Sobre «exergo»

Fora da obra (e dos dicionários)

      «Foram estas palavras que o poeta escolheu inicialmente para exergo desta parte da sua obra.» Diz mais ou menos isto o nosso autor. Creio que já conhecia este sentido do termo, mas esse conhecimento estava alojado num escaninho da memória. De qualquer maneira, vejo que os dicionários (consultei apenas seis, é certo) também o não registam. Tome-se a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: exergo: «espaço de uma moeda ou medalha em que se grava uma inscrição, data, etc.». Literalmente, exergo significa «fora da obra», mas este «fora» terá de se entender, no sentido do excerto em cima, como a margem do livro, ou da mancha gráfica. Assim, por metonímia, passou a dizer-se também «exergo» por «epígrafe».
[Texto 2665]

E sobre Heraclito, nada

De nada

      Montexto observou aqui que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista nenhum adjectivo relativo a (António Feliciano de) Castilho. Não é o único. Melhor, talvez não haja nenhum que o faça. Muito mais estranho é que aquele dicionário não acolha nenhum dos adjectivos relativos a Heraclito, e há vários: heraclíteo, heraclítico, heracliteu e heraclitiano. Ou será antes «heracliteano», como se lê no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora? Rebelo Gonçalves, na p. 524 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «heraclitiano».
[Texto 2664]

Léxico: «dorial»

Nunca avistada

      «Do “vício” da rua — da mágoa e do negro, do companheirismo e do crescimento dorial — fez-se poesia no livro Farrapos de Alma. Há dias, os amigos encheram o restaurante onde apresentou pela primeira vez a obra sobre os quatro anos em que viveu nas ruas do Porto e os exemplares vendidos pagam agora a primeira renda do T0 onde vai viver nos próximos meses» («Daniel Horta Nova. Do “vício” da rua fez-se poesia», Mariana Correia Pinto, Público, 11.03.2013, p. 12).
      Dorial. Esta nunca eu tinha lido nem ouvido, mas está nos dicionários, pelo menos em alguns — relativo a dor; doloroso.

[Texto 2663]

«Cognac», «stress»...

Um retrocesso

      «Chama-se conclave à reunião de cardeais que escolhem os papa porque, num passado remoto, ficavam trancados cum clave (à chave, em latim) numa sala. Ali ficavam, isolados e mal alimentados, o tempo que fosse preciso. O primeiro conclave data de 1241 e elegeu Celestino IV. O mais famoso realizou-se em Viterbo (onde o Papa da época, Clemente VI, tinha morrido). Começou em 1268, mas os cardeais estavam tão divididos que demoraram dois anos e nove meses a eleger Gregório X. Neste período foram impostas as regras da clausura e a do pão seco e água como únicos alimentos. No futuro seriam concedidas algumas comodidades aos sacerdotes em conclave. Em 1878, quando foi eleito Leão XIII, o carmelengo [sic] foi autorizado a comprar uma garrafa de cognac para aliviar o stress dos sacerdotes deprimidos pelo isolamento e parca dieta, apesar de o pão já não ser seco. Se algum quisesse uma garrafa só para si só [sic] com prescrição médica» («A importância do cognac na escolha do papa», Público, 10.03.2013, p. 30).
      O texto veio da Reuters, e por isso cognac ficou... cognac. Mas esta é a grafia francesa, porque aportuguesado é, e há muito tempo, conhaque. E é claro que stress podia traduzir-se por «tensão».

[Texto 2662]

«Exibir um moquenco»?

Vá-se lá saber

      «E o sr. Gaspar começa a exibir um moquenco de penitente que lhe vai muito bem. Mas, no meio disto, ainda ninguém respondeu à pergunta óbvia: onde está o dinheiro para o país continuar com o mínimo de decência e alguma dignidade» («Uma visita da autoridade», Vasco Pulido Valente, Público, 10.03.2013, p. 56).
      Não os do costume, mas todos os dicionários registam que moquenco é aquele que faz caretas ou momices; o que é humilde, envergonhado, indolente, preguiçoso. Em Bluteau, também é sinónimo de invencioneiro. Alguém conhece outra acepção? Não terá o cronista pretendido dizer mocanquice, isto é, trejeito, esgar?
[Texto 2661]

«Medo pânico»

Já Camões dizia

      Júlio Machado Vaz, volta não volta, diz «medo pânico», expressão que detesto. «Pânico. Escreve Roquete: “Terror pânico, sem fundamento. Usado (pânico) como substantivo é galicismo contrário ao uso da nossa língua.” Os Franceses dizem peur panique, isto é, terror pânico, sem motivo, ou sòmente une panique. Em português pânico é adjectivo, como aliás em grego o era. Em Nascentes, acerca de pânico, lemos: “grego panikos scilicet deuma, terror de Pã”. Camões em III, 67, redigiu: “Dum pânico terror todo assombrado,...” Epifânio comenta: “Pânico é adjectivo grego derivado do nome do Deus Pã...” (Cf. a sua edição de Os Lusíadas, pág. 167, I vol.). Por isto se vê que frases como a seguinte, vulgares em jornais, devem proscrever-se: “A população caiu em pânico.” Pânico terror estaria correcto. Camilo no Perfil do Marquês de Pombal, pág. 204: “o pânico terror que o conde exercia sobre os fidalgos”. Cp. Adjectivos (sua omissão).|| Cp. Ridículos. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, pp. 608-9).
[Texto 2660]

«Pancadaria de molho»

Finalmente

      Ouvi toda a vida, e agora chega a explicação: «Pancadaria de molho. Ao tratar de etimologias populares e dos seus efeitos na alteração das palavras, Ribeiro de Vasconcelos refere: “a frase popular pancadaria de molho (ou de moio noutras partes) não é mais do que uma corrupção de pancadaria de moiro”. Cf. Gramática Histórica, 100. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, p. 608).
[Texto 2659]

Para substituir «passagem»

Alternativas não faltam

      «Passagem. Não é vernáculo o emprego desta palavra na acepção de — passo (de texto), trecho, excerto, relanço (usado por Camilo em O Bem e o Mal), lugar (proposto por Francisco José Freire); episódio; texto. Verificámos que nas Lendas e Narrativas o seu autor, à pág. 131, II volume, redigiu: “um tracto daquelas grandes histórias de Frei Bernardo de Brito”. Mas na pág. 204 do mesmo volume emprega passagem, o que não é para imitar. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, Vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, p. 622).
[Texto 2658]

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