«Os Censos»

Alguém normal

      «No ano 2050, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. A projeção é retirada dos Censos 2011, que revela que o País pode estar a caminhar para o envelhecimento generalizado da sua população. Atualmente, por cada cem jovens Portugal tem 129 idosos, uma tendência que se pode agravar com a atual crise económica» («Portugal já tem cem jovens para 129 idosos», André Rito, Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 14).
      Ainda ontem ouvi na Antena 1, e ouço e leio com alguma frequência, «o Censos». Também já tínhamos visto esta falta de concordância no Assim Mesmo.
[Texto 2406]

Ortografia: «sub-bacia»

Segundo o desacordo

      «As três novas espécies, a lampreia da costa de Prata (Lampreta alvariensis), a lampreia do Nabão (Lampreta auremensis) e a lampreia do Sado (Lampreta lusitanica) foram batizadas segundo o local de origem. Assim, a primeira é endémica das bacias hidrográficas do Esmoriz (Ovar) e do Vouga; a segunda só existe na subbacia afluente do Nabão, na margem direita do Tejo, e a do Sado não tem nada que enganar» («Três novas espécies de lampreia», Diário de Notícias, 5.12.2012, p. 30).
      O jornalista julga que, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, é assim que se escreve, com dois bb juntos. Não é assim segundo nenhum acordo.
      E o nome científico da lampreia não é Lampreta nem Lã Branca, é Lampetra. Para que conste.

[Texto 2403]

«Litigação/litigância»

Quem diria

      É inacreditável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «litigância», que é sinónimo, e porventura mais usado, de «litigação». Rebelo Gonçalves, valha a verdade, também não o regista.
[Texto 2399]

«Zona do euro»

Já é tradição...

      Já muitas vezes tinha pensado que a expressão «Zona Euro» é pouco portuguesa. Hoje, voltei a pensar no assunto, agora a propósito da menos (ao que me parece) usada «área euro». Já aqui há matéria de reflexão: se a primeira é a maioria das vezes grafada com maiúsculas iniciais, a segunda é sempre grafada com minúsculas. Porquê a diferença de tratamento? O guia de estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors recomenda que se use a expressão «área do euro» para designar o conjunto de países que têm a moeda única. O Código Interinstitucional, a propósito de «área do euro», nota: «De observar, porém, que a expressão mais comummente usada em Portugal é “zona euro” ou “zona do euro”.»

[Texto 2398]

Léxico: «escudete»

Malandrim setecentista

      O antiquário garantiu-me que a cómoda-toucador com tampo de rebater era seguramente do século XVIII e que a madeira era vinhático. «Já reparou nos belíssimos escudetos e nos puxadores de pau-santo?» Século XVIII... Malandrim. E também não se diz escudeto, mas escudete. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «peça exterior, de metal ou de madeira, que ornamenta a fechadura de um móvel; espelho».
[Texto 2397]

«Babygro», de novo

Na pronúncia, sim, /ˈbeɪbɪgrəʊ/

      «Cristina Lima e Filipa Pinto, ambas designers, deixaram os seus empregos para criar uma marca de roupa para bebés, onde há babygrows com padrão de pele de vaca e vestidos amarelo fluorescente [sic]» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      Ora, já vimos aqui que os dicionários registam «babygro». A explicação para o erro pode estar na etimologia e na própria pronúncia do vocábulo.
[Texto 2396]

Como se escreve nos jornais

De alpercata

      «Os dedos de Guida Fonseca deslizam sobre o fio de alparca, os pés dançam levemente sobre os pedais. Uma pequena multidão junta-se em volta da roda de fiar. “Parece fácil, não é? Mas não é. Querem experimentar?” Ninguém se atreve» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      A jornalista, porém, atreveu-se a escrever sem consultar um dicionário. Mesmo que possa jurar ter ouvido «alparca», tinha obrigação de confirmar. Alparca é o calçado que se prende ao pé com tiras de couro. Devia ter escrito alpaca: neste caso, seria a lã do animal ruminante da família dos Camelídeos, da América do Sul.
[Texto 2395]

Sobre «formato»

Quem sabe

      «Entre os formatos que deverão prosseguir e os novos conteúdos para a RTP2 a partir de janeiro, os vínculos ainda não terão sido celebrados» («Contratos parados à espera de modelo», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 51).
      O verbete do vocábulo «formato» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cinco acepções, mas não esta, que vem, ora pois claro, do inglês: «general plan of organization, arrangement, or choice of material (as for a television show)» (in Merriam Webster). Deve ou não estar nos dicionários? No Houaiss está: «género, característica, organização (p. ex., para um programa de TV)».

[Texto 2394]

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