Uma palavra por dia: «borrador»

Esborratadelas

      «Los implicados (asociaciones empresariales y gestoras de derechos) ya han recibido el borrador de la norma, aunque sin las cifras definitivas» («El canon digital ya se cobrará en las tiendas esta Navidad», Ana Tudela, Público, 17.10.2007, p. 34). É um rascunho, um borrão — um projecto. «Escrito provisional en que pueden hacerse modificaciones.» O nosso «borrão» tem o mesmo étimo latino: burra. Aliás, até temos em português o vocábulo «borrador» com o mesmo significado: «Caderno ou papel em que se faz rascunho, para depois passar a limpo» (in Aulete Digital).

Léxico contrastivo: «oficina»

Artes e ofícios

      «Com o tema “Caju: novos rumos, desafios e oportunidades”, começa amanhã a 4.ª edição do Caju Nordeste, no município de Aracati, a 159 quilômetros de Fortaleza. O evento se estende até o próximo sábado, 27, e é aberto ao público. Além de palestras e seminários, realizados nos auditórios dos Colégios Marista e Salesianas, haverá, na praça da Comunicação, oficinas sobre como aproveitar o caju em receitas de hambúrguer, sopa, pudim e arroz, entre outros. […] «De acordo com Araripe [Francisco Araripe Costa, coordenador-geral do Caju Nordeste 2007] cerca de 85% dos pedúnculos de caju (a parte da polpa) são desperdiçados» («Caju Nordeste 2007 começa amanhã na cidade de Aracati», O Povo, 24.10.2007, p. 10). Neste contexto, um jornalista português não hesitaria: só com um workshop é que o leitor vai perceber isto.

Léxico contrastivo: «carroçável»

Carroças do século XXI

      «Genilson de Sena Monteiro, 10, acorda por volta das 5 horas da manhã e às 6 horas já está na estrada com o irmão Gerson, 14, esperando o transporte escolar que vai levá-los à Escola Municipal Raul Barbosa, no distrito de Itapeim, em Beberibe. A escola fica a cerca de 20 quilômetros de distância da localidade onde os meninos moram, Lagoa Achada, e o percurso é feito em carro que tem tração porque a estrada é carroçável» («Professores sem instrumentos pedagógicos nas salas de aula», Fátima Guimarães, O Povo, 24.10.2007, p. 10). 
      Não estou a imaginar um jornalista português usar tal termo. No entanto, «carroçável» — «próprio para o tráfego de carros, carroças e outros veículos (estrada carroçável)», na definição do Aulete Digital — é um vocábulo de fácil compreensão. E, trate-se de uma charrete ou de um BMW X5 Security, tem rodas e anda nas estradas. Sim, claro, a jornalista também podia ter usado os vocábulos «praticável», «transitável» ou «viável». E até, se quisesse aborrecer a maioria dos leitores, «pérvio». O Brasil é o último reduto do bom léxico português.

Uma palavra por dia: «soslayar»

Eludir

      «Los socialistas no quieren abrir flancos conflictivos con compromisos cuya rentabilidad electoral es, cuando menos, dudosa y sostienen que la despenalización de la eutanasia “no es una demanda mayoritaria de la sociedad”» («El PSOE soslayará en su programa la eutanasia», G. López Alba, Público, 16.10.2007, p. 25). Soslayar: «Pasar por alto o de largo, dejando de lado alguna dificultad.» Traduzir-se-á, então, por «eludir», «contornar», «evitar».

Léxico contrastivo: «premier»

Primus inter pares

      Decerto devido ao facto de o Brasil ter um regime presidencialista, não se vê sempre, referido a outros países, o vocábulo «primeiro-ministro». Não raro, é premier, vocábulo francês, que é usado. Por vezes, mascarado: «premiê».
      «Os poloneses puseram fim aos dois anos de governo dos gêmeos conservadores Kaczynsky, o presidente Lech e o premier Jaroslaw, período marcado por divisões internas e desacordos com a União Européia, ao votarem massivamente domingo na oposição liberal. Com a apuração de 90,8% dos votos, o partido liberal Plataforma Cívica (PO) obtinha 41,64% das preferências, conforme a comissão eleitoral» («Polônia muda», O Povo, 23.10.2007, p. 27). Se em Portugal se dissesse o mesmo, o nosso interlocutor perguntaria: «Está a desconversar? Eu estou a falar de José Sócrates e você fala-me de palmiers?»

Uma palavra por dia: «restar»

O resto não presta

      «El líder del PP resta importancia al cambio climático mientras el rey recuerda que es uno de los “grandes desafíos”» («Rajoy cree a su primo y no a Gore», M. J. Güemes, Público, 23.10.2007, p. 2). Restar: do latim restāre, significa, no contexto, «diminuir, rebaixar, cercear».

Apostila ao Ciberdúvidas: «relojão»

Relojão, relojão, relojão…

      Londrina, no Norte do Paraná, a terceira maior cidade do Sul do Brasil, tem no topo de um edifício, o Edifício América, um relógio grande, muito grande — tão grande que é chamado o Relojão. O consultor A. Tavares Louro, do Ciberdúvidas, acha que o aumentativo de «relógio» «não tem uso porque não há relógios mecânicos maiores do que aqueles que vemos nas catedrais», opinião que acho absurda, pois, como sabemos, a língua não apresenta esta lógica interna. Os Londrinenses não estão enganados: podem continuar a usar o termo «relojão» para um dos ex-líbris da sua cidade. Se algum dos meus leitores brasileiros conhecer Aline Silva, estudante de Natal, transmita-lhe o recado.
      Duas citações, para mostrar que o termo tem uso no Brasil: «Cheio de gás e louco para arrasar com as gatas, tropeça na malandragem: manga arregaçada em cima do blazer (ele usa, mas ele é Rei), camisa aberta no peito (pior, só se for transparente), relojão de ouro, calça balão, metal no sapato. Descontração elegante pede roupas, cores e acessórios que resultem em uma silhueta bem definida» («Calça, camisa, gravata e ambição», Lizia Bydlowski, Veja, edição n.º 1548, 27.5.1998). «Para compor o cenário da breguice típica das novelas e os núcleos de pobres e ricos, “O Proxeneta” recorre ao repertório kitsch, com destaque para a estética cafajeste: carrão vermelho conversível, cabeleira de galã, blazers, relojão e óculos escuros, cigarro apagado no copo de uísque, merchandising disfarçado em cenas, diálogos em tom teatral» («“O Proxeneta” expõe esgotamento de “Hermes & Renato”», Sérgio Ripardo, A Folha, 12.10.2006).
      O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa em linha regista «relojão». Como regista igualmente «dedão», mas não «feriadão».

Uma palavra por dia: «guinda»

Imagem: http://ginjadobidos.blogspot.com/
Toque de mestre

      «La presidenta de Madrid [Esperanza Aguirre] subió el 11 de octubre otro peldaño en la escalada verbal del PP: “Una norma impuesta por un gobierno es un síntoma de totalitarismo como no se ha visto jamás. Es intolerable”. Para Aguirre, la ley es la “guinda de la legislatura”» («“Es un síntoma de totalitarismo como nunca se ha visto”», Público, 18.10.2007, p. 2). 
      Guinda vem, provavelmente, do germânico *wīksĭna. No contexto, é termo coloquial e significa «cosa que remata o culmina algo». Poderá traduzir-se por «toque final» — o toque dado por uma cereja (na verdade, a guinda corresponde à nossa ginja, Prunus cerasus) no cimo de um bolo. O léxico português também regista o vocábulo «guinda» com o significado de «ginja», embora tenha entrado em desuso. Actualmente, as únicas guindas conhecidas são as cordas para guindar, içar, e a altura dos mastaréus, ambos termos náuticos, do alemão Winde.

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