Ortografia: «Cuíto/Kuíto»

Quase sempre mal

      Na maioria das vezes que o leio, está escrito, incorrectamente, sem acento agudo. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que o vi escrito com c. Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, apenas o regista (na página 305), como seria de esperar, com c.
[Texto 2037]

«Flores bravas»

Qual Alcipe

      «A mistura de aromas no ar, a hortelã e a flores bravas, é uma surpresa, quando se entra no recinto da ETAR, em Alcântara. Ainda não há muitos anos, quem passasse na Av. de Ceuta, ou mais em cima, no viaduto Duarte Pacheco, sobretudo em dias quentes de Verão, era assaltado por cheiros bem diferentes» («Cheira a hortelã no telhado vivo que cobre a ETAR de Alcântara», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.08.2012, p. 26).
      Ainda não se habituaram à nova grafia, e volta não volta lá escorregam. No caso, escorregou o dedo para a tecla das maiúsculas. Sim, as flores bravas é coisa raríssima de ver, mas está certo. Até faz lembrar a nossa Alcipe: «As urzes, e mil outras flores bravas/Perfumam o ar, e alimentando a caça,/Tentando o paladar cruento, excitam/Estragos que a paixão mal justifica.»
[Texto 2003]

Como se escreve nos jornais

Nem quero imaginar

      «“Qualquer dia mato-me!” – disse várias vezes Luciana Garcia, de 40 anos, a amigas, tendo dado a entender, já num quadro de depressão que sofria, a existência de problemas extraconjugais com o marido, apesar de a família transmitir uma imagem de união» («Dentista suicida teria problemas extraconjugais», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 25.08.2012, p. 19).
[Texto 1999]

E temos «cabecilha»

Por uma vez

      «Dois deles tinham a alcunha de “Conguito” e de “Foguinho”. Eram os dois supostos cabecilhas do grupo que chegou a autodenominar-se pela sigla V. I. E. P. (Very Important Enxerim People), numa brincadeira com a palavra VIP e que demonstra bem que gostavam de ter atenção e não escondiam que atuavam em grupo para se destacar» («Não trabalhavam e estariam ligados ao crime», Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 25.08.2012, p. 17).
      Por uma feliz vez, esqueceram-se — e nós agradecemos — da palavra «líder», omnipresente nos nossos dias.
[Texto 1998]

«Sustento/sustentabilidade»

É triste, mas é assim

      Repórter Cristiana Freitas, no Jornal da Tarde de ontem: «Os morangos não estão na terra: alimentam-se de um substrato nutritivo. É uma folha de coco que lhes dá a sustentabilidade.» Cristiana Freitas, veja bem: sustentabilidade é a característica ou qualidade do que é sustentável. É claro que não era isto que queria dizer. Sustento é o conjunto de condições materiais que permitem a subsistência; o que serve de alimentação, alimento.
      É como diz repetidamente, em forma de sentença, Montexto: «Tudo o que for aproximado será confundido.»
[Texto 1997]

«Na senda de»

E insiste

      O autor escreveu: «Portugal emocionou-se e dividiu-se na senda de Maddie.» Todos sabemos (ou entreadivinhamos?), julgo, o que significa — mas será isso sinónimo de que está correcta, de que é uma frase modelar?
[Texto 1996]

«Sofás creme»

Está nas gramáticas

      «O mobiliário que decorava o átrio era Luís XV, ou imitava bem, com sofás cremes e cadeiras forradas a couro branco» (O Codex 632, José Rodrigues dos Santos. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 115).
      A maioria dos nomes das cores são, como se sabe, adjectivos, que, é óbvio, se flexionam normalmente e concordam com os nomes que qualificam. Alguns, porém, são substantivos, e nesse caso não se flexionam. Logo, sofás [de cor] creme.
[Texto 1995]

Ortografia: «pôntico»

Está nos dicionários

      «Duas hipóteses principais têm competido entre si para explicar a origem das línguas indo-europeias. Uma delas coloca esse início há 6000 anos, nas estepes ponticas, junto ao Mar Negro, onde a Europa, a Anatólia e o Cáucaso convergem. A outra prefere o coração da Anatólia e faz remontar esse princípio há mais de 8000 mil anos. Os resultados do estudo realizado pela equipa de Remco Bouckaert, que são publicados hoje na revista Science, apoiam esta segunda hipótese» («A origem da(s) língua(s)», Filomena Naves, Diário de Notícias, 24.08.2012, p. 27).
      É pôntico que se escreve, relativo ao Ponto Euxino, que é o nome antigo do mar Negro.

[Texto 1994]

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