«Ready to rock»

Mais uma lição de amaricano

      «“Vamos falar nos balneários”, adiantou Lochte após a prova. A sua sétima medalha olímpica – quarta de ouro, uma de prata e duas de bronze – foi a recompensa por “quatro anos de trabalho árduo” e, agora, diz-se pronto para arrasar – ready to rock, foi a expressão que utilizou – em Londres 2012» («Phelps sem pilhas para ‘rock’ de Lochte», Pedro Sequeira, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 27).
      Arrasar — ou algo próximo. To rock é, em sentido figurado, abalar, agitar, fazer tremer. «I’m ready to rock this thing», disse ele. «Go big or go home.»
[Texto 1885]

Sobre «fileira»

Vai sendo usado

      «Seja qual for o modelo que o Executivo de Passos Coelho venha a escolher para regular o jogo online, de entre os três apontados pelo relatório da Comissão Interministerial a que o DN teve acesso, uma coisa é certa: a legislação de apostas mútuas hípicas existente é para mudar, passando também a incluir a possibilidade de apostar via Internet e em corridas de cavalos realizadas no estrangeiro. Uma situação que responde a antigas aspirações de todos os parceiros da fileira do cavalo. Tutela da Santa Casa é o único ponto dissonante» («Apostas hípicas são mesmo para avançar sob tutela da Santa Casa», Marina Marques, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 7).
      Os dicionários continuam a ignorar esta acepção do vocábulo «fileira», de que falei no Assim Mesmo há seis anos. Fazem bem ou fazem mal?
[Texto 1884]

Plural de «puro-sangue»

A doutrina divide-se

      «Atenta a esta questão, a comissão defende que, numa primeira fase, “a restruturação desta atividade tem de ser suportada financeiramente pelas receitas provenientes das apostas online nas corridas de cavalos, de molde a permitir desenvolver, nomeadamente, a criação de cavalos puro-sangue, a construção de hipódromos e a formação de jóqueis”» («Apostas hípicas são mesmo para avançar sob tutela da Santa Casa», Marina Marques, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 7).
      O Dicionário Houaiss regista, tanto para o adjectivo como para o substantivo, o plural «puros-sangues», e o mesmo faz o Vocabulário Ortográfico Português. Ou, porque se trata de um adjectivo composto por justaposição e o último elemento é um nome, na pluralização permanecem ambos invariáveis? A doutrina, como se costuma dizer em Direito, divide-se, mas já o dissemos muitas vezes: a língua portuguesa tende para a concordância.
[Texto 1883]

É fazer a conta

Ai querem ser minuciosos?

      «Mas Lupe Ontiveros não correspondia ao estereótipo: era bacharel em Psicologia, pela Universidade do Texas, e chegou a trabalhar como assistente social antes de enveredar pela representação» («A atriz que foi a eterna criada latina mas que era muito mais», Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 43).
      Então se vamos descer a esses pormenores, está bem: era bacharel em Psicologia, mas não pela Universidade do Texas. Há muitas universidades no Texas. A actriz Lupe Ontiveros estudou na Texas Woman’s University, em Denton. E, por outro lado, tendo a actriz trabalhado quinze anos como assistente social, eu não teria escrito que «chegou a trabalhar como assistente social». Quinze anos equivale a um terço do tempo que a maioria das pessoas dedica à profissão.
[Texto 1882]

Léxico: «estado-novista»

A todos os interessados

      Ia jurar que já uma vez tinha lido num dicionário «guterrismo», mas consultei agora vários, e dos mais atreitos a tais proezas, e não o encontrei. Como também não encontrei «cavaquismo», valha a verdade. Só encontrei «gonçalvismo» (e o homem merece?). Tudo isto a propósito de um adjectivo que acabei de encontrar: «estado-novista». Também deste não há rasto. Há dois anos, uma assistente editorial perguntou ao Ciberdúvidas como era correcto, se com hífen ou sem hífen. (Pergunta infeliz, mas que querem?) A consultora começou por responder: «Não encontrámos registo, nos dicionários que consultámos, de nenhum adjectivo formado a partir de Estado Novo.» Ora que grande novidade. E depois: «De qualquer modo, na medida em que o sistema morfológico português permite formas (que nem sempre os falantes aceitam, e vice-versa), o adjectivo estado-novista poderá ser encarado como um neologismo, razão pela qual é aconselhável que essa particularidade seja referida, sempre que a consulente o utilizar, uma vez que não está atestado pelos dicionários nem pelos vocabulários ortográficos de língua portuguesa (por exemplo, os realizados a partir dos acordos de 1945 e o de 1990.» Estão a ver: usa-se e, antes ou depois: atenção, esta palavra não está registada em nenhum dicionário. Depois não digam que não avisei. Ridículo.
[Texto 1861]

Quantos continentes

Sabe-se lá

      Ontem, às 14h30, um Boeing 777 da Emirates aterrou em Portugal, «com direito a baptismo de voo», ouvi no Telejornal. Tiago Simões, antigo piloto da TAP e agora naquela companhia aérea, declarou à chegada (no português possível, digamos): «É um desafio bastante grande e bastante interessante de poder voar para seis continentes e para uma quantidade de destinos e com uma diversidade de nacionalidades no cockpit e na cabine.»
      Não sei se foi a minha professora da escola primária que nos poupou a esta controvérsia frustrante sobre o número de continentes ou se, como é mais provável, ela a desconhecia. É impressionante como até sobre esta questão há opiniões desencontradas. São cinco, propugnam uns; são seis, afirmam outros; nada disso, são sete, defendem outros. Da mesma forma, temos de estar atentos à despromoção de planetas.
      E quanto ao «baptismo de voo», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece o que seja. Regista, isso sim, «baptismo do ar»: primeira viagem aérea de uma pessoa. De uma pessoa, não do próprio avião.
[Texto 1799]

«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]

«Victrola/vitrola»

É preciso distinguir

      Traduzir «Victrola» por «vitrola» pode não ser a melhor solução. Alguns dicionários da língua portuguesa registam o substantivo «vitrola», mas acrescentam que é brasileirismo. Conhecemos muitos outros casos em que um nome comercial é apropriado como nome comum. Neste caso específico, isso não se passou assim em Portugal. Pela proximidade geográfica do Brasil, terá chegado lá em quantidades que justificam e explicam a derivação. Em alguns casos, «Victrola» pode referir-se precisamente a um gira-discos daquela marca, produto da norte-americana Victor Talking Machine Company.

[Texto 1797]

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