Francesas» («Regresso à História», José Gabriel Viegas, Expresso/Actual, 5.10.2007, p. 52). De facto, ir para o maneta ou mandar para o maneta passou a significar «escangalhar-se; estragar-se; perder-se (no sentido de não ter recuperação)», conforme pode ler-se no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, de Guilherme Augusto Simões (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993, p. 376). Orlando Neves, no Dicionário de Expressões Correntes (Círculo de Leitores, Lisboa, 2000, pp. 270-71), cita não apenas estes, mas também outros versos.

Carácter, caracteres

Vejamos


      Recentemente, Ricardo Nobre, no Livro de Estilo, abordava o equívoco à volta do vocábulo «carácter». E escrevia: «A acentuação deve-se à passagem do grego χαρακτήρ, ‘sinal, marca; traço característico, carácter; sinal’ para o latim charācter, onde a palavra ganha o acento que toma em português: no caso, grave por a penúltima sílaba ser longa.» Também o Prof. Vasco Botelho de Amaral escreveu acerca desta questão: «Carácter tinha em latim (e já o tinha no grego) o e longo (charactēr, charactērem, charactēres). Pelo acusativo singular latino, o português antigo era character*, com acento tónico no e. Mas o povo português passou a proferir carácter, mudando o acento, como mudou em muitos outros casos. Oceano era océano, ídolo era idolo, amor era ámor, se ainda falássemos à latina» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 83).
      «Caracter», como ouço paginadores e gráficos dizerem, e o Livro de Estilo do Público regista, está incorrecto? O Dicionário Houaiss também regista as formas caracter e caractere, não indo mais longe do que isto: «forma menos correcta». D’ Silvas Filho, que numa resposta a uma consulta em 2000 rejeitava liminarmente a forma «caracter» (ou «caractere», como prefere), noutra resposta, em 2005, já afirmava: «Neste caso concreto, penso que não posso condenar o hábito que tem havido de distinguir cará(c)ter e cara(c)tere, pois, para mim, não traz mal à língua. Pelo contrário: foi uma forma que o falante teve de construir novo significante especificamente para um dos conceitos particulares do termo cará(c)ter, reduzindo a sua relativa polissemia, que já vem do grego. Aceitemos que nos nossos dias cará(c)ter está sobretudo ligado ao sentido de conjunto de traços cara(c)terísticos.» Em francês, curiosamente, foi sob a forma karactere que o vocábulo surgiu em 1274. Jorge Wemans, que foi provedor do leitor do Público entre Fevereiro de 1997 e Março de 1998, escreveu, em resposta à crítica de um leitor: «Em síntese, simplificando e sem fundamentar excessivamente a nossa opção, o PÚBLICO aceita que: 1. “caracter” não existe; 2. “caractere” é uma forma correcta de grafar o substantivo que designa “qualquer dígito numérico, letra do alfabeto ou um símbolo especial”; 3. “carácter” é uma forma correcta de grafar o substantivo que designa o anterior ou a índole das pessoas; 4. Os dois substantivos referidos em 2. e 3. grafam-se no plural do mesmo modo: “caracteres”» («Erros, siglas e carácter», Jorge Wemans. Ver aqui).
Sou de opinião que só deve haver uma forma: carácter (com o plural em caracteres). Afinal, já em grego o vocábulo era polissémico. Mas tenho muito tempo e estudo pela frente para mudar de opinião.

* Acrescento meu: Só com a reforma ortográfica de Gonçalves Viana, em 1911, se procedeu à «proscrição absoluta e incondicional de todos os símbolos da etimologia grega: th, ph, ch (= k), rh e y».

Verbo «haber», impessoal

Impessoal e espanhol

No recomendável La Peña Lingüística, o linguista peruano Miguel Rodríguez Mondoñedo, professor de Sintaxe Espanhola na Universidade de Indiana, escrevia recentemente sobre a impessoalidade — sim, também no espanhol — do verbo haber: «Como ya habíamos comentado anteriormente, la pluralización del verbo haber en oraciones existenciales, aunque presente a lo largo y ancho del español al menos desde el siglo XIV, ha echado sólidas raíces en tierras peruanas, donde alcanza diferentes estratos sociales y situaciones comunicativas. Precisamente, ayer, la Ministra de Trabajo, Susana Pinilla, nos ha proporcionado no uno sino dos claros ejemplos de lo extendido que está ese uso en el Perú: “No obstante, Pinilla reiteró que sus declaraciones fueron malinterpretadas y que jamás lanzó ese adjetivo contra la CGTP. ‘Yo nunca dije que habían traidores a la patria, lo que yo dije (…) es que me extrañaba que hubiesen personas que se consideraban peruanos que traicionaran los valores de la patria vinculados a la inversión, etc., pero no mencioné ni nombres ni centrales ni nada, fue una acotación en términos generales, ni tampoco mencioné traidores a la patria’, expresó” (Peru.com. 9 de Agosto del 2007)» («Habían, hubiesen», Miguel Rodríguez Mondoñedo, 12.9.2007).
Lê-se no Diccionario Panhispánico de Dudas:

«4. Verbo impersonal. Además de su empleo como auxiliar, el otro uso fundamental de haber es denotar la presencia o existencia de lo designado por el sustantivo que lo acompaña y que va normalmente pospuesto al verbo: Hay alguien esperándote; Había un taxi en la puerta; Mañana no habrá función; Hubo un serio problema. Como se ve en el primer ejemplo, en este uso, la tercera persona del singular del presente de indicativo adopta la forma especial hay. Esta construcción es heredera de la existente en latín tardío «habere (siempre en tercera persona del singular) + nombre singular o plural en acusativo». Así pues, etimológicamente, esta construcción carece de sujeto; es, por tanto, impersonal y, en consecuencia, el sustantivo pospuesto desempeña la función de complemento directo. Prueba de su condición de complemento directo es que puede ser sustituido por los pronombres de acusativo lo(s), la(s): Hubo un problema > Lo hubo; No habrá función > No la habrá. Puesto que el sustantivo que aparece en estas construcciones es el complemento directo, el hecho de que dicho sustantivo sea plural no supone que el verbo haya de ir también en plural, ya que la concordancia con el verbo la determina el sujeto, no el complemento directo. Por consiguiente, en estos casos, lo más apropiado es que el verbo permanezca en singular, y así sucede en el uso culto mayoritario, especialmente en la lengua escrita, tanto en España como en América: «Había muchos libros en aquella casa» (Ocampo Cornelia [Arg. 1988]); «Había unos muchachos correteando» (VLlosa Tía [Perú 1977]); «Hubo varios heridos graves» (Valladares Esperanza [Cuba 1985]); «Habrá muchos muertos» (Chao Altos [Méx. 1991]). La misma inmovilidad en singular del verbo conjugado debe producirse en el caso de que haber forme parte de una perífrasis con poder, soler, deber, ir a, etc.: «En torno de una estrella como el Sol puede haber varios planetas» (Claro Sombra [Chile 1995]); «En esta causa va a haber muchos puntos oscuros» (MtzMediero Bragas [Esp. 1982]). No obstante, la excepcionalidad que supone la existencia de un verbo impersonal transitivo, sumado al influjo de otros verbos que comparten con haber su significado «existencial», como estar, existir, ocurrir, todos ellos verbos personales con sujeto, explica que muchos hablantes interpreten erróneamente el sustantivo que aparece pospuesto al verbo haber como su sujeto y, consecuentemente, pongan el verbo en tercera persona del plural cuando dicho sustantivo es plural: *«Hubieron muchos factores que se opusieron a la realización del proyecto» (Expreso [Perú] 22.4.90); *«Entre ellos habían dos niñas embarazadas» (Caretas [Perú] 1.8.96); incluso se ha llegado al extremo de generar una forma de plural *hayn para el presente de indicativo, con el fin de establecer la oposición singular/plural también en este tiempo: *«En el centro también hayn cafés» (Medina Cosas [Méx. 1990]). Paralelamente, se comete también el error de pluralizar el verbo conjugado cuando haber forma parte de una perífrasis: *«Dice el ministro que van a haber reuniones con diferentes cancilleres» (Universal [Ven.] 6.11.96). Aunque es uso muy extendido en el habla informal de muchos países de América y se da también en España, especialmente entre hablantes catalanes, se debe seguir utilizando este verbo como impersonal en la lengua culta formal, de acuerdo con el uso mayoritario entre los escritores de prestigio.»

Léxico: genicró

«The Jim Crow in position and ready to tackle another kinky bit.» ©

Força!


      Um leitor, Luís C. Martins, pergunta-me — porque viu que dediquei já alguma atenção ao vocabulário ferroviário — que nome tem em português o equipamento que em inglês se designa por rail straightener. Primeiro, devo explicar em que consiste. É um equipamento usado nos caminhos-de-ferro para corrigir pequenos desalinhamentos da via. Na gíria inglesa, tem também o nome de Jim Crow. Ora, tanto quanto sei, em português só este nome da gíria foi aportuguesado: genicró, dizia-se na Mina de S. Domingos. Nasceu aqui, não nos esqueçamos, a primeira linha de caminho-de-ferro portuguesa.

«Chapelinho», outra vez

Agora sim

      Estão lembrados da questão, em parte insensata, sobre se existe o vocábulo «chapelinho»? Pois agora, numa obra de Vasco Botelho de Amaral, e a propósito de reparos prosódicos entre o Norte e o Sul, leio isto: «Todavia, o e tónico aberto nem sempre consegue manter, mesmo no Norte, a abertura do primitivo: papelpapelinho na boca dos próprios nortenhos; chapéu faz chapelinho (com a vogal muda). Nunca papèlinho nem chapèlinho. E também se emudecem derivados como: mala, malinha (não màlinha), etc.» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 49).

Arquivo do blogue