Máquina a vapor/máquina de vapor

Agora já é tarde

A propósito de uma consulta publicada hoje no Ciberdúvidas sobre se se deve dizer «cozinhar ao vapor» ou «cozinhar a vapor», e porque o consultor acrescentou que «igualmente nas expressões “máquina a vapor”, “a vapor”, “a todo o vapor”, é a preposição simples que vem associada ao termo vapor», aproveito para transcrever o que o Prof. Vasco Botelho de Amaral escreveu sobre a mesma questão na obra Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 572-73).
«Vela. A concisão que adoptei em 1938 na 1.ª edição do Dicionário impediu, num caso ou noutro, que a minha opinião ficasse bem nítida. Por exemplo, ao tratar de expressões como — barcos à vela, máquina a vapor, etc., deixei apenas marcado que em melhor português é — barco de vela, máquina de vapor, pois os Franceses é que espalharam a construção sintáxica à vapeur, etc.
O douto crítico da Revista Filológica do Brasil Conde de Pinheiro Domingues citou-me autores portugueses que usaram “barco à vela”, e com isso não me trouxe novidade nenhuma, pois eu mesmo, num livro de 1939 (os Estudos Vernáculos), mencionei “máquina a vapor” em Camilo, e, em outra obra (no A Bem da Língua Portuguesa), ajuntei:
“Mais português: navio de vapor. No entanto, o galicismo já vem de longe e talvez já não saia. Camilo usou barco a vapor (No Bom Jesus do Monte, 16). E do próprio Castilho, citado por A. Moreno para abonação de “navio de vapor”, conheço eu dois passos com a expressão — máquina a vapor. Vejam-se as Cartas, I, páginas 90 e 91, edição 1907.
Curioso é que todos dizemos moinho de vento, e não moinho a vento. Mas, por outro lado, há certa hesitação entre barco à vela e barco de vela.”
Já agora acrescentarei que, para a expressão “perna à vela” (que, às vezes, alterna com “perna ao léu”), encontro explicação da seguinte maneira: existe a dicção marítima “andar à vela”, isto é, desfraldar as velas, desferi-las, desencolhê-las, navegar com as velas desfraldadas. Assim vai, figuradamente, quem caminha de perna à mostra. (Também se aplica a quem anda em fralda de camisa).»

Catalão e espanhol

Pluralismo linguístico

Não deixa de ser curioso que, numa notícia sobre a Catalunha, o novíssimo diário espanhol, Público, use no próprio título uma palavra catalã, senyera, para designar a bandeira catalã. Afinal, esta não tem uma designação própria, como sucede com a Jolly Roger ou a Union Jack. «Un hombre que paseaba por una pista forestal en Girona halló el lunes un feto enterrado de unos tres o cuatro meses. Estaba metido en una caja de zapatos junto a una bandera catalana y un pato de goma. En la superfície había una cruz de cemento con una inscripción. Los Mossos d’ Esquadra están a la espera de la respuesta del juez para iniciar un investigación sobre el hallazgo» («Hallan enterrado un feto con una senyera», Público, 27.09.2007, p. 26). O catalão senyera é, por extensão de sentido, uma bandeira, mas a primeira acepção é estandarte, pendão. O «senyor de senyera» era o cavaleiro feudal que tinha o direito de usar, quando andava na hoste, um estandarte. A palavra vem de senya (e esta do latim signa, plural de signum, «sinal»). «Senya f Detall, tret, la coneixença del qual pot servir per a reconèixer un individu o un objecte. Et descriuré les seves senyes. Donar el sant i senya» (in Gran Diccionari de la llengua catalana).

Promoção da leitura

Aos bebés e aos pais

Para quê ler aos bebés? A pergunta não é minha, mas da Associação de Professores de Português e da Associação de Profissionais de Educação de Infância, parceiros de uma iniciativa, «O meu brinquedo é um livro», de promoção da leitura. Descarregue aqui o guia Para quê ler aos bebés?

Terracota estofada?

É preciso estofo

Um leitor visitou o Museu do Azulejo e, perante a indicação de que uma peça, um presépio, era de «terracota estofada», não ficou convencido e enviou uma mensagem de correio electrónico aos responsáveis do museu. A resposta dizia que «o termo “estofada” não refere qualquer técnica cerâmica, mas sim o facto de a peça evidenciar pintura a ouro e outras cores sobre os tons uniformes de base. Estofado remete, assim, para estofo». O leitor afirma ainda que só viu o termo usado em textos em espanhol. De facto, uma das acepções do verbo espanhol estofar é «pintar sobre el oro bruñido relieves al temple», o que parece coadunar-se com a descrição da técnica a que se alude na resposta do museu. (Veja-se este glossário de escultura do Museu Nacional da Colômbia.) O termo não aparece, de facto, em dicionários da língua portuguesa, embora se veja comummente em legendas de peças nos museus e em catálogos de leiloeiros. Na página de Internet do Museu Digital do Patriarcado, por exemplo, leio a seguinte descrição de uma peça: «Imagem barroca em terracota, estofada a ouro com policromia, representando Santa Cecília, a padroeira dos músicos. Peça do Séc. XVIII pertencente à Irmandade de Santa Cecília.» Contudo, é preciso ver que o nosso estofar também significa «avolumar, encher, rechear». Ora, não será isso que fazem aqueles «tons uniformes de base»?

«Ebooks» com cheiro

E o resto?

Lido hoje no Público: «Se é daquelas pessoas que não gosta de livros electrónicos porque “não cheiram a livro”, a nova proposta de um site de ebooks pode fazê-lo mudar de ideias. Para relançar as suas vendas, o vendedor de livros técnicos e académicos CaféScribe.com, noticia o Le Monde, acaba de inventar o “primeiro livro electrónico com cheiro do mundo”! Cada vez que um cliente encomendar lá um livro, receberá também “um autocolante que cheira a livro velho”. Bastará colá-lo ao computador. Sarcasmo, truque de marketing? Talvez sim, talvez não. Um potencial argumento de venda para os 43 por cento de estudantes que, segundo um inquérito da Zogby International, consideram que o cheiro de uma obra constitui uma qualidade essencial» («O cheiro a ebook», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 24.09.2007, p. 3).

O provedor e a língua

Ora leia melhor

Um leitor do Público enviou uma carta azeda ao provedor do jornal, acusando-o de parecer «uma rabugenta professora primária, apenas preocupada com erros de ortografia e problemas de concordância». «É muito pouco», afirma. Este leitor queria o provedor a imiscuir-se em questões que estão arredadas do seu estatuto. Da resposta do provedor, o jornalista Rui Araújo, destaco, com interesse para este blogue, o seguinte: «Os leitores escrevem ao provedor sobretudo por causa de “erros de ortografia e problemas de concordância”. É lícito ignorar tais preocupações? Os “erros de ortografia e os problemas de concordância” são assunto importante, porque o seu número me parece excessivo. Considero, por outro lado, que a imprensa tem uma responsabilidade acrescida na promoção do português. A TV (principal fonte de informação para muitos portugueses) abdicou da informação e da língua, ao optar pela reconhecida boçalidade que a caracteriza» («O provedor dos pormenores», 23.09.2007, p. 47).

Estonado e plangaio

Da Beira Baixa

Não é todos os dias que se lêem as palavras «estonado» e «plangaio». Pois o suplemento «Fugas» do Público de ontem publica um artigo de David Lopes Ramos em que se usam. «Outro prato emblemático da região, talvez o mais emblemático, é o cabrito estonado. Faz-se também cabrito assado no forno como noutras regiões portuguesas, mas o estonado é especial. Porquê? Porque os bichinhos, que não devem ter mais de mês e meio e ser gordos, não são esfolados. A exemplo do que se faz na Bairrada com o leitão, os pêlos dos cabritos são retirados com o auxílio de uma serapilheira ou de outro pano grosseiro, após o bicho ser escaldado em água a ferver. Depois, raspa-se bem com uma faca, mas sempre tendo o cuidado de não romper a pele. Depois de estonado, retiram-se as vísceras ao cabrito por uma pequena abertura na barriga. Reservam-se os bofes, o coração, as molejas, os rins, o fígado e lava-se bem o bichinho, que deverá ficar a escorrer de um dia para o outro em lugar fresco. […] Região de criação de gado caprino e ovino, não admira que as suas vísceras e carne entrem na confecção dos maranhos; o plangaio, sendo um enchido de porco, tem variantes: nuns casos, há arroz no recheio; noutros, massa de farinheira» («Por terras de maranhos, plangaios e cabrito estonado», p. 16). Tona (do baixo latim tunna, ae), que é termo polissémico, designa também a película que recobre alguns vegetais, em especial as cebolas e as batatas. Logo, estonar é tirar a pele. E neste caso, por extensão de sentido, chamuscar, queimar.

Jogo da malha. Xito

Do Alentejo

«Cerca de 700 praticantes da malha, um jogo popular das zonas rurais, participam hoje numa festa em Estremoz (Évora) para demonstrar que esta prática lúdica, que remonta à Grécia Antiga, continua a mexer. Embora a iniciativa apresente um carácter competitivo, o mais importante, segundo a organização, é “a participação e o convívio popular” entre os praticantes. Os jogos desenrolam-se com a repetição do arremesso da malha (chapa de ferro) para derrubar o “xito” (objecto colocado direito no chão). A iniciativa começou em 1993, em Évora» («Festa da malha reúne 700 praticantes», Público, 23.09.2007, p. 14).

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