«Esta prova é um erro CrXto»!

Será mesmo um erro?

      «A ideia surgiu», respondeu o professor Arlindo Ferreira, «um pouco por brincadeira, nos comentários do blogue. Uma leitora sugeriu fazer T-shirts para os protestos [que se realizam hoje em várias cidades] e até sugeriu algumas frases. Acabou por ficar “Esta prova é um erro CrXto”. Depois juntou-se outro colega que tinha capacidade para tratar da impressão e entrega das T-shirts. E foi assim que surgiu a campanha» («“Será difícil convencer 500 professores a corrigir a prova”», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 48).
      Hã?! Primeiro, vem-nos à mente o acrónimo ΙΧΘΥΣ. A frase que se lê em todo o lado é «Esta prova é um erro Crato»; na T-shirt, em cima do que pode ser um a, surge o sinal de errado. Como diriam os da glote, a frase permite várias leituras. Quem escreveu a frase (um aluno?) enganou-se e em vez de «crasso» saiu «crato» (como está tudo grafado em maiúsculas, o nome do ministro é apenas sugerido). Por isso, algum professor — competentíssimo, que certamente não precisa de se submeter à prova de avaliação — apôs o sinal de errado sobre o a. Ou — inclino-me mais para esta — o que se pretendia escrever era uma apóstrofe ao ministro da Educação, mas, como até revisores (!) e professores de Português (!!) fazem, sem a vírgula antes do vocativo: «Esta prova é um erro, Crato.» São Marcos lhes valha.
[Texto 3527]

É latim!

Também isto merecia um estudo

      Acabei de ouvir no programa de José Candeias, na Antena 1, uma entrevista telefónica a uma estudante de doutoramento, Carolina Doran, que está a desenvolver o projecto, sobre tomada de decisão colectiva, na Universidade de Bristol. Apesar de estar lá vai para dois anos, ia eu pensando, nem uma cedência ou contágio do inglês. Contudo, quando disse o nome científico (em latim, não se esqueçam) da espécie das formigas com que está a trabalhar, Temnothorax albipennis, parecia que estava a seguir, com aplicação e zelo de neófito, os exercícios do «How to Speak in a British Accent».
[Texto 3526]

Confusões de sempre: «porque/por que»

Os magos da escrita

      O artigo, «Redução da despesa com pessoal é permanente», é de ontem, no Diário de Notícias. Os jornalistas foram ouvir as «reacções» aos alertas de Christine Lagarde. João Oliveira, deputado do PCP, disse, segundo transcrição que se lê na página 5, que «FMI assume (...) que as políticas de austeridade têm de continuar seja porque período for». Magos da escrita porque transformam pérolas em calhaus.

[Texto 3525]

Bairrismo exacerbado

Bend over backwards

      «Empossado há 24 dias, o presidente da Câmara [Municipal do Porto], eleito como independente, foi “apresentar cumprimentos” ao Comandante Metropolitano da PSP [António Bagina] e “deixar uma mensagem de preocupação e solidariedade” sobre a falta de meios da polícia, que traduziu na locução “os agentes da PSP fazem das tripas coração”, uma “expressão que é tipicamente portuense”» («Há duas alternativas para substituir a 12.ª esquadra», José Miguel Gaspar, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 22).
      Já li, e mais de uma vez, que Rui Moreira é um homem culto, mas isto ultrapassa o que pudesse imaginar.
[Texto 3524]

Léxico: «telecadeira»

E faz falta, na serra

      «Nesta fase, a telecadeira, que na época passada esteve frequentemente parada por falta de manutenção, já está operacional» («Serra da Estrela quer roubar turismo que vai para Espanha», Madalena Ferreira, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 26).
      Não está em todos os dicionários, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «sistema de transporte de pessoas em locais de altitude elevada, constituído por uma série de cadeiras ou assentos que deslizam sobre um cabo aéreo».
[Texto 3523]

«Grafito» e «grafiteiro»

Ora, paciência

      «Contactaram os DEDICATED, um grupo de grafiteiros, que aceitaram a empreitada. A licença ainda não foi aprovada pela Câmara, mas há mais de duas semanas que o grafiteiro Youth trabalha na tela» («Está a nascer um grafito com 170 m2 em Gonçalo Cristóvão», Tiago Rodrigues Alves, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 23).
       Imagino que eles, os grafiteiros, não gostem mesmo nada, mas isso, naturalmente, é o que menos importa.
[Texto 3522]

«Fronteiro/fronteiriço»

Parecido, sim

      «“Parecer [sic] ser um espaço muito agradável, calmo e sossegado”, concorda Antónia Fonseca, elogiando a forma como a estrutura [Passeio dos Clérigos] foi inserida na paisagem fronteiriça da Torre dos Clérigos» («Oliveiras em jardim suspenso nos Clérigos», Hermana Cruz, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 22).
      Será mesmo «fronteiriça» — que fica na fronteira — ou «fronteira» — situada em frente? Que acha, cara Hermana Cruz?
[Texto 3521]

Um AO à medida

À catanada

      «Turistas europeus, sul-africanos e zimbabweanos estão a cancelar as suas reservas para o final do ano em estâncias turísticas de Gaza e Inhambane, no Sul de Moçambique. O facto é justificado pelos incidentes político-militares que se verificam [sic] nos últimos dias na região centro do país, caraterizados por ataques dos guerrilheiros da Renamo a civis e por confrontos com o exército governamental. Em Vilanculos, província de Inhambane — considerado um dos maiores centros de turismo do país — não foram revelados números globais, mas é certo que trinta reservas, num só estabelecimento turístico, estão comprometidas, pois um grupo de turistas do Zimbabue [sic] já disse, em definitivo, que não virá a Moçambique» («Turistas estão a cancelar viagens a Moçambique», Alexandre Chiure, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 26).
      Quanto a «zimbabweanos» e «Zimbabue», nada a comentar. Já no que respeita à aplicação do novo acordo ortográfico, vê-se que o jornalista se limita a decepar todos os cc e, presumivelmente, todos os pp, sejam mudos ou não. Mas cá também não falta quem escreva «caraterizado» e «caraterística», que, se são variantes, são muito menos usadas. A meu ver, deviam evitar omiti-las nestas palavras. «Facto» é que, graças a muita insistência, já sabem — sem compreender porquê — que não perde o c.
[Texto 3520]

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