Citem-na, pois

O que vale a Wikipédia

      «Para encontrar dados que antes requeriam horas, hoje está-se à distância de um clique e da Wikipédia. Tempos novos, que precisam de novas cautelas, mas de saberes globais e levezinhos. Ontem, o Times prestou com ironia uma homenagem a essa sabedoria instantânea. Em editorial, o diário londrino escreveu sobre o casamento de Jimmy Wales, o fundador da Wikipédia. O casamento foi ontem, com uma antiga colaboradora de Tony Blair, Kate Garvey. Eles conheceram-se em Davos e Wales terá pedido a um subordinado: “Arranja-me o telefone dela, e não vás à Wikipédia, tem de ser um dado exacto.” Noutra página, o Times volta ao casamento. Entre os 23 milhões de artigos da enciclopédia livre na Net (publicados em 285 línguas), o jornal desencantou o texto dedicado ao próprio Jimmy Wales. Na edição inglesa, o patrão da Wikipédia é dado como indo casar-se “no próximo verão.” Casou-se ontem, em pleno outono. E com outro clique eu fui à edição portuguesa e li que “Wales vive em Sampetersburgo (Florida) com sua esposa Christine e sua filha, Kira”... O Times diz que nas suas memórias o antigo primeiro-ministro Blair elogia muito a noiva de ontem. Quando da zanga pública entre Blair e Gordon Brown, Kate Garvey deu-lhe o melhor dos conselhos: que frente aos jornalistas ele comprasse dois sorvetes e oferecesse um a Gordon. Com um só casamento, ontem o Times expôs-nos o enxoval de meias mentiras com que somos diariamente servidos» («Saberes globais e levezinhos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 48).
[Texto 2177]

Voz da coruja

Mais específico

      O autor pôs uma coruja a cantarolar. E até podia tê-la posto a trautear o hino, mas a voz da coruja é outra: a coruja chirria.
[Texto 2176]

Léxico: «cagarrão»

Nunca a viram

      «De ladrão não passas para toda a gente... e qualguer [sic] coisa que haja por aqui, já sabes: metem-te no cagarrão» (A Barca dos Sete Lemes, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986, p. 250).
      Se apenas consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não ficaremos a saber que cagarrão significa prisão.
[Texto 2175]

Cuidados editoriais

Ligatura

      É raríssimo ver semelhante cuidado: nas provas, logo no primeiro título corrente, uma indicação para o paginador: «Ligatura. MUDAR TODOS.» Sim, o traço, na escrita, que une uma letra a outra, em certos caracteres. No caso, entre o f e o i. Fim.
[Texto 2174]

Léxico: «acolar e encolar»

Pobres dicionários

      «Acolar. — Usa-se nas Beiras, com o mesmo sentido de encolar. Acolar uma criança é pegar nela ao colo, ou trazê-la ao colo. Alguns dicionários, justamente considerados modernos e copiosos, não trazem a forma acolar» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Lingua Portuguesa e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, [1938], 2.ª ed., p. 32). É o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que só regista «encolar» nesta acepção. E na versão digital nem sequer têm a desculpa da falta de espaço.
[Texto 2173]

Sinónimos, essa riqueza

É usá-los

      Podemos escrever solho, ou soalho, ou assoalho. São os três sinónimos. Podemos escrever cuspe ou cuspo. Como podemos escrever vergasta ou verdasca. Gole ou golo. São milhares. A grande riqueza de sinónimos é um tesouro da nossa língua que não podemos desperdiçar.
[Texto 2172]

«Sentido Algarve-Lisboa»

Nada de barras

      «Dois passageiros seguiam viagem nos bancos da frente e os colegas no banco traseiro, quando ao quilómetro 626 – um quilómetro após a Mimosa, no sentido Algarve/Lisboa – a viatura entrou no fatal despiste, por causas desconhecidas, que vão agora ser alvo de investigação pela GNR» («400 quilos de bobinas matam quatro funcionários da EDP», Roberto Dores, Diário de Notícias, 4.10.2012, p. 20).
      A indicar sentido, os topónimos são ligados por hífen, como já se têm lembrado de fazer: «Nos carris onde circulam os comboios no sentido Sintra-Lisboa (onde se deu o acidente) várias manchas de sangue, uma sola de sapato aparentemente feminino e umas luvas de enfermagem relatam o triste fim de Nádia, filha de Pedro Mário da Silva, ex-comandante dos Bombeiros de Agualva-Cacém e recém-empossado vice-presidente da Associação Humanitária da corporação» («Conversa ao telemóvel causa atropelamento», Isaltina Padrão, Diário de Notícias, 12.1.2008, p. 38).
[Texto 2171]

Ortografia: «febre-amarela»

Estão doentes

      «Maria João Alves, responsável do Centro de Estudos de Doenças Infecciosas do INSA, admitiu ao DN que o risco do [sic] vírus chegar a Portugal continental é real e reforçou a “importância da rede de vigilância”. A responsável sublinhou que há duas espécies de mosquitos com os quais estão “muito preocupados: o Aedes aegypti e um concorrente que é o Aedes albopictus, que também pode transmitir dengue e febre amarela. Este já existe em Espanha, onde foram registados dois casos autóctones. Em Portugal ainda não foi encontrado”, referiu» («Dengue da Madeira pode chegar ao Continente», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 4.10.2012, p. 15).
      É febre-amarela que se escreve, com hífen, como Lília Bernardes devia saber. Até parece que a austeridade lhes levou também os dicionários.
[Texto 2170]

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