Judaica/judia

Muito interessante, mas…

«A Zara viu-se obrigada a retirar do mercado uma mala com o desenho de uma cruz suástica depois de um cliente britânico ter reparado e devolvido o artigo. Segundo o El Mundo, esta é a segunda vez em quatro meses que a loja provoca polémica: em Maio teve de pedir desculpas à comunidade judia por misturar na mesma peça de roupa algodão e linho, o que foi considerado pelos judeus uma falta grave. Ainda assim, os responsáveis garantem que a suástica não era o desenho originalmente aprovado, mas que se trata de simbologia hindu, e que a mala foi fabricada na Índia» («Zara retira das lojas mala com suástica», Público/P2, 22.09.2007, p. 15). «Comunidade judaica», senhores, já aqui o disse várias vezes.

Léxico: evergetismo

Pão e circo

«Uma reportagem de Bernardo Ferrão, de Março, foi repetida agora por ter recebido um prémio. Trata-se dum trabalho exemplar, raro na TV, de visita às promessas da política. E as outras faces do evergetismo actual» («Os grandes querem», Eduardo Cintra Torres, Público/P2, 22.09.2007, p. 14). Não é palavra que se use todos os dias, e por isso a divulgo aqui. Trata-se de um neologismo, cunhado por André Boulanger (1923) e Henri-Irinée Marrou (1948), a partir do grego εύεργετέω (euergetein)*, uma manifestação de uma virtude ética, a beneficência. O termo ganhou, contudo, projecção com a obra Le Pain et le cirque: sociologie historique d’un pluralisme politique (Paris: Seuil, 1976), do historiador francês Paul Veyne, que a usou para designar a estratégia de controlo que eram os espectáculos na arena e a construção de edifícios a expensas de cidadãos endinheirados, por exemplo.

* Usada, por exemplo, entre outros lugares da Bíblia, no original dos Actos dos Apóstolos, 10,38: «Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. E nós somos testemunhas do que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. A Ele, que mataram, suspendendo-o de um madeiro, Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia, e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos.»

Pagode

Explique-se lá melhor

«Perto de mil monges desfilaram pela cidade de Yangon, a caminho do pagode de Shwedagon que, pela primeira vez em três dias, não tinha sido encerrado pelas autoridades» («Civis apoiam manifestações de monges birmaneses», Daniel Santos, Público, 21.09.2007, p. 19). Não foi há muito tempo que uma crítica literária, numa recensão da obra (vencedora do Prémio Aristides de Sousa Mendes) Xeque-mate a Goa, de Maria José Stocker, editada pela Temas e Debates, verberava contra o uso do termo «pagode», por exibir «a recusa católica da alteridade social e religiosa». Se virmos em qualquer dicionário, um pagode é o «templo religioso budista, geralmente com vários andares, cada um destes com seu telhado» (in Aulete Digital), cujo étimo é o sânscrito bhagavati, pelo dravídico pagôdi. A crítica de certeza que fez confusão com as outras acepções do vocábulo «pagode».

Mórmon e polígamo

Culpados!

Veio ter-me às mãos a edição do gratuito Meia Hora de ontem. Lia-se numa das páginas: «Warren Jeffs, o controverso líder da facção mormon radical e poligamista da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, olha para o seu advogado em pleno julgamento. Jeffs é acusado de vários crimes de violação, entre outros» («“Profeta” em tribunal», Meia Hora, 20.09.2007, p. 21). Porquê «mormon» em itálico? A palavra está dicionarizada como «mórmon». E porquê «poligamista»? Jeff Warren será polígamo ou defensor da poligamia — e, se for coerente, as duas coisas.

Verbo resignar

Eu é que não me resigno com o erro

«A notificação do acórdão do Supremo Tribunal Administrativo determinando a perda de mandato chegou há 15 dias, mas o vereador do PSD na Câmara de Salvaterra de Magos Carlos Marques decidiu não esperar pela sentença do tribunal e ontem mesmo resignou ao mandato» («Autarca perde mandato por não declarar rendimentos», Margarida Gomes, Público, 20.09.2007, p. 8). O verbo, na acepção em causa, é transitivo não pronominal, sem dúvida — mas não precisa de vir preposicionado. O que pode indiciar cruzamento com a forma pronominal resignar a. Correctamente seria, pois, «resignar o cargo». E, talvez até melhor, «demitir-se do cargo».
«Acórdão determinando» é sintaxe estrangeirada do gerúndio, ainda hoje aqui o escrevi.

Infinitivo flexionado

Equívocos benignos


No dia 6 de Fevereiro deste ano, publiquei aqui um texto sobre o se apassivante. Já este mês, um leitor deixou-me lá um comentário, não sobre a matéria em si, mas avisando-me, «sem referências gramaticais e com simpatia», de que uma frase minha estava incorrecta. Escrevera eu: «São poucos os estudiosos em Portugal a afirmarem que é indiferente.» Que não, admoestou o leitor. «A forma verbal deveria ser ou “afirmando” ou “a afirmar” ou “que afirmam”.» Agradeci a simpatia e supus que o negrito assinalava as preferências do leitor. Consultei a Academia Brasileira de Letras sobre a questão. A resposta, que encaminhei para o leitor e publiquei, foi a seguinte: «O emprego do infinitivo, flexionado ou não, depende da situação estilística. Havendo interesse em realçar o sujeito, flexiona-se. No caso, parece conveniente destacar o sujeito “os estudiosos”.» Aliás, eu sabia que, tirando certas particularidades do infinitivo flexionado, que julgo conhecer bem, o seu uso é, como se diz em Direito, insindicável.
Agora o gerúndio «afirmando». Não havendo, claramente, na frase uma expressão de actividade («Um homem lutando com uma fera, era o espectáculo dos Césares no anfiteatro de Roma», frase dos Sermões do padre António Vieira que o Prof. Botelho de Amaral cita, por exemplo), a construção proposta pelo leitor é francesa e logo ilegítima. Como escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre esta mesma matéria («Sintaxe estrangeirada do gerúndio», in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 500-506), «aliás, a gente tem cabeça em Portugal para pensar com cabeça portuguesa».

Plural dos apelidos

Inimigo Público

Afinal, quando se trata de dinastias, o Público já dá o bracinho obstinado a torcer: «Para além do Panteão Nacional, a Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, tem também o estatuto de panteão. Lá está sepultado D. Afonso Henriques. Na Igreja de São Vicente de Fora fica o Panteão dos Braganças, onde estão sepultados os reis da última dinastia» (página 3). A não ser que seja — considerem eles — gralha. Esperemos por novos desenvolvimentos.

Discurso oral e escrita

Do ponto de ironia ao smiley

«Há muito que foi notado o quanto se perde ao transpor para a escrita a multidimensionalidade do discurso oral. Entoações, pausas ou flutuações de volume, elementos inevitavelmente ligados à voz, mas também expressões faciais, gestos ou posturas desvanecem-se quando fixados nesse outro meio.
Apesar do legado de Derrida, o filósofo que mais fez pela restituição da centralidade da escrita — ou melhor, pela descoberta de quanto o oral se rege pela escrita devido à iterabilidade dos actos de fala —, a atitude da cultura ocidental perante este seu traço fundador é a de tomá-lo como uma espécie de “pecado original” carente de redenção.» («“Don’t worry, be happy!”», Jorge Martins Rosa, Público/P2, 19.09.2007, p. 4). Quer ler a continuação do texto? Vale a pena. Pode encontrá-lo no Público e na página pessoal do autor, que é docente de Ciências da Comunicação na FCSH-UNL.

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