Ensino e literatura

Uma barbaridade

      «Um dos primeiros comentários foi o que a presidente da Associação de Professores de Português entendeu fazer, salvo erro no dia seguinte a serem conhecidos os resultados. Comentário a todos os títulos lamentável, porque uma classe (a de professores de Português – a nossa língua!) não pode rever-se nas observações quase indigentes que foram feitas sobre o facto de os professores continuarem a “perder” muito tempo a dar textos literários (que, subentende-se, não serviriam para nada – quando servem para aprender a pensar, senhora presidente da associação, e aprender a sentir, e a saber o que tem sido e é a cultura portuguesa!) como, entre outros, O Auto da Alma, de Gil Vicente, ou Padre António Vieira» («Há que deixar de manipular os resultado e os factos», Helena Carvalhão Buescu, Público, 31.07.2011, p. 54).
       O excerto é suficiente para mostrar, mais uma infausta vez, a que estado chegou o ensino. Como se pode prescindir da literatura no ensino e aprendizagem da língua? Já vêem a gravidade da afirmação, mormente vinda de quem vem, nada mais que a presidente da Associação de Professores de Português.

[Texto 361]
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«Pôr a leitura em dia»

Agora é assim, Filomena Araújo?

      Lá ficámos a saber, mesmo sem nos interessar minimamente, que Luís Marques, director-geral da SIC, voltou a escolher o Algarve para uns dias de férias em Agosto. As páginas dos jornais têm de aparecer escritas, seja lá com o que for. Isto, todavia, já nos interessa: «Nas férias, Luís Marques aproveita sempre “para colocar a leitura em dia”, o que não consegue fazer durante o resto do ano» («Luís Marques dedica-se à lavoura», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 51). Ainda virá alguém lembrar-nos que o giro tem consagração legal.

[Texto 360]
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Aspas

A importância das aspas

      «De acordo com Ferreira de Oliveira, que falava durante a apresentação de resultados semestrais da companhia, as estações que encerraram eram de pequena dimensão e não conseguiram atingir a rentabilidade necessária para continuar a operar. Uma realidade que está a preocupar o presidente da Galp. “Há estações de serviço a morrer em Portugal”, conclui» («Galp já encerrou 17 ‘bombas’ este ano por causa da crise», Ana Baptista, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 33).
      A jornalista teve receio de que o pobre e ignorante leitor supusesse, pela leitura do título, que se tratava de engenhos explosivos, pelo que, ad cautelam, usou as aspas. Com as aspas, a acepção mudou logo, não é?

[Texto 359]
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Tradução: «bruschetta»

De Itália para o Ribatejo

      Mais ou menos ao mesmo tempo que eu estava a ver no Ipad que a sardinha começa a ser usada na «alta cozinha» (o prato de Henrique Sá-Pessoa, com a sardinha salpicada com pão alentejano tostado no forno, parecia apetitoso) e me ria por ver que um repórter da RTP tinha ido entrevistar o «sushiman Aguinaldo Ferreira» (como se lia no rodapé e se ouviu a repórter, mas na verdade o nome é Agnaldo), um leitor de Queijas acabava de ver um episódio do programa MasterChef e escrevia-me: «A certa altura, num “desafio” em que o ingrediente principal era o pão, um dos concorrentes falou em bruschetta, sendo advertido por um elemento do júri para o facto de em português haver uma palavra para esse prato: torricado.»
      José Pedro Machado, por exemplo, apenas regista o vocábulo torricado (ou torriscado) como adjectivo: «que se torriscou; excessivamente torrado (falando-se de fatias de pão); crestado, queimado pelo calor». Na Wikipédia, porém, lê-se que «o torricado é um prato típico da região do Ribatejo, tradicionalmente associado ao trabalho do campo, especialmente dos trabalhadores vitícolas e aos pescadores dos valados do Tejo da área da Azambuja. Consiste numa forma prática de cozinhar o pão, torrando-o e untando-o de azeite e alho, de forma a acompanhar bacalhau ou sardinhas assadas, embora também seja usual como acompanhamento de carne». Ora, bruschetta (já muito empregado na sua forma aportuguesada, brusqueta) é a «fetta di pane abbrustolito condita con olio, sale, aglio». Parece-me, pois, bem que se use «torricado» em vez da palavra italiana. E o facto de a proposta vir de alguém ligado à gastronomia deixa-nos algumas esperanças.
[Texto 358]
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Infinitivo pretérito

Quando, exactamente?

      «Relendo o número 13 [de A Bem a Língua Portuguesa], de Janeiro-Fevereiro de 1972, lembrei-me de lê-lo e comentá-lo com o meu pai. Como jovem arquitecto naval, ele tinha desenhado vários cacilheiros e fascinava-o a dificuldade de arranjar palavras portuguesas para ferry-boat. Cacilheiro era uma solução engraçada mas desgraçadamente local. Como chamar as ferribotas com outros destinos que não Cacilhas?» («O canal da Manga», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2011, p. 31).
      Quando é que Miguel Esteves Cardoso leu o boletim da SLP ao pai? Em 2011, tempo da escrita, ou antes? A dúvida levou-me a pesquisar na internet. Cá está: Joaquim Carlos Esteves Cardoso † 1994. A crónica começa assim: «A Bem da Língua Portuguesa: assim se chama, com justiça, o Boletim [sic] da Sociedade de Língua Portuguesa. Esta semana um amigo nosso deu-nos uma dúzia deles.» (Se escreveu a crónica no domingo, 24, quer dizer que lhos tinham oferecido nesse mesmo dia, porque a semana começa no domingo. Logo, em princípio, se não é ficção, terá sido na semana anterior. Mas a questão não é esta.) Como está escrito, o leitor é levado a pensar que, relendo agora, em Julho de 2011, o boletim n.º 13, se lembrou de o ler ao pai — o que sabemos ser impossível porque este já faleceu. Ora, só podemos concluir que o tempo verbal não é o correcto. Correcto seria ter usado o infinitivo pretérito impessoal: «lembrei-me [então] de o ter lido e comentado [antes] com o meu pai».
      «Lembrei-me de ter lido nos jornais locais que o grande ator e sua companhia davam espetáculos em Lima» (Solo de Clarineta, Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, p. 334).

[Texto 357]
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O valor dos nomes

Perto ou longe

      Os nomes valem o que valem. Ao comando do exército prussiano (ou «prusso», como leio aqui e também é correcto mas pouco empregado) estava o marechal Blücher, que queria que a que ficou conhecida como Batalha de Waterloo ficasse conhecida como Batalha de La Belle Alliance. Wellington, à frente do exército anglo-holandês, insistiu em manter o seu hábito de nomear as batalhas em função do lugar onde tinha pernoitado na véspera.
      Há uma polémica, virulenta e escarninha, de Camilo, de que me recordo apenas vagamente, sobre determinada livraria (de Viterbo?) não estar localizada onde o nome fazia supor que devia estar. Alguém se lembra em que obra se encontra? E alguma vez teremos toda a obra de Camilo digitalizada e disponível na internet?
[Texto 356]
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«O Público errou»

E voltou a errar

      Página 32 da edição de hoje do Público: «No texto “Pouca obra para um projecto ambicioso”, publicado ontem no Local Lisboa, saiu incompleta a frase “Os custos mensais de funcionamento da estrutura da Frente Tejo rondam os 60.000 euros por mês”.» Está a revelar-se uma vocação, isto de não perderem uma oportunidade de errar.
[Texto 355]
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Uma frase

Economiza, pá

      Como me apareceu aqui uma semelhante, escrita por um filósofo, retomo a frase já analisada no Assim Mesmo: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).
      Correcto é, como vimos então, com o verbo na 3.ª pessoa do singular. Observem, contudo, que não é necessário, nesse tipo de estrutura, incluir o verbo “fazer”, pois ele está subentendido pelo contexto. Outra vez e melhor: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se pode ver nos circos.» Aliás, até o plural é escusado: «como se pode ver no circo».
[Texto 354]


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Léxico: «abatis(es)»



Mais para trás

      «Uma das técnicas utilizadas pelos guerrilheiros para dificultar o avanço das tropas portuguesas era derrubar árvores sobre picadas, os abatises» (Guerra Colonial: um repórter em Angola, Carlos de Matos Gomes e Fernando Farina. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 55).
      Palavra quimbunda? Ná. Portuguesa, importada de França: de abatis (ou abbatis), «obstacle artificiel formé d’arbres abattus». É, com mais rigor, o obstáculo defensivo feito de troncos e galhos aguçados de árvores abatidas, destinado a dificultar o avanço do inimigo. Para o Dicionário Houaiss, o primeiro registo na língua é de meados do século XIX, erro óbvio que atribuo à variante antiga do vocábulo ser «abatiz(es)». Assim, talvez «abatis» tenha sido usado pela primeira vez no século XIX, mas encontraremos «abatiz» uns bons séculos atrás. Não raro, a intuição anda muito longe da academia...

[Texto 353]
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Etimologia: «britânico»

Nem eles saberão

      Li algures, não sei onde: «The Britons (meaning ‘painted ones’, as they painted themselves blue) fought in the sea to prevent the landing, accompanied by huge dogs.» Sabia, caro Francisco Agarez? Bem, mas isto não nos interessa muito: somos «lusos», como os jornais gratuitos não se cansam de nos lembrar. Recebemos o vocábulo «britânico» do latim, britannĭcus.
[Texto 352]
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Concordância

Ora toma: verbo identificacional

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»
      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase b: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»
      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

[Texto 351]
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«Deduzir acusação»

Induzir o parto

      «Resta ao Ministério Público “valorizar esses mesmos indícios e induzir a acusação ou, então, optar por arquivar o processo”. A actriz, que “não deverá ser ouvida pela PJ mais nenhuma vez”, vai agora ter de esperar “poucas semanas até que o processo esteja totalmente concluído”» («Sónia Brazão foi constituída arguida por crime de explosão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48).
      Então não é deduzir acusação, isto é, propor em juízo, que se diz? Quem sabe se a «fonte da PJ» não foi um porteiro. A locução de uso jurídico fez-me lembrar o comentário do leitor C. Ferreira a propósito do espúrio «colocar em perigo»: «Esta última locução tem, aliás, consagração normativa, v.g. no Código Penal, pelo que o seu uso pelo advogado referido não será despropositado.» Talvez tenha razão neste ponto, mas não apenas a lei «consagra» outras formas espúrias, como «implementação» e quejandos, como quem diz «colocar em perigo» também dirá «colocar o dedo no nariz», «colocar em fuga» e mais algumas dezenas de idiomatismos assim barbaramente desfigurados.
[Texto 350]

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Acordo Ortográfico

Caos das chamadas facultatividades

      A propósito do Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura interpela hoje Jorge Miranda no seu próprio campo, o do direito. Contudo, deixo um excerto mais atinente à ortografia: «O Acordo Ortográfico significa a perversão intolerável da língua portuguesa. Sempre admirei o saber jurídico, a obra académica e a postura cívica do meu amigo Jorge Miranda. Mas não posso concordar com as considerações que ele faz sobre tão sinistro instrumento, no Público de 13.7.2011.
      Uma pessoa pode deixar-se embalar por uma concepção tão poética quanto irrealista da pretensa unidade ortográfica (ontológica, mítica, sublimada…) da nossa língua; pode mesmo prestar tributo a um certo darwinismo, em que o facto de o Brasil ter 200 milhões de pessoas seria razão bastante para sacrificar a norma seguida por mais de 50 milhões de outros seres humanos…
      Mas o que ninguém pode é passar em claro que o AO leva ao agravamento da divergência e à desmultiplicação das confusões entre as grafias e faz tábua rasa da própria noção de ortografia, ao admitir o caos das chamadas facultatividades. Sobre tudo isso existe, de há muito, abundante material crítico, com destaque para os estudos essenciais, demolidores e, note-se, não contrariados, de António Emiliano» («Deveras decepcionado», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 54).

[Texto 349]
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Aplique na cabeça?

Isso é muito estranho

      «O cabelo beehive (nome dado por se assemelhar a uma colmeia) foi outra das marcas fortes da imagem da cantora, resultado entre o seu cabelo natural e um aplique falso colocado no alto da cabeça, dando mais volume e estrutura» («O estilo que a cantora Amy Winehouse criou», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 52).
      Já tinha perguntado a mim mesmo como é que ela tinha aquele penteado. Nunca me passou pela cabeça que fosse um aplique, um «objecto que se aplica ou coloca numa parede como ornamento ou iluminação», leio no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu diria que era uma armação.

[Texto 348]
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«Colocar/pôr»

Outro

      O advogado Rogério Alves também diz, a fazer fé no que está transcrito na edição de hoje do Diário de Notícias, «colocar em perigo». «Por isso, Rogério Alves conclui que Sónia Brazão só será condenada a dez anos de prisão “se se provar que tanto o crime como o perigo são de natureza dolosa, colocando em perigo vidas ou bens com significado”, remetendo o caso para o artigo 272 do Código de Processo Penal» («Actriz arrisca uma pena até dez anos de prisão», Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48). Mais um mau exemplo com presença garantida na nossa comunicação social.

[Texto 347]
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Contracções

Descontraia, Vítor

      «As causas da morte da cantora Amy Winehouse, anteontem encontrada sem vida no seu apartamento londrino do bairro de Camden, continuam por apurar, apesar dos tablóides britânicos referirem que o motivo poderá ser overdose de álcool e drogas» («Reacções emocionadas a uma morte “mais do que triste” que continua por apurar», Vítor Belanciano, Público, 25.07.2011, p. 12).
      Não seguem os conselhos da «nossa especialista em língua portuguesa», e dá nisto, não descontraem. É claro que não leu ou não se lembra do Livro de Estilo do jornal: «apesar de + verbo no infinito — Nestes casos não se pode fazer a contracção da preposição de com o artigo ou pronome que se lhe segue».

[Texto 346]
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Léxico: «argiloterapia»

É canja

      Filomena Crespo informou logo no início: «Isto hoje, como dizem as criancinhas, é de canja, canjinha de galinha.» Hoje, no Jogo da Língua, a pergunta era sobre o que significa «talassoterapia»: «terapia à base de argila ou de água do mar?» Respondeu «a nossa especialista em língua portuguesa»: «Fiz uma pesquisa. Efectivamente, não há um substantivo em português que designe uma terapia à base de argila.»

[Texto 345]
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Aportuguesamentos

Depende de nós

      «He’s still on the tennis court», lê-se no original. E está traduzido como «corte de ténis», como se lê sempre no jornal Record. Um disparate. Em português, basta dizer «campo de ténis». E a propósito de aportuguesamentos, hoje li no sítio da RTP «pírcingue», de que tinha somente a vaga ideia de que existia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, mas remete para pircing. Que se pode dizer? Bem, não é pior do que «icebergue».

[Texto 344]
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Tradução: «BB gun»

Mas ferem

      O adolescente foi lá para fora «to shoot things with a BB gun». «A dar tiros com uma arma de fulminantes», verteu o tradutor. E «fulminante», comprova-se em qualquer dicionário, é o «explosivo das espingardas de criança». Inofensivo, então, só ruído. Em Janeiro deste ano, a fotógrafa Dana Smillie foi atingida, ao que parece, por doze tiros de uma BB gun disparados por polícias egípcios. O adolescente continua lá fora — e ouvem-se fulminantes a rasgar as folhas das árvores. Uma BB gun é uma pressão de ar — espingarda ou pistola.

[Texto 343]
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Tradução: «clam fried»

E a especialidade é?...

      É uma das iguarias típicas da Nova Inglaterra: fried clams. E qual a tradução? Aqui alguém verteu como «amêijoas». Os dicionários bilingues não registam mais do que isto: amêijoa; castanhola; pés-de-burro, vénus-casina. Uma coisa é certa: o nome científico é Mya arenaria. Na Fiskbasen, pode ler-se que clam é em português clame de areia. Neste documento da Marinha portuguesa, o nome inglês para a Mya arenaria (clame-de-areia) é sand gaper, outro nome para clam.
      A nossa personagem gostava particularmente de comer clam fried em certo restaurante à beira da estrada, porque «they’re just the necks, no bellies». Não estou a ver podermos destrinçar estas partes nas nossas amêijoas comuns. Alguém tem alguma ideia?
[Texto 342]
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«Casa-barco/barco-casa»

Serve inverter os termos?

      A propósito do plural de «barco-casa», o leitor Montexto comentou: «Eu esse tipo de palavras evito-as.» O que me parece é que, se eu quisesse fazer o mesmo, me era impossível. O exemplo de hoje não implica o uso do plural, mas lá aparece a palavra: «One day in my grandfather’s rowboat she points to a red boathouse across the lake.» Como podia o tradutor evitar a palavra? Como poderia eu fazê-lo? Bem, o tradutor pelo menos inverteu a ordem dos elementos: «Um dia no barco a remos do meu avô, aponta para uma casa-barco vermelha do outro lado do lago.»
[Texto 341]
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Ortografia: «casa de banho»

Agora e sempre

      «Os motoristas da Carris enfrentam diariamente dificuldades para irem à casa-de-banho porque não existem instalações próprias nos terminais. Para contornar esta situação, a empresa estabeleceu protocolos com alguns cafés em troca de passes gratuitos» («Carris dá passes em troca de casas-de-banho», Marina Almeida, Diário de Notícias, 22.07.2011, p. 21).
      Há quem pense que é preciso aderir às novas normas ortográficas para nos vermos livres desta palermice (só de pensar que têm o aval de pares meus me arrepia) dos hífenes em vocábulos como este. Ora, isto nunca teve pés nem cabeça.
[Texto 340]
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Ortografia: «terra-nova»

A terra pelo cão 

      O pai da nossa personagem principal pôs «the last Newfoundland back in its bed of shavings». O tradutor verteu «o último Terra Nova na respectiva caminha de aparas de madeira». Quanto a «respectiva», já se deixa ver que é desnecessário. Quanto à raça canina, já duas vezes, pelo menos, tratei da matéria (aqui e aqui). Escrever-se-á correctamente terra-nova, que pluraliza (ah sim, outro erro comum) em terra-novas.
[Texto 339]

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Acordo Ortográfico

O que fazia falta

      A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu ontem, domingo, acabei de ouvir na Antena 1. «Em 2008», lê-se na edição em linha do Público, «por ocasião do encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, manifestou-se publicamente contra o novo acordo ortográfico. “Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira”, sustentou na altura.»
      É esta, parece-me, a grande e simples verdade. Se algo era preciso fazer, era seguramente uma reforma ortográfica bem estudada.
[Texto 338]
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Infinitivo

Área crítica da língua

      «Líderes europeus sob pressão para arranjar uma saída para a crise» (João Francisco Guerreiro, Diário de Notícias, 21.07.2011, p. 4).
      O sujeito não está claríssimo? Nestes casos não é obrigatório flexionar o infinitivo? Ou, porque se trata de uma construção indirecta, com preposição, não se pode flexionar o infinitivo? Terceira regra: na dúvida, não se flexiona o verbo.
[Texto 337]
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Ortografia: «Buçaco»

Wellington escreveria o mesmo

      «A Comissão Europeia aprovou ontem o financiamento de perto de duas centenas de novos projectos ambientais na União Europeia, um dos quais de protecção da mata do Bussaco, ao qual atribuiu 3 milhões de euros» («UE dá 3,5 milhões a projectos ambientais portugueses», Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 14).
      Fundação Mata do Bussaco (FMB) — é o nome da fundação criada para preservar a mata do... Buçaco, grafia que se pode ler na restante página da internet. Idiossincrasias... Leiam aqui a etimologia do topónimo de que faz eco Forjaz de Sampaio.
[Texto 336]
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Ortografia: «gim-tónico»

Um gim, dois gins

      Experimente o leitor pesquisar «gin-tónico» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha. O que julga que aparece? «Sintónico» («sintônico» para os Brasileiros). Ah, sim, «gin» está registado neste dicionário. E até «gim», que remete para aquele. Só no Dicionário Houaiss vejo registado — «gim-tónico». Estivesse no plural e não saberíamos qual o singular em mente.
      «Usa os fatos no corte o mais banal possível, põe a primeira gravata que lhe aparece no caminho, faz os nós mal feitos, anda quase sempre desfraldado, liga pouco à forma física, gosta de conversar pela noite fora com os amigos enquanto bebe gin-tónicos, é desorgarnizado [sic], desarrumado, despreza algumas exigências do jornalismo (entrevistas de carácter pessoal, perfis em família, reportagens para as quais os políticos enviam as suas fotos de infância), prefere tascas a restaurantes ‘finos’. Diz-se adepto do FC Porto» («O que os une e o que os separa», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 10).
      Uma vez que estou neste capítulo etílico, aproveito para lembrar que o nome do coquetel feito com gim e vermute branco se escreve martíni. Que o comedido Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista.
[Texto 335]
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Léxico: «canastro»

Coisas antigas

      «As eiras tradicionais e os canastros, ou espigueiros, são outro ponto de interesse, porque estas estruturas ainda hoje servem para o armazenamento de espigas e outros produtos que a terra, fértil e ribeirinha, brota» («Ciclo do linho em Várzea de Calde», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 49).
      Sim, canastro é sinónimo de espigueiro, o que todos os dicionários registam. O que poucos registam é caniceiro, o nome por que na serra do Soajo são conhecidos os espigueiros, aqui não de granito mas de vergame das carvalheiras.
      N’A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós fala num espigueiro: «Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.»
[Texto 334]
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Sobre «anoréxico»

Menos dogmatismo

      «A resposta correcta é “anoréxica”. É verdade. Das três palavrinhas que se acabou de enunciar, “anoréxica”, “encetar” e “síndroma”, a primeira, que se encontra na alínea a), é a que não está atestada nos nossos dicionários. E porquê? Porque, ao substantivo “anorexia” nós temos, aliás… para, para o substantivo “anorexia”, nós temos o adjectivo correspondente, que é “anoréctico” no masculino, “anoréctica” no feminino. Já agora, vou levantar o véu sobre o novo acordo, qualquer dia temos que começar a falar do novo acordo e trazer umas questões sobre o novo acordo aqui para o nosso Jogo da Língua. Muitas dúvidas. “Anoréctico”, “anoréctica”, de acordo, conforme o novo acordo, já não se escreve com c, porque não articulamos o c. De todo o modo, o adjectivo é “anoréctico” ou “anoréctica”, nunca “anoréxica”, nunca. A confusão vem de “anorexia”. Alínea b), o verbo “encetar” existe, significa “estrear”. “Encetar o bolo”, por exemplo, “cortar o bolo pela primeira vez”. E “síndroma” existe, claro, a par de “síndrome”, palavra esdrúxula com acento agudo no i. Portanto, alínea a) é a resposta correcta. “Anoréxica” é a forma, a palavrinha que não existe em português» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 12.07.2011).
      O raciocínio de Sandra Duarte Tavares é linear, simplista e errado — o vocábulo não está atestado nos dicionários, logo não existe. Podia ficar por aqui, mas ainda acrescento isto: à semelhança dos pares disléctico/disléxico, torácico/toráxico e outros, os termos do par anoréctico/anoréxico não se distinguem pela maior legitimidade de um em relação ao outro, mas tão-somente por o primeiro o termos recebido e o segundo se ter formado na nossa própria língua.
[Texto 301]
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«Às mil maravilhas»

Mais um holicismo?

      «Elles riaient et visiblement s’entendaient à merveille.» O tradutor verteu como seria de esperar e está correcto: «Riam-se e era visível que se entendiam às mil maravilhas.» Em francês é, como se vê, à merveille; em castelhano, a maravilla. Escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Esquece-se, às vezes, que a correspondência formal não acompanha a correspondência semântica. Direi, pois, em parêntese, que o castelhano a maravilla traduz o francês à merveille, enquanto à las mil maravillas traduz em bom castelhano o fr. à ravir, em bom português às mil maravilhas» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 26). À maravilha, em português, é arcaísmo que não valerá a pena fazer revivescer.
[Texto 300]
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Tradução: «cartouche»

Só para caçadores francófilos

      Paris, início da década de 1920. Uma senhora visita um museu na companhia de um amigo. Nas salas dedicadas às estátuas, o amigo, que conhece línguas antigas, «traduit les cartouches». «Traduz os cartuchos», verteu o tradutor. As acepções do cartouche francês são mais ou menos as mesmas do português «cartucho». E, em português, «cartucho» também é «cartela», que é o nome que se dá ao pergaminho, muitas vezes destinado à inscrição de uma legenda. O que me parece é que «inscrição» ou «legenda» traduziriam muito melhor o que se pretende dizer.
[Texto 299]
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Acordo Ortográfico

Os velhos argumentos

      O Prof. Jorge Miranda publicou hoje no jornal Público «Brevíssimas notas sobre três questões sérias» (p. 36). Só nos interessa a segunda: «Tenho lido neste jornal, ultimamente, vários artigos a atacar o Acordo Ortográfico e a pedir que seja suspensa a sua aplicação. Não posso concordar.
      Não sou especialista em linguística e não pretendo que o Acordo seja perfeito. Contudo, o que está em causa situa-se muito para além de qualquer deficiência ou erro que contenha ou de qualquer gosto estético. O que está em causa é a afirmação da língua portuguesa como grande língua internacional — a terceira língua de matriz europeia mais falada e falada em quatro continentes; e, para esse efeito, uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável.
      Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas? Pretendê-lo seria totalmente inviável e acabaria por reduzir o português europeu à dimensão do húngaro, do checo ou do sueco, quando, bem pelo contrário, se mostra também necessário afirmar o português, o português internacional, na União Europeia. E não houve reformas muito mais radicais de ortografia do que esta, a começar pela precipitada reforma de 1911, que provocou o corte com o Brasil? Espero bem, por isso, que finalmente, em 1 de Janeiro de 2012, se cumpra o que foi convencionado há mais de 20 anos!
    A verdadeira defesa do português não pode consistir no conservadorismo ortográfico, mas sim na exigência da qualidade do seu ensino e da sua prática na comunicação social, no ensino universitário por professores portugueses para alunos portugueses em português (ao contrário do que sucede em algumas faculdades), no não uso de designações estrangeiras, em suma, na aplicação rigorosa do art. 11.º da Constituição, que o declara língua oficial da República.»
[Texto 298]
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Linguagem

Olha quem

A minha filha costuma rezar uma ou duas jaculatórias antes de adormecer. Ontem, surpreendeu-me ao acrescentar-lhes os números (ela ainda não anda na escola, graças a Deus) até dez — em inglês! Antes de os saber bem, sem se enganar, em português. Começa mal, a rapariguinha, já troca os idiomas. Hoje de manhã inquiri-a. «Foi um menino que me ensinou no jardim.» A mãe confirmou. Que espécie de diálogos ou oaristos mantém ela já, com 4 anos, com os marmanjos? E eu que pensava que ela aprendia (e desaprendia) tudo na televisão.

[Texto 297]
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Tradução: «noceur»

Em francês agora

      O original fala no «instinct de noceur» de alguém, e foi vertido como o «instinto de boémio inveterado». O registo, contudo, é mais familiar ou popular. Faire la noce, diz-se em francês. «Andar na pândega, fazer a festa». O vocábulo «boémio» tem vários sentidos figurados. O Dicionário Houaiss regista três: «que ou quem leva uma vida hedonista, alegre e livre»; «que ou quem leva uma vida erradia e incerta, fora de padrões»; «que ou quem leva vida desregrada, dissipada». «Boémio», porém, transmite sempre (ou transmite-me) um sentido mais positivo. Digamos que boémio é o estroina fino. Também sentem o mesmo? Noceur é mais o estroina, o pândego.
[Texto 296]
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Sobre «olheiro»

Para mais clareza

      «O nome da praia dos Olhos d’Água, contam os populares, deve-se ao facto de rebentarem na areia e no mar mais de centena e meia de olheiros de água-doce. O mais famoso, conta Jorge Baptista, proprietário do restaurante O Caixote, chama-se olheiro da cabra» («Olhos d’Água perdeu o ícone da praia com a queda do penedo Gago Coutinho», Idálio Revez, Público, 13.07.2011, p. 24).
      «Água-doce»! Deve ser confusão com «agro-doce», se não for com «arroz-doce». Ora, se os olheiros ou olhos-d’água também rebentam no mar, isso quer dizer que os dicionaristas têm de corrigir os verbetes nos dicionários. Em rigor, a definição «sítio onde brota água do solo» não o exclui, mas, por clareza, devia contemplar estes casos.
[Texto 295]
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«Stricto sensu/statu quo»

Não liguem

      Acabo de ler aqui numa revisão, e mais de uma vez, strictu sensu e status quo. É demasiado latim derrancado para ficarmos calados ou quietos. Do último já tinha tratado, tendo então escrito que devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o «estado em que as coisas estavam antes da guerra». Quanto ao primeiro, é stricto sensu que devemos escrever, também no caso ablativo. É o inglês a ensinar-nos a escrever latim... (Numa reunião em que estive recentemente, com economistas e engenheiros, nem sequer um dizia outra coisa que não fosse «aitem»...) Leio, com estupefacção, na página 182 da 2.ª do Livro de Estilo do Público, que é strictu sensu que se deve escrever. Na versão em linha, ainda não foi — nem nunca será, decerto — corrigido o erro, que, ironicamente, se encontra na secção «Erros e vícios de linguagem mais frequentes». Aí está uma boa ilustração.
[Texto 294]
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«Desde Madrid/de Madrid»

Que desgosto

      Ora leiam com atenção: «Para aquele perito, que testemunhou desde Madrid por videoconferência, a morte do jovem foi causada por um golpe de calor» («Óbito de escuteiro está em tribunal: morte súbita ou golpe de calor?», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Não escreva assim, ¡caray!, caro Licínio Lima. Então não sente que isso não é português? O uso da preposição «desde» em vez da preposição «de» nesta construção é tipicamente castelhano. Eu já tinha falado neste erro, mas os jornalistas ainda eram novos.

[Texto 293]
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Léxico: «parasailing»

É isso mesmo

      «Mãe e filha decidiram fazer um passeio de parasailing [modalidade em que um pára-quedas preso a uma embarcação sobrevoa o mar], mas, no momento em que se encontravam a cerca de 500 metros da praia, o cabo que as prendia à lancha ter-se-á soltado devido a uma rajada de vento inesperada e o pára-quedas voou sem controlo até à primeira linha de praia, acabando por embater numa palmeira» («Morreu turista que sofreu acidente com pára-quedas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Esta é a boa prática jornalística: sempre que se usa um estrangeirismo ou termo mais invulgar, técnico ou não, explica-se o significado.
[Texto 292]
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«A» protético

Já me alembro: assoprem na arrã

      Ontem tive de ir a uma repartição de Finanças (não vem daqui, garanto, o meu optimismo). Num dos ecrãs em que podemos ver o número de senha que está a ser atendido, de repente apareceu também uma emissão do programa Bom Português. A frase era qualquer coisa como isto: «É nesta cadeira que me acento.» Depois de terem explicado o significado de «acento», a frase reapareceu assim: «É nesta cadeira que me acento.» Finalmente, surgiu a frase recomendada: «É nesta cadeira que me assento.» Se tiver de voltar a uma repartição de Finanças, já estou mentalmente preparado para os ver recomendarem as formas «alembrar», «amandar», «amostrar», «arrã», «arrebentar», «arrecuar», etc. Depois de nos limparem o dinheiro, sujam-nos a língua.
[Texto 291]

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Sobre «optimismo»

Deixem-nos trabalhar

      Numa introspecção breve, vejo, com algum alarme, que uma mudança fundamental se operou em mim nos últimos tempos. Operou, digo bem. Antes era pessimista e, para disfarçar, porque talvez me desagradasse, negava e dizia que era realista; agora, sou um optimista despreocupado. O que ouvi hoje no programa Pessoal... e Transmissível, na TSF, descansou-me. Carlos Vaz Marques entrevistou o psiquiatra e escritor argentino Jorge Bucay, que se afirmou um optimista incurável e lembrou que o vocábulo «optimismo» está ligado ao termo latino opus, «obra», «trabalho». De facto, provém da raiz latina op, a mesma de opus, que é partilhada por palavras como «opulento», «opíparo», «óptimo» e «optimismo». Moral da história: é preciso é trabalhar.
[Texto 290]
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«Acampada»

«Acampada», arruada...

      «“Este é um encontro de pessoas que estão mais indignadas do que nunca”, disse Paulo Cardoso, do Inter-nacional, um dos grupos nascidos na “acampada” do Rossio e que agora lançou o convite a outros colectivos para um debate além-fronteiras, inédito em Portugal e que ontem foi transmitido para várias praças europeias através da Internet» («‘Indignação’ europeia esteve sediada em Lisboa», Ana Fonseca Pereira, Público, 11.07.2011, p. 16).
      Nos jornais ainda temos o asseio das aspas (embora, no caso particular do Público, o mau uso e a banalização deste sinal gráfico tenha levado ao esvaziamento do seu significado), mas na rádio nem isso temos. Nas últimas semanas, tem sido raro o dia em que não ouço nos noticiários da Antena 1 alguém usar a palavra. Mais um castelhanismo: «acción y efecto de acampar».
[Texto 289]
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Como se escreve nos jornais

Só dois

      Na edição de ontem do Público, Nuno Pacheco lembrou a morte de um fotojornalista, Joaquim Lobo, e de um jornalista, António Jorge Branco. Em relação a este, escreve: «E lá trocávamos ideias, impressões, histórias maiores e menores (odiava as gralhas dos jornais, assim como o mau uso do português, de que era um dedicado conhecedor)» («O adeus a um mestre», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 11.07.2011, p. 3).
Devia então odiar o Público actual. (E outros jornais, claro, mas com o mal dos outros, etc.) Respigo só dois erros — erros, não gralhas — da edição de ontem, e da mesma notícia.
      «“Não basta um copo para se ficar doente”, alerta [Helena Rebelo, coordenadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge], notando ainda que os organismos não reagem da mesma forma e que crianças ou pessoas com doenças pré-existentes e com o sistema imunitário mais vulnerável podem estar propensas a complicações. A “contaminação microbiológica de origem fecal”, que foi encontrada em 87,8 por cento das análises afectadas [sic], incluindo a presença da agora famosa bactéria Escherichia coli, tem como complicação mais comum a gastreenterite, com sintomas como febre, diarreia e vómitos» («“Maioria dos fontanários do país não possui água própria para consumo”, diz estudo», Catarina Gomes, Público, 11.07.2011, p. 6).
      Preexistente. Já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir. Não vale a pena inventar. «Gastreenterite» é confusão que advém de o termo ter duas variantes: gastrenterite e gastroenterite.
[Texto 288]
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Léxico: «arraiar»

Nada de emitir raios de luz

      Fala Francisco Araújo, o antigo mecânico do ciclista Joaquim Agostinho: «Agora os mecânicos quase não têm de fazer nada na bicicleta, o material já vem todo preparado. Nós é que tínhamos de montar as bicicletas, de arraiar as rodas, fazer o conserto de quadros» («O passado e o presente, segundo o mecânico de Agostinho», Ana Marques Gonçalves, Público, 11.07.2011, p. 26).
      Os dicionários que consultei remetem todos para «raiar», e neste verbete não registam a acepção empregada no excerto citado.
[Texto 287]
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Léxico: «pipolização»

Ah...

      Quase todos os dias sou surpreendido por neologismos — alguns, concluo depois, já com alguns anos de curso... Não se riam. Já conhecem o vocábulo «pipolização», por exemplo? Cá está. Há leitores, bem sei, que não conhecem nem querem conhecer, mas nós é que não podemos ter essa atitude assim tão descomprometida e alheada. É mera cópia, parece, do neologismo francês pipolization — que é a idolatria de celebridades ligadas à televisão, à música, ao futebol e mesmo à política, termo forjado a partir do nome da revista People.
[Texto 286]
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Inglês



Vejam melhor

      A propósito do erro na grafia de «maldisposto», comentava aqui Montexto: «Mas veja lá se os apanha com facilidade em falta na grafia das inúmeras palavras e expressões inglesas com que julgam enfeitar a sua prosa a propósito de tudo e de nada. Veja lá.» Bem, descortino, pelo menos, duas razões para isso não acontecer: eles escrevem, apesar de tudo, menos em inglês do que em português, e eu percebo menos de inglês do que de português. Ainda assim, alguns erros se vão vendo. Por exemplo, acabo agora mesmo de ler aqui num texto, do qual não posso identificar o autor, *Finantial Times, erro muito frequente.

[Texto 285]
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Tradução

Um achado, acho

      Encontrar a correspondência adequada de frases feitas, provérbios e idiomatismos entre duas línguas nem sempre é fácil ou possível. Acabo agora de ler esta frase numa obra em inglês: «They’ll put two and two together and get five.» O tradutor, que ainda não sei quem é, e logo que saiba prestar-lhe-ei aqui a devida homenagem, verteu assim: «São capazes de dizer que Deus não é Deus...»
[Texto 284]
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Ortografia: «maldisposto»

Nem a copiar, caramba

      «O dicionário de Inglês-Português reza assim: “Taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal-disposto, sorumbático.” Enfim, mal-humorado. Diz também que é um adjectivo. A expressão inglesa “to be moody” vem descodificada como “ter caprichos de comportamento. Por exemplo, apetecer a alguém atirar com tudo para o lixo. Se falarmos no nome próprio Moody’s (bastante adequado ao desempenho), percebe-se imediatamente a má disposição generalizada dos portugueses por estes dias. Alguns até padeceram de problema de estômago. Para “mal-humorado”, o dicionário de Português-Português regista as seguintes explicações: “Que tem humores mórbidos”, “agressivo”, “intratável”. Os “mal-dispostos” de que aqui se fala já em Abril tinham atirado para o “lixo” (grau de investimento equivalente a junk bonds) a Parpública, a Refer, a RTP e a CP» («Palavras. Moody», Rita Pimenta, Pública, 10.07.2011, p. 11).
      Que bons dicionários que a jornalista anda a consultar e que bem que ela conhece a ortografia da língua portuguesa.
      A propósito de maldispor e de dislates. Ainda na sexta-feira passada li uma convocatória redigida por uma professora de Português e um derivado de «pôr» tinha o infinitivo com acento circunflexo. Uma professora de Português! Quando é que aprendem de uma vez por todas, professores, jornalistas, tradutores, revisores, toda a agente, que, no infinitivo, o verbo pôr é acentuado, porque se convencionou distingui-lo da preposição por, mas os derivados de pôr já não são marcados com acento? Antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, maldispor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.
[Texto 283]
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Sobre «verve»

Não brinque

      Foi na obra de Eça que aprendi, tenho a certeza, a palavra «verve». O vocábulo, que também veio de paquete do Havre, é polissémico: verve é entusiasmo e inspiração na criação artística; verve é a graça e a vivacidade características de uma pessoa; verve é sentimento de vida. Tudo isso é verve. O próprio Eça, o escritor, era animado de verve. Qual o meu espanto ao ler no Público, a propósito de Fernando Nobre, isto: «Lembram-se dos discursos cheios de verve contra os partidos, da apologia dos valores e do apelo à participação dos cidadãos na vida democrática?» Tirando aqueles deputados, muitíssimos, que chegam ao Parlamento guindados pelo caciquismo, tão vivaz agora como no século XIX, nulidades a quem, graças a Deus, jamais ouvimos uma frase, nunca mas nunca apareceu na vida política portuguesa alguém tão pouco fadado para falar em público como Fernando Nobre. Não vejo que qualquer das acepções do vocábulo tenha sido empregada com propriedade pelo autor do texto — mas disso já o ex-deputado médico não tem a culpa, antes o jornalista, que usa mal as palavras, que não lhes toma o peso.
[Texto 282]
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Sobre «tambor»

Curioso

      «She was a Doane, and Grandfather Doane had been a drummer boy in the Mexican War and had a Congressional Medal of Honor from the Civil War» (Appointment in Samarra, John O’Hara. Londres: Vintage Books, 2008, p. 5). Não é curioso que ao indivíduo que toca determinado instrumento se dê o nome do instrumento? Em português também: «Foi tambor no exército do general Hoche, durante a campanha do Palatinado» (Razões de Coração, Álvaro Guerra. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p. 18). Haverá outros casos assim?
[Texto 281]
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«(In)legitimidade»?

Outra querela — se quiserem

      Na secção «Cartas à Directora» do Público, José Mário Costa responde hoje ao jornalista Luís Miguel Queirós. Logo no início, escreve: «Não me insurgia aí [na carta «Sobre o “presidento” e a “presidenta”»], obviamente, contra a sua opinião pessoal sobre a (in)legitimidade do uso da palavra “presidenta”, mas contra a forma como, nesse primeiro texto, enquanto jornalista, lhe cabia tratar, de forma distanciada, uma questão linguística que divide especialistas, em Portugal como no Brasil.» Desde quando é que, para indicar o antónimo de «legitimidade», se pode escrever o prefixo in-, que nem sequer fez parte, na língua portuguesa, da formação do vocábulo, que recebemos já do latim? Que grande equívoco.
[Texto 280]
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Sobre o Indostão

Que algum repúblico

      «Os irmãos paquistaneses Achiq (o cabecilha do grupo), Kashif e Atif são acusados de recrutar portuguesas para casar com homens indostânicos (paquistaneses e indianos)» («Juiz adia decisão», C. N., Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 23).
      É impressão minha ou a definição de Indostão (ou Hindustão) anda por aí mal redigida? Quase a propósito: como se grafa o nome da república de Coimbra: Prà-Ki-stão, Prakistão, Pra-ki-estão, Pra-ki-stão?... Que algum repúblico (Quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista a acepção?!) me esclareça.
[Texto 279]
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«Presidenta», de novo

Já se esperava

      José Mário Costa, na edição de ontem do Público, quis rebater o texto do jornalista Luís Miguel Queirós que aqui transcrevemos: «Ao contrário do que escreveu Luís Miguel Queirós na edição do passado dia 24/06 (“Assunção Esteves é presidente ou presidenta?”), “presidenta” é um registo abonado no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Tal como, de resto, nos demais dicionários e vocabulários, portugueses como brasileiros, de referência. No primeiro caso, desde os mais antigos, como o dicionário de Moraes (“mulher que preside”, “mulher de presidente”) até aos mais recentes, como o Houaiss (“mulher que se elege para a presidência de um país”), o Aurélio (“mulher que preside”,”mulher de um presidente”) ou o da Porto Editora (“mulher que preside” e, na linguagem popular, “mulher de presidente”). No segundo caso, o registo vai dos mais recentes – como o vocabulário oficializado entre nós, o disponível no Portal da Língua Portuguesa, assim como o da Academia Brasileira de Letras – até aos mais antigos também, como o ainda reputadíssimo Vocabulário de Rebelo Gonçalves. Ou ainda na incontornável Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (pág. 195, 1.ª edição).
      Uma generalizada atestação, pois, que confere à variante feminina de “presidente” legitimidade ao seu uso. Pode não ser o recomendado ainda pela norma culta. Ou ser de “curso restrito no idioma”, como referem Celso Cunha e Lindley Cintra, que ilustram outros femininos com similar formação, como “governanta”, “infanta” ou “parenta”. Bem diferente, e inaceitável, é a vituperação de “presidenta” não ser português.
      Pior, bem pior, são os “solarengos”, em vez de “soalheiros”, os “é suposto” e “os abusados” ou os sistemáticos “um dos que faz…”, tão repetidamente escritos e ditos nos media portugueses, a começar no PÚBLICO.

P. S. – Se Luís Miguel Queirós não tivesse preferido a “opinionite” pura e dogmática, teria prestado uma melhor informação aos leitores. Bastar-lhe-ia colher os inúmeros esclarecimentos que se encontram disponíveis, por exemplo, no Ciberdúvidas. Ou respigar o que, no próprio meio linguístico do Brasil, se escreveu, muito e com sustentação séria e diversificada, depois da eleição de Dilma Rousseff, que faz questão de ser tratada por “presidenta”. Se o tivesse feito, com a ponderação devida, não escreveria que, “em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como ‘presidenta’ é exactamente tão arbitrário como chamar ‘presidento’ a Cavaco Silva”. Por uma simples razão: em português, a formação dos femininos faz-se a partir do masculino, e nunca o inverso.» («Sobre o “presidento” e a “presidenta”», José Mário Costa, Público, 30.06.2011, p. 38).

      O jornalista respondeu: «Consultei o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, vulgo Dicionário da Academia, e, inexplicavelmente, não vi o registo “presidenta”, que efectivamente está lá (como, de resto, seria de esperar). Diz o referido dicionário que “presidenta” se usa depreciativamente na acepção de esposa do presidente, significando ainda, no uso familiar ou popular, mulher que desempenha as funções de presidente. Agradeço, pois, esta correcção ao leitor José Mário Costa, e peço desculpa aos restantes leitores e aos autores do dicionário em causa.
      Já não estou de acordo com nenhuma das outras objecções de José Mário Costa ao texto que assinei, mas não me seria possível rebatê-las (com argumentos) no exíguo espaço de que aqui disponho.»

[Texto 239]
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