Léxico contrastivo: «pardal»

Pardais ou abutres?

      «Amparada na multiplicação de pardais e da área em que atua a Guarda Municipal, a prefeitura aposta pesado na arrecadação de multas para equilibrar suas contas no ano que vem. Quase metade do orçamento da Secretaria de Transportes vem de infrações que devem ser aplicadas aos motoristas cariocas em 2008» «O milagre da multiplicação de pardais nas ruas do Rio», Renato Grandelle, Jornal do Brasil/Cidade, 14.11.2007, p. A8). Na linguagem popular, que chegou aos jornais e neles se instalou, é o equipamento — radares electrónicos — instalado nas vias públicas para fotografar infracções de trânsito.

O ou a diabetes?

O… a… hum… diabetes

      «Entre as principais complicações ocasionadas pelo diabetes, cita Inês, estão problemas renais, neuropatia diabética (alteração da sensibilidade), retinopatia diabética (alteração da retina que pode levar a cegueira). A principal dica da médica para evitar diabetes é manter o “peso adequado”. “O foco está na mudança de estilo de vida para prevenção, não só do diabetes, como de outras doenças. A principal dica é manter o peso adequado. As pessoas gordas têm maior tendência a desenvolver a doença”, ressalta Inês» («Prevenindo o diabetes», O Povo, 11.11.2007, p. 9). Pode haver razões ponderosas para a considerarmos do género feminino, e em especial o facto de nos ter vindo do francês, língua em que também é deste género, mas não podemos ser fundamentalistas: alguns dicionários registam ambos os géneros, e temos de admiti-lo quando a vemos escrita, como neste artigo do jornal brasileiro O Povo, como sendo do género masculino.
      Mais uma citação, desta vez do respeitável Jornal do Brasil, não vão os meus leitores pensar que escolhi mal o jornal. «O que era uma doença simples de tratar passou a ser comum e hoje é uma pandemia. O diabetes atinge 10 milhões de brasileiros e 246 milhões de pessoas no mundo. Estima-se que até 2025, 15 milhões tenham a doença aqui. No exterior, o número ultrapassará 330 milhões. Hoje, no Dia Mundial do Diabetes, especialistas ressaltam os números alarmantes e afirmam que a conscientização para a mudança de hábito é a maior arma para a redução das estatísticas» («Diabetes atinge 10 milhões de brasileiros», Marsílea Gombata, Jornal do Brasil/Vida, 14.11.2007, A24).
      Maria Filomena Mónica, na obra Bilhete de Identidade, escreve: «Sentia agora o peso da idade. Os diabetes tinham-se agravado. Ouvia cada vez pior.» Como cito a 4.ª edição (mas será reimpressão, como sabemos), é de supor que não seja lapso.

Léxico contrastivo: «muda»

De mudança

      «Governantes presentes, incluindo o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, plantaram ontem árvores nativas de cada país em Santiago. Lula colocou uma muda de pau-brasil. Os exemplares encontram-se no novo parque Ibero-Americano, inaugurado na colina de San Cristóbal, de onde se pode ver toda a cidade» («Previdência é tema de Cúpula no Chile», O Povo, 10.11.2007, p. 34). Uma muda é uma planta tirada do viveiro para plantação definitiva. Embora não se trate, em rigor, de um brasileirismo, o seu uso está difundido no Brasil, ao passo que em Portugal o vocábulo é usado, e pouco, noutras acepções. Entre nós, fala-se em muda de roupa, em muda de pêlo (ou penas, ou pele, ou cornos) nos animais. Antigamente, também se falava em muda de animais: o lugar (estação de muda) onde descansavam os animais que haviam de substituir outros que chegavam cansados de qualquer jornada. Essa substituição em si também era chamada muda.
      Esperemos que agora, no Parque Ibero-Americano, usem um cabanil.

Léxico contrastivo: «prisão domiciliar»

Tudo em casa

      «Em menos de quatro dias, autoridades paquistanesas deram a segunda ordem de prisão domiciliar à ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, numa tentativa de prevenir maiores manifestações de opositores contra o estado de emergência, que vigora no Paquistão há 10 dias. A ordem de detenção de sete dias foi decretada pelo governo da província de Punjab, onde Benazir está. A ex-premier está proibida de sair da casa de Aftab Cheema, legislador de seu Partido Popular do Paquistão (PPP), em Lahore» («Governo volta a colocar Benazir em prisão domiciliar», Jornal do Brasil, 13.11.2007, p. A22). 
      Entre nós, nos meios de comunicação social, é a chamada «prisão domiciliária», mas, em rigor, trata-se da «obrigação de permanência na habitação». Os jornalistas, que gostam muito de usar termos técnico-jurídicos, e em especial o vocábulo «arguido», aqui deixaram-se ultrapassar pelas alterações legislativas. Mas está bem: percebe-se.

Acordo Ortográfico

É agora?

      Segundo a agência Lusa, num texto cheio de gralhas e erros, Portugal anunciou que ratificará até ao final do ano um protocolo que abre caminho à aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Ainda segundo a Lusa, «pela aplicação das novas normas ortográficas, 1,6 por cento do vocabulário usado em Portugal (e nos países que seguem a norma portuguesa) deverá sofrer alterações. No Brasil, onde essas mudanças abrangem apenas 0,45 %, o Governo não tem poupado esforços na defesa da aplicação do acordo».

Francisco Rebelo Gonçalves

E o Vocabulário?

      No centenário do filólogo e lexicólogo Francisco Rebelo Gonçalves, vale a pena ouvir a emissão em pós-difusão do programa Páginas de Português do passado domingo, dia 11.

Léxico contrastivo: «esquete»

Cenas

      «Nossa idéia inicial era escolher nossas melhores esquetes e textos e, a partir daí, convidar atores que a gente gosta para interpretar estes personagens. Assim, acreditávamos não haver erro —­ conta o diretor Leandro Goulart» («Humor, crítica e sarcasmo: os ingredientes de ‘Pout-PourRir’», Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil/Barra, 2.11.2007, p. 4). Irreconhecível, mas sim: o sketch inglês: encenação curta de peça teatral, de programa de rádio ou de televisão, geralmente de carácter cómico.
      Quando chegaremos a esta simplicidade no aportuguesamento de palavras estrangeiras? Ainda ontem tive de rever um texto em que aparecia a seguinte frase: «É também comum ouvirem-se músicas e canções de Natal por todos os lados, com a ajuda dos rádios e karaoques.» O autor não teve coragem de ir mais além: expungir os dois kk (capas ou cás)* — uma letra que, estupidamente, se proscreveu, pela reforma ortográfica de Gonçalves Viana, do nosso abecedário, continuando, contudo e contraditoriamente, a usar-se, que remédio, nos vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros, em símbolos e em unidades de medida — afigurou-se-lhe demasiado arrojado, um desafio aos deuses. Como revisor, impunha-se intervir no sentido de uniformizar, e fi-lo puxando para o português a palavra, emendando para «caraoque». De resto, registado pelo Dicionário Houaiss e usado (no Brasil escreve-se «caraoquê»).

* Cás, sim, senhores. Claro que o Word, esta inteligência artificial primária, acha que me enganei, alterando para «cãs». A propósito de outra letra proscrita, o w, escreveu Vasco Botelho de Amaral na obra Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português: «W. Poderia apostar em como 90 % dos Portugueses não sabem que o nome “português” da letra w é… éu. (Cf. Viana, Ortografia Nacional, 28,197).
Embora seja esta a forma “portuguesa”, não hesito em pô-la de parte, pois… não pega. Sou contrário à filologia que não tem em conta as realidades da repulsão colectiva.
Mas, se éu nos faz talvez sorrir, o dâbliu e o “double” VÊ não menos se tornam provocadores de sorriso» (p. 578).

Léxico contrastivo: «carro-forte»

Imagem: http://www.portalaftermarket.com.br/
Casa, cofre e carro-forte

      «Uma mulher foi atropelada ontem pela manhã, por volta das 11h45min, no Centro de Fortaleza, por um carro-forte da empresa de segurança Corpvs» («Carro-forte sobe em calçada e mata mulher», O Povo, 7.11.2007, p. 7). Nós só temos «casas-fortes» e «cofres-fortes». Para nós, é uma carrinha blindada.

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