«Canábis/cannabis»

Ao sabor dos humores e saberes

      «O ministro da Educação francês, Vincent Peillon, gerou controvérsia ao defender um debate sobre a despenalização do consumo de canábis. Segundo a AFP, o ministro socialista disse, no domingo, durante o programa Tous Politique [sic], que a despenalização do consumo de canábis poderia ser uma forma de lutar contra o tráfico de drogas» («Polémica sobre canábis em França», Diário de Notícias, 16.10.2012, p. 27).
      Muito bem. Canábis e não, como habitualmente escrevem, cannabis. O problema é que hoje escrevem assim e amanhã, para nossa desilusão e desespero, já escreverão cannabis. Não têm ninguém que uniformize e tente estabelecer critérios.
[Texto 2209]

Léxico: «concertino»

Desafinado

      «Primeiro, enquanto judeu polaco, [Michel Schwalbé (1919–2012)] foi inevitavelmente afetado pela II Guerra Mundial. Por “sorte”, este aluno de Enescu (ganhou o Prémio Sarasate de 1938) estava em Paris em 1940 (na Polónia natal, suas mãe e irmã acabariam em Treblinka...). Foge para Lyon, onde é nomeado concertino da Orq. Sinf. de França» («De fugido do nazismo a concertino da era-Karajan», B. M., Diário de Notícias, 15.10.2012, p. 43).
      Concertino: «chefe de naipe dos primeiros violinos de uma orquestra». Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque na definição do Houaiss é, «hierarquicamente, o segundo de cada naipe de cordas numa orquestra». Quanto ao resto... «suas mãe e irmã»? «Era-Karajan»?

[Texto 2208]

Sobre «avocar»

Nunca vira

     «Sidónia Silva, 18 anos, estudante de Fenais da Luz que votou ontem pela primeira vez, diz ter “esperança que isto vire”. E se a maioria do PS se concretizar, não tem dúvida de que é por causa do que o governo central fez (como aliás o próprio primeiro-ministro acaba de reconhecer, avocando a si a responsabilidade da derrota antes da declaração de Berta, que só falará às 21 horas), mas tudo “porque quem nos meteu nisto foi o Sócrates – que é do PS, não é?”» («A maioria absoluta para o PS veio do Continente», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 15.10.2012, p. 8).
     Avocar é chamar a si — responsabilidades, por exemplo, sim —, mas nunca antes li o verbo empregado neste sentido. É muito usado em Direito: chamar a um tribunal uma causa ou processo que corria por outro.
[Texto 2207]

«Madrugueiro»?

Do galego

      «Dawn ships clouted aground». «Madrugueiros barcos retidos em terra». Nunca tinha lido ou ouvido o vocábulo. «Queria dizer: margueiro, madruguei, madrigueira, madrugueis?», pergunta, de novo solícito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha. O dicionário da Real Academia Galega não o regista, mas é termo galego. Sol madrugueiro, non dura o día enteiro.
[Texto 2206]

Léxico: «reptilíneo»

Não cabe nos dicionários?

      «A seu ver, não estaria ainda terminada a hominização do homem. Os três estádios da sua evolução — reptilíneo, mamífero e humano — coexistiriam nas várias partes do cérebro» (As Grades e o Rio, Urbano Tavares Rodrigues. Porto: Editorial Inova, 1974, p. 123).
      «Queria dizer: rectilíneo?», pergunta, solícito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha.

[Texto 2205]

Sobre «pub»

Pâbes ou tascas finas

      «Quando se fala de universitários e pubs, a primeira imagem que vem à cabeça não é a de grupos de estudantes a fazerem um inventário de todas as típicas public houses (casas públicas) de Londres para apresentar a sua candidatura a Património da Humanidade. Mas é isso que está a acontecer na Universidade de Kingston. Os alunos de Arquitetura uniram-se para mostrar à UNESCO as razões para a preservação destes pontos de encontro da sociedade britânica» («‘Pubs’ de Londres querem ser património da UNESCO», Susana Salvador, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 47).
      Prossegue a bom ritmo o objectivo de tornar os portugueses fluentes na língua inglesa. Casas públicas... A definição de pub mais curiosa é a do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Estabelecimento onde se servem bebidas alcoolizadas, especialmente na Grã-Bretanha, e que entretanto começou a vulgarizar-se em Portugal.» A única indefinição é sobre este «entretanto».

[Texto 2204]

Léxico: «estufeiro»

Não só nem principalmente

      «“Há uma nova geração que surge com esta coisa maravilhosa que foi a democracia em Portugal. Que saíram para estudar e voltaram.” Aos 46 anos, José Carlos Frias parece falar como se tivesse muito mais – mas porque, apenas, viu mudar radicalmente a sua terra. Filho de um estufeiro sindicalista da Fajã de Baixo, São Miguel (a terra de Natália Correia) – “Era uma profissão muito nobre aqui nos Açores, a de quem cuida da produção do ananás desde o cultivo da planta até o ver crescer”» («Bom tempo no canal», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 14.10.2012, p. 27).
      Quase todos os dicionários afiançam que estufeiro é o que faz estufas. O que me parece, e as palavras de José Carlos Frias comprovam, é que nem todos os estufeiros fazem estufas: alguns, talvez a maioria, trabalham nas estufas. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, também é aquele que faz estufas. Contudo, no Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora, o termo inglês correspondente a «estufeiro» é greenhouse keeper — que não é quem faz estufas. Mais perto da verdade anda o Dicionário Houaiss, que define como estufeiro o indivíduo que se ocupa de estufas. Semear, plantar, mondar, sachar, regar, colher... Também comprovei que todos os dicionários ignoram os leiveiros...
[Texto 2203]

Léxico: «Mindanaus»

Deixou de se ver

      De dicionário para dicionário, já o comprovámos mais de uma vez, consoante nos aproximamos da actualidade, inúmeros verbetes deixam de ser registados. Mindanaus, por exemplo, gentílico que se lê na obra do P. António Vieira e na Peregrinação de Mendes Pinto, deixou de estar nos dicionários. O Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo (Lisboa: Livraria Bertrand, 1945, 10.ª ed.) ainda o regista. «Mindanaus, m. pl. Habitantes de Mindanau.»
[Texto 2202]

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