Léxico: «estrafega»

«Acto de estrafegar»...

      «“Acho que há muito tempo que não me enervava tanto”, diz ao PÚBLICO o Nuno Markl, que conseguiu bilhetes para dois dias do espectáculo: o primeiro e o último. “Às tantas éramos três pessoas em três computadores, em três sítios diferentes, todos na mesma demanda: o Bruno Nogueira, o Rui Lourenço (responsável pela gestão das redes sociais da Rádio Comercial) e eu, numa estrafega a ver quem conseguia primeiro”, continua o humorista, que vê nos britânicos uma grande influência, ou como diz: “São parte do cocktail que me fez amar a comédia para a vida”. “Nunca fui tão fã de ninguém como deles. Devo-lhes a devoção de os ir ver, nem que viessem os cinco acamados ou com próteses nas ancas”» («E em 43,5 segundos esgotaram-se os bilhetes para os Monty Python», Cláudia Carvalho, Público, 26.11.2013, p. 36).
      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira é muito mais claro: «luta, braço a braço».
[Texto 3590]

Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]

«Checks and balances»

Era escusado

      «E não existe uma forma de o parar na sua desfilada. O sistema incipiente de checks and balances [sic] que temos em Portugal não funciona. O Governo ignora oposição, parceiros sociais, manifestações, tribunais e a academia e o PR assobia para o lado. O cocktail é explosivo e, como diz Soares, a violência está à porta. E a violência é uma arma política legítima quando não existe outra arma possível» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      Se até nas faculdades de Direito e em obras jurídicas se usa, quando seria de esperar o contrário, a expressão equivalente em português — freios e contrapesos —, não vejo a necessidade de se usar na imprensa a expressão inglesa.
[Texto 3588]

«Quando mais não seja»

Já disse: Torga sabia

      «Não tenho a mínima dúvida de que Soares receia uma explosão de violência — quanto mais não seja porque, uma vez iniciada, ninguém pode prever a sua evolução. E não tenho notícia de que o PS, ou mesmo os “radicais” do BE ou do PCP, se preparem para enquadrar, controlar e liderar essa explosão de violência de forma que sirva os seus objectivos políticos» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      «Enfim, eu estou e estarei sempre com eles, quando mais não seja porque tenho de estar com os meus. Mas já ouço sem convicção o “venha com Deus” habitual. Há também nestas humanidades uma faca debaixo de cada sorriso, e a bênção de amor com que o mundo precisa de ser regado necessita de alargar os braços e chegar até aqui» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 244).
[Texto 3587]

Léxico: «engraçadismo»

É mais uma

      «Só que, diante disto, confesso que os meus sentimentos se misturam. Por um lado, acho comovente que o Pacheco Pereira que leio há mais de 20 anos, o homem cerebral, racional, antidemagógico, opositor do engraçadismo, combatente de todas as simplificações, se transforme subitamente num vulcão de emoções, de indignação e de acusações simplistas. Por outro, faz-me confusão a falta de critério desta sua análise e a forma como ela legitima o silêncio sobre a mais urgente pergunta dos nossos dias: o que fazer a seguir?» («Carta a Pacheco Pereira ­– parte I», João Miguel Tavares, Público, 26.11.2013, p. 56).
      Não sabia que esta palavra — e «engraçadista», que li numa crónica de Ferreira Fernandes — circulava por aí.
[Texto 3586]

Tulipeiro-da-virgínia, etc.

Comecemos por algo mais simples

      «Já uma vez disse que sou péssima com nomes de árvores. Gostava de olhar para elas e saber identificá-las num instante. Não pelos seus nomes científicos e quase sempre impronunciáveis, mas pelos nomes comuns, doces e que se enrolam na língua: liquidâmbares, tília-de-folhas-pequenas, cedro-do-Atlas-de-folhas-azuis, castanheiro-da-Índia, tulipeiro-da-Virgínia» («Todas as cores do Outono», Patrícia Carvalho, «2»/Público, 24.11.2013, p. 42).
      É uma ambição como outra qualquer, mas Patrícia Carvalho fica a saber que pode começar por melhorar a ortografia. Em nomes compostos, os topónimos perdem a maiúscula: cedro-do-atlas-de-folhas-azuis, castanheiro-da-índia, tulipeiro-da-virgínia... Ora, não tem de quê.
[Texto 3585]

Léxico: «calulu»

Em Angola ou em São Tomé?

      «O almoço estava marcado para as 13h, mas uma hora antes o aroma intenso do calulu de peixe, prato tradicional de São Tomé e Príncipe, já se fazia sentir por toda a casa. Anilta, que sonha abrir um restaurante seu para ver as pessoas comerem “satisfeitas” aquilo que cozinha, passou as últimas horas à volta dos tachos, a preparar um almoço atípico de domingo: ao seu lado vai sentar-se um casal de origem ucraniana e nacionalidade portuguesa, com o qual a são-tomense de 39 anos nunca trocou uma palavra que fosse» («São-tomenses e portugueses nascidos na Ucrânia juntos à volta de um calulu», Inês Boaventura, Público, 25.11.2013, p. 14).
      Também o podemos encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, no entanto, regista que em São Tomé e Príncipe se diz cálu, ao passo que calulu é o termo usado em Angola. Entre os leitores do Linguagista de certeza que há quem saiba.
[Texto 3584]

Agora em russo

No alfabeto cirílico, портя́нки

      «Desde o século XVII que os soldados do exército russo utilizam simples panos a envolver os pés, em vez das meias comuns. Durante a Guerra dos Sete Anos, as Invasões Napoleónicas e ainda nas duas guerras mundiais, eram os portyanki que acomodavam os pés dos homens que combateram pela Mãe Rússia, fosse em nome do czar ou do proletariado. Mas a sua existência tem os dias contados. Até ao final do ano, os portyanki vão ser postos de lado, por ordem expressa do ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e isto pode ter uma importância crucial para o futuro do xadrez geopolítico mundial» («Soldados russos marcham em direcção ao século XXI», João Ruela Ribeiro, Público, 25.11.2013, p. 21).

[Texto 3583]

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