Tradução: «plaga»

Isso agora...

Interessante, a reflexão do Prof. Cláudio Moreno a propósito da tradução adequada do termo latino plaga, usado pelo Papa Bento XVI na exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, referindo-se ao casamento entre duas pessoas divorciadas. «Praga» ou «chaga»? Ou é tudo o mesmo? «Agitur de quaestione pastorali ardua et complicata, vera quadam plaga hodierni contextus socialis, quae ipsas provincias catholicas crescente transgreditur modo.» Na versão portuguesa lê-se: «Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos.» A imprensa brasileira parece que ficou muito agitada com a questão. Ver aqui. Posso estar enganado, mas a magna questão não nos tocou.

Ortografia: co-piloto

Espera aí

Até me assustei ao ler: «Em Maio, André Saint-Maurice, um copiloto de 22 anos de Cascais que é visitante frequente da comunidade de Taizé — e o Bisonte mais novo —, fez a sua primeira missão de longo curso, até ao Afeganistão, com escala em Salónica, Grécia» («Os militares humanitários», António Melo, Público/P2, 15.09.2007, p. 9). Como o escrevem quatro vezes, é de admitir que estejam a falar a sério. Mas a palavra fica transfigurada, pois sempre a vi grafada com hífen, e bem, já que o prefixo co- (redução de com, do latim cum) quando significa «a-par» é sempre seguido de hífen.
Entretanto, as instalações sanitárias inventadas pelo Público continuam a ser construídas: «Ainda antes da prova dos vinhos de 2005, no Aquapura Douro Valley (ver texto de David Lopes Ramos), Tomás sentiu necessidade de ir à casa-de-banho do hotel» («O urinol», Pedro Garcias, Público/Fugas, 15.09.2007, p. 18).

Tradução: «barrister»

O preclaro causídico

      «No Reino Unido, a maior parte do Direito não está em códigos, resultando de casos julgados que fazem a regra dali para a frente. “Mesmo quando existem regras codificadas elas determinam o máximo da pena a aplicar num tipo de crime, mas normalmente não há mínimos”, explicou ao PÚBLICO Fred Ferguson, um advogado de barra (barrister) especializado na área criminal. Estes defensores, ao contrário do que acontece em Portugal, só podem fazer julgamentos. Por outro lado, os solicitors só prestam apoio jurídico» («Gerry e Kate McCann terão ido ontem reunir-se com os seus advogados ingleses», Mariana Oliveira, Público, 15.09.2007, p. 8). Não foi há muito tempo que vi — juro! — o termo barrister traduzido por «advogado causídico».

Topónimo: Samatra

Livro sem Estilo

      «Os habitantes da ilha indonésia de Sumatra viviam ontem horas de grande tensão depois de um novo alerta de tsunami, o segundo do dia e o quinto na zona depois de uma violenta réplica de magnitude 6,8 do sismo de grau 8,4 na escala de Richter, o mais forte deste ano, que matou quarta-feira 10 pessoas e causou 40 feridos, de acordo com um novo balanço divulgado ontem» («Novo sismo e cinco alertas de tsunami na ilha de Sumatra», Público, 14.09.2007, p. 20). A grafia correcta deste topónimo é Samatra.

Dicionários

Aulete Digital

Confesso: não conhecia o projecto Aulete Digital. Só ontem me avisaram da sua existência. É, apraz-me dizê-lo, um projecto exaltante. Trata-se da edição digital do dicionário de Caldas Aulete. É, na sua versão original, em alguns aspectos, um dos melhores dicionários da língua portuguesa. O dicionário, nesta versão, está em actualização permanente — actualização em que o próprio leitor pode participar. É a oportunidade, pois, de algum William Chester Minor da lexicografia portuguesa se revelar.
Na verdade, quando o seu autor, o professor, lexicógrafo e político Francisco Júlio de Caldas Aulete (1826-1878), morreu, apenas os verbetes correspondentes à letra a estavam concluídos, tendo o trabalho sido continuado por António Lopes dos Santos Valente (1839-1896) e outros lexicógrafos. A primeira edição data de 1881, tendo-se seguido outra em 1925 e uma última em 1948, com reimpressão em 1952. Esta edição brasileira é da editora Lexicon Obras de Referência.

Pluralização dos apelidos

Só com Mossos d’Esquadra


      Ora vejam aqui os Bourbons pluralizados em espanhol e em catalão, como também se deve fazer em português. «Posteriormente, la manifestación, encabezada por dos pancartas contra los Borbones, ha cortado varias calles céntricas de Girona hasta uno de los puentes que da acceso al Pabellón de Fontajau, donde el Don Rey Juan Carlos I preside un acto con unos mil empresarios gerundenses» («Centenares de personas queman fotos de los Reyes en la plaza del Ayuntamiento de Girona», El País, 14.09.2007). «Posteriorment, la manifestació, encapçalada per dues pancartes contra els Borbons, ha tallat diverses carrers cèntrics de Girona fins a un dels ponts que dóna accés al Pavelló de Fontajau, on el Rei Joan Carles I presideix un acte amb uns mil empresaris gironins» («Centenars d´independentistes es manifesten en contra de la presència del Rei a Girona», Diari de Girona, 14.09.2007). Mas depois vieram os Mossos d’Esquadra e barraram o caminho aos manifestantes, coisa que eu não posso fazer aos jornalistas portugueses que escrevem, todos os dias, «os McCann».


Léxico: chofar

Público e notório

O novo ano judaico, 5768, começou ontem. «Na festa de Rosh Hashanah, toca-se o shofar, a trompeta feita com chifre de carneiro. São lidos textos e orações relacionados com a análise dos actos que se fizeram ao longo do ano, explica Samuel Levy, ex-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa» («Toneladas de tâmaras para o Ramadão e maçãs com mel para Rosh Hashanah», António Marujo, Público, 14.09.2007, p. 20). Pois é, mas shofar está aportuguesado como chofar. Por exemplo, no Dicionário Houaiss: «chofar s.m. buzina de chifre de carneiro (ou de qualquer animal, excepto a vaca) empr. pelos antigos hebreus nos seus rituais e ainda us. nas sinagogas no término do Yom Kippur (dia do perdão), antes e durante o Rosh Hashana (ano-novo), na proclamação do ano sabático etc. ETIM heb. shōphār ‘id.’»

«Clítoris» e «clitóris»

Variantes


      Uma leitora habitual, que não quer ser identificada, pergunta-me como prefiro: «clítoris» ou «clitóris»? Antigamente, os dicionários de língua portuguesa apenas registavam a primeira forma — clítoris. A variante brasileira, contudo, já era então a segunda — clitóris. Agora, porém, as duas variantes convivem amenamente nos dicionários publicados em Portugal, sem ofensa para ninguém nem desprimor para a excrescência. Rebelo Gonçalves, que registou «clítoris», preferia «clitóride». Eu prefiro — e sempre disse, sem ninguém se atrever a rir, fosse por receio de traumatismos, fosse por receio da minha língua afiada, que nesta matéria conta muito — clitóris.

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