«Desfolhar um livro»

Alto lá!

       «Desfolhar» em vez de «folhear» uma revista, um livro é, como já aqui o dissemos mais de uma vez, um erro, mas não, Santo Deus!, um erro científico, como ontem uma professora de Português afirmou categoricamente. Mesmo que venha num manual daquela disciplina.
[Texto 1586]

«No Redondo»

Sempre a cortar

      «Alentejano nascido no Redondo, a 5 de maio de 1908, Fernando Batalha fez o curso de Arquitetura da Escola de Belas-Artes de Lisboa, atual Faculdade de Arquitetura, especializando-se em Urbanismo, em Paris» («O arquiteto que tinha Angola no coração», Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 43).
      Isso também eu afirmei, certa vez, no Assim Mesmo. Mais tarde, um leitor, redondeiro ao que parecia, replicou que não, que lá se diz «em Redondo». Há-de ser a tal tendência literária e oficial de que falava Leite de Vasconcelos.
      Agora uma questão um pouco mais miudinha: aquela vírgula antes do complemento circunstancial de lugar (modificador do grupo verbal, na nova terminologia) não está lá a fazer nada. Apenas seria necessária se o complemento surgisse em posição invertida ou anteposta na frase. Ainda me lembro de o revisor antibrasileiro — que revia como Miguel Torga escrevia: com tesoura — aspar vírgulas às dezenas só nestes casos.
[Texto 1585]

«Tomar parte em»

Cultura universal

      «E apesar do [sic] arguido ter sempre negado ter estado em Cacia, um antigo colega disse à PJ que ambos tomaram parte em trabalhos durante a construção do centro de saúde de Ílhavo (1996 e 1997)» («‘Estripador’ recusou fazer exame de ADN», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 18).
      Parece português, dizem que é castelhano, mas veio do francês: prendre part à.
[Texto 1584]

Maiusculação dos pontos cardeais

Depois digam qualquer coisa

      «Na década de 1980, as larvas desta borboleta alimentavam-se no Sul de Inglaterra quase exclusivamente de uma planta silvestre, a Helianthemum nummularium, de nome comum Cisto» («Borboleta em declínio ganhou terreno com alterações climáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 41).
      Como já vimos, a doutrina interna do jornal diverge: uma parte dos jornalistas grafa com minúscula os pontos cardeais quando estão junto de topónimos, outra parte grafa-os com maiúscula. Experimentem, é o meu fraternal conselho, ler o texto do acordo.
      O nome comum do Helianthemum nummularium só pode ser cisto. Se é comum...
[Texto 1583]

«Desprezível/desprezável»

Que se pode desprezar

      «Vestígios à parte, a investigação considera “desprezível”, por ser “muito baixa”, a probabilidade estatística de um indivíduo acertar aleatoriamente o local do homicídio da jovem prostituta Filipa Ferreira (Cacia, Aveiro), não dando crédito à tese assumida por José Guedes após a detenção de ter ficcionado a confissão dos crimes» («‘Estripador’ recusou fazer exame de ADN», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 18).
      Foi um polícia que falou assim? Então está tudo dito — ou quase. Desprezível usa-se, por exemplo, em relação a uma pessoa ou atitude dignas de desprezo, que merecem desprezo. Desprezável deve usar-se em relação a tudo aquilo que se pode desprezar, que não merece a nossa atenção. Assim, a probabilidade seja do que for só pode ser desprezável.
[Texto 1582]

Como falam os nossos políticos

Calma, calma

      Fala o Sr. Deputado Adolfo Mesquita Nunes: «Foi referido nesta reunião de que Portugal estaria a ultrapassar neste momento a fase pior, já estava a encontrar no caminho para sair do ponto mais baixo da recessão.»
[Texto 1581]

Porquê «açoriano»

Está explicado

      É relativamente comum encontrar o erro «açoreano» em vez de «açoriano», como a actual ortografia nos manda escrever. Vejam, porém, donde vem o erro: o falante pensa sempre na palavra de que deriva, um plural, que tem e e não i: Açores. «Ora, em açoriano, este i, espetado pelos filólogos, não pertence ao tema. Entre a derivação de Horatius – horatianus e Açores – açoriano só há uma analogia: a de um ovo com um espeto» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 109). «Como filólogo, só lamento que não seja o Vocabulário de Viana a base da nossa escrita. Lá estava já: – açoreano, torreano» (idem, ibidem, p. 110).
[Texto 1580]

Léxico: «cranioencefálico»

É claro que não

      «Uma menina de três anos sofreu um traumatismo crânio-encefálico depois de o carro em que se encontrava ter deslizado pela rampa de acesso da sua casa no Torrão, Marco de Canavezes [sic]» («Menina de três anos ferida após destravar automóvel», Mónica Ferreira, Diário de Notícias, 24.05.2012, p. 21).
      Nada disso, cara Mónica Ferreira: com o elemento de composição crani(o)- nunca usamos hífen. Logo, cranioencefálico. Pergunto a mim próprio se não estar registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribuirá para estes erros. Já fiz a sugestão ao Departamento de Dicionários.
[Texto 1579]

Arquivo do blogue