Ortografia: «terra natal»

Pecha hodierna


      «Jesus faleceu poucas horas depois de orientar o clube da terra-natal, o Sporting de Espinho, num jogo da Zona Centro da II Divisão, contra o Boavista (1-1)» («O guardião que fica na história do V. Guimarães e da selecção», R. M. S., Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 47).
      O revisor antibrasileiro iria grunhir de espanto e dor: ele não admite (!) hífen nem sequer em casa-mãe ou em factor-chave. Engana-se, contudo, em relação a estes últimos.

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Abdalá e aiatola

Assim é que é


      «“A Rainha passará duas noites no hospital e deverá regressar à Jordânia ainda no decorrer desta semana”, indica o texto. A Rainha da Jordânia acompanhou o Rei Abdalá II na sua visita a Nova Iorque, onde efectuou uma intervenção nas Nações Unidas» («Rainha Rania da Jordânia foi operada», Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 55).
      Deve ser dos poucos jornais portugueses que dão este ar aportuguesado ao nome do rei Abdullah II ibn Al Hussein. Muito mais ridículo era (ou faziam crer que era) aportuguesar ayatollah, e eis que actualmente já se vai vendo por todo o lado aiatola (que, ó descuido!, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa reconhece mas não regista). Tempos ominosos esses, em que se acreditava que o título era nome próprio.

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Júri/jurado

Não vá alguém pensar


      «Outra coisa é alguém do alto de um poder, como ser júri dos Ídolos, na Sic, se permitir humilhar publicamente (é na tevê) gente cuja culpa é só estar iludida sobre os seus dotes» («Um supor para explicar os ‘Ídolos’», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.09.2010, p. 60). Na mesma crónica, mais adiante, o jornalista mostra, sem nunca usar a palavra «jurado», conhecer o conceito de «júri» (cujo verbete no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisa de uma nova e melhor redacção), mas, na frase citada, há erro. O pronome alguém (de resto muito especial, dado o seu uso como substantivo) não designa uma pessoa ou alguma pessoa cuja identidade não é especificada ou definida? Singular. Logo, não há um alguém que possa ser júri, apenas integrar um júri.

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Como se escreve nos jornais

Bem e mal


      «No aniversário do golpe e contra-golpe conhecidos, no PREC, por “maioria silenciosa”, a Lusa difundiu novas e emocionantes declarações do “doutorado em Sociologia pela Universidade de Genebra” António Barreto, que integra, pela Direita (pela Esquerda ataca Boaventura Sousa Santos), a minoria barulhenta de tudólogos que jornais e TVs ouvem a propósito de tudo e de nada, principalmente de nada. A preferência dos media pela tudologia de tipo oracular praticada por Barreto e congéneres explica-se pela sua inesgotável capacidade para produzir manchetes capazes de “épater les bourgeois”» («Depois dele, o Dilúvio», Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 29.09.2010, p. 56).
      Tudólogo e tudologia são achados, sem dúvida, mas não compensam os erros e más opções. Desde logo, é contragolpe que se escreve. Entre TV’s e TVs, venha o Diabo e leve as duas mais os media. Quanto ao antipoético ódio (e inveja?) que ressuma cada sílaba, não cabe tratar neste blogue, pois não é matéria linguística.

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Tradução: «prester»

Vejam lá


      Desde pequenos que ouvimos falar da lenda do Preste João das Índias, um rei cristão nestoriano (o nestorianismo negava a maternidade divina de Maria, fazendo a distinção entre as naturezas divina e humana de Cristo) chamado João, cujo império estaria situado na Ásia, segundo uns, ou em África, segundo outros. D. João II até mandou para África dois emissários a esse rei que nunca foi encontrado. Ultimamente, é mesmo já o terceiro caso em escassos meses, vejo em traduções do inglês — Prestes João. É preste que se escreve, que talvez venha do francês antigo prestre (no francês actual é prêtre). Prestes, adjectivo e advérbio, também existe, sim, mas não devem ser confundidos. Como me parece ser um erro muito específico de tradução, preferi então enquadrá-lo nesta categoria.

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Léxico: «catamito»

Acrescentem este


      A personagem contratou um neto do gondoleiro veneziano de Byron, e seu pimp and catamite, lê-se no original. O problema é que nem todos os dicionários registam a palavra: está ausente, por exemplo, do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. (Sim, que vergonha.) Em contrapartida, o Dicionário Houaiss e o Aulete Digital registam-no. Deriva de um nome próprio, lê-se neste. Mais nada. Catamitus era o nome latino de Ganimedes. Estas lacunas explicarão, em parte, porque escreveu o tradutor «catamita». Ah, sim: catamito é o homem efeminado e o homossexual.

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Dezenove/dezanove

Pequena diferença


      «— Vamos lá. Os navios Raio e Lúcifer ancoraram nas alturas das Antilhas. Esperaram dezoito dias em calmaria. Ao dezenove houve vento de servir. Levantaram, e fizeram-se de vela até vinte milhas de Cuba. Os navios espanhóis apareceram. Eram três. Foram abordados com pequena resistência. Carregavam sedas e porcelanas» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 261).
      É possível (mas esta edição, apesar de cuidada, tem gralhas) que Camilo tenha escrito dezenove, mas essa grafia do numeral é para nós um brasileirismo. Contudo, está mais próximo dos elementos de formação: dez+e+nove. E mais próximo, também, do espanhol: diecinueve (a que se junta a grafia, mais usada antigamente, diez y nueve).

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Revisão

Desunião ibérica


      E ainda um dia aparecerá um revisor com ganas de aspar qualquer vestígio de castelhanismo ou tudo que o semelhe na obra de Camilo. Dou-lhe já, a esse ignoto carrasco, como pábulo algumas frases mais suspeitas de Camilo, e coligidas somente nos Mistérios de Lisboa.
      «Imaginei-me com um braço quebrado, com uma gonilha ao pescoço, com oito dias de pão e água, com o ódio do padre eternamente irritado contra mim» (p. 52). Por causa da gonilha, que podia ser golilha, golilla. «A aparição improvisa da mãe a um filho, que sente pulsar no seu um coração cuja existência ignorava — uma surpresa assim, traz consigo um terror santo, que deve ser a preexistência do homem na presença de Deus» (p. 62). É ler Cervantes, se se quer ver «improvisos» e «improvisas». «Um, porém, prendia-me a atenção mais que os outros, por isso que o bruxulear da lâmpada projectava às vezes um relâmpago fugitivo por sobre a escuridade da moldura» (p. 84). Escuridad, obscuridad. «Minha mãe levantou-se, e caminhou com firmeza, mas calada, e recolhida, como se continuasse ainda a sua prática com os espíritos invisíveis» (p. 108). Não faltam, em Cervantes, pláticas, para nosso gosto (gusto?). «Apenas os vestígios da maceração desapareceram da face de D. Ângela de Lima, o conde, recebido em casa de seu futuro sogro, encontrou um sorriso nos lábios da filha» (p. 189). Também suspeito. Apenas, mal... «Alberto de Magalhães viera do Brasil. Quando, e donde fora, ninguém o sabia, nem ele dava lugar a perguntarem-lho» (p. 252). Ainda mais suspeito. «Vi-a chorar, cruzei as pernas, e roí as unhas com o donaire de um cínico enfastiado» (p. 305). A machadada final. Mas há mais, muito mais, mas esse negregado revisor sempre poderia socorrer-se da perspicácia do revisor antibrasileiro.

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Crudelíssimo/cruelíssimo

Um Camilo corrigido


      Camilo escreveu «cruelíssimas», mas a revisora queria que fosse «crudelíssimas». «Estavam ambos suspensos, silenciosos, sublimes, e recopilando em um rápido pensamento uma síntese de dores cruelíssimas acordadas na reminiscência por aquele encontro» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, pp. 235-36).
      (E vejo que o Flip 7 não reconhece o verbo, agora caído em desuso, recopilar.)

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Comunista/socialista

Lá é diferente


      «Conforme noticia o “Correio da Manhã”, Sócrates assustou o público ao intitular-se “socialista”, pois que “nos EUA, a palavra é sinónimo de comunista”, o que o levou a ter que “clarificar que um socialista, na Europa, é o que nos Estados Unidos se chama liberal democrata”» («Falsos amigos», Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 27.09.2010, p. 56). Manuel António Pina diz ainda que tomar Sócrates «por comunista (e, fazendo fé nos programas de Governo e Orçamentos desde 2005, por socialista também) é a maior das injustiças que um “faux-ami” poderia fazer a um falante estrangeiro como ele, incluindo Mário Soares dizendo-se, em França e em francês, “un condecoré de la France”». Nestes casos, não há assessores que valham.

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«A ponto de»

No ponto


      Ando a reparar neste erro há muito tempo, mas acho que não pode passar de hoje alertar os meus leitores. Exemplifico com um excerto de um artigo jornalístico, mas tenho-o visto em inúmeros livros revistos. Agora mesmo, só me lembrei dele porque numa revisão me apareceu um to the point traduzido dessa forma. «O Aviso n.º 4/2009 obriga as instituições a prestar diversas informações numa ficha de informação normalizada num momento anterior ao do depósito e, para evitar as tão mal-afamadas “letras pequenas”, a entidade presidida por Vítor Constâncio vai ao ponto de definir que o tamanho da letra não poderá ser inferior a corpo 9» («Maior rigor nos depósitos bancários», Diogo Lopes Pereira, «DN Bolsa»/Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 11).
      É a ponto de que se escreve, e tem, segundo o Dicionário Houaiss, os seguintes valores: chegando mesmo a, chegando até a (Era agressivo a ponto de descompor publicamente a esposa.»); prestes a («Estava triste a ponto de chorar.»); usado como locução preposicional expletiva enfática, equivalente à preposição a («Chegou a ponto de desistir do seu curso.»).

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Léxico: «dragomano»

Coisas do Oriente


      «At once he led his Arab dragoman over to John.» Traduziram: «Imediatamente levou o seu intérprete árabe para junto de John.» É uma opção, sim senhor, mas nós temos o vocábulo e variantes: dragomano, drogomano, turgimão, turgimão e turquimão. Designa o intérprete de consulados ou legações nos países do Oriente, especialmente aquele que serve nos postos de países europeus.

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Dupla negativa

Lá vamos cantando e rindo


      «Não houve algum incidente desagradável» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 109).
      O revisor antibrasileiro ia exultar se visse esta frase de Camilo: em vez de «nenhum», «algum». Tenho para mim, contudo, que ele só conhecerá o Solitário de Seide de nome. Surpreendeu-me há dias, isso sim, ao cantar o hino da Mocidade Portuguesa de cabo a rabo. («Locução própria do nível de língua informal. Pondere o emprego de uma expressão alternativa.» Fico a ponderar.)

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«Hóspeda»

Flipou


      «D. Antónia, tartamudeando, satisfez assim os primeiros assomos de curiosidade às suas hóspedas, mas evitou-lhes os segundos, que deviam ser-lhes atribulados...» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 49).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora registe «hóspede», dizendo que é nome e adjectivo de dois géneros, não deixa de registar o feminino, «hóspeda». Também o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mas o FLIP 7 acha que eu quero escrever a forma verbal de hospedar.

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Dois-pontos repetidos

Bom exemplo, e talvez a tempo


      Já uma vez me perguntaram se podia haver dois sinais de dois-pontos seguidos. Respondi que sim, mas não tinha à mão uma citação de um autor credível. Ei-la agora: «Esta fisionomia fez-me corar. Olhei a fisionomia dele: era sempre a mesma fisionomia: severa e fria, triste e um não sei quê de desprezadora» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 37).
      Podia perguntar-se se a 1.ª edição já apresentava esta pontuação, mas esta edição da Parceria A. M. Pereira, com fixação de texto de Laura Arminda Bandeira Ferreira, dá-nos algumas garantias. Passados quarenta e um anos, só poria hífenes, porque é um substantivo, em «não-sei-quê»: coisa indefinida, incerta ou duvidosa.

[Post 3911]
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Cultura espanhola

Bandeira da cidade autónoma de Ceuta

História e presuntos


      De forma muito menos simbólica do que se possa crer, o facto de hoje em dia haver 440 milhões de falantes de espanhol deve-se a um homem — Blas de Lezo, el Mediohombre (1689–1741). Pena é que os Portugueses, em geral, ignorem esta parte da História. Algo que nos diga mais respeito, pedem? Procurem saber porque é que a bandeira da cidade autónoma de Ceuta é tão parecida com a bandeira da cidade de Lisboa. Algo ainda mais próximo, exigem? Porque é que num país onde se come tanto presunto não se vêem à venda cuchillos jamoneros?

[Post 3910]
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Léxico: «cutita»

Mais uma caída em desuso


      Square jaw. Quando penso num rosto com maxilar quadrado, lembro-me logo de norte-americanos. Terá o inglês uma palavra para designar a saliência lateral que certas pessoas apresentam de cada lado da face provocada pela largura exagerada do maxilar inferior? Sei que em português existe, mas não é usada — cutita. Assim como à pessoa que apresenta cutitas se dá o nome de cutitão ou cutituda.

[Post 3909]
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Termos da heráldica

Os animais da heráldica


Contra-emergente adj. Diz-se dos animais unidos costas com costas, saindo as cabeças e mãos fora do escudo.
Dragonete m. Símbolo heráldico que figura uma cabeça de dragão com a boca aberta.
Grifo m. Figura fantástica, representada de rampante e de perfil, com a parte anterior de águia e a posterior de leão e as asas abertas com as pontas voltadas para o chefe.
Grilhetado adj. Diz-se da ave de rapina quando leva cascavéis nos pés.
Guarnecido adj. Diz-se que o açor, o falcão, etc., estão guarnecidos de tal esmalte quando têm pioz, cascavéis, caparão e alcandora desse esmalte.
Guivra m. Serpente fantástica que se representa na acção de engolir uma criança de que se vêem os braços e a cabeça.
Lampassado adj. Designação do animal (leão, leopardo e outros quadrúpedes heráldicos) representado no escudo com a língua de fora, ou da língua de um animal assim representado.
Linguado adj. Em heráldica, diz-se do animal que apresenta a língua de esmalte diferente.
Meia-águia f. Metade de águia bicéfala.
Melusina f. Sereia, com cauda de serpente a banhar-se e a pentear-se em uma lagoa.
Membrado adj. Diz-se das aves representadas nos escudos com pernas de qualquer esmalte.
Pascente adj. Diz-se dos animais representados a pastar.
Passante adj. Diz-se do animal que figura no escudo na atitude de andar; é a postura habitual do leopardo.
Preando adj. Particípio de prear empregado em relação à ave de rapina que traz caça nas garras e assim é representada o escudo.
Rampante adj. Diz-se do quadrúpede, sobretudo do leão, firmado nas patas traseiras, tendo as dianteiras levantadas.
Unhado adj. Diz-se do boi, do touro ou da vaca que tem as patas de outro esmalte.

[Post 3908]

[Léxico em construção: 16 entradas]

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Sobre «inteligente»

Em terra de cegos


      «O director de corrida é quem manda no espectáculo tauromáquico. É o representante do Estado através do IGAC, Inspecção-Geral das Actividades Culturais. Em Portugal, são 18 e rodam pelas mais diversas praças de touro do país. São profissionais da tourada na reforma: bandarilheiros, na sua maioria, matadores e forcados. O director de corrida é também conhecido como “o inteligente”. Diz a história secular que os “inteligentes” eram os toureiros fora de actividade mais evoluídos, numa sociedade analfabeta. Mas o nome técnico é director de corrida» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35). Quase todos os dicionários registam a acepção.
[Post 3907]
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Sobre «embocadura»

Lacuna?


      «E não se pense que os cuidados são apenas com o instrumento. Dois dias antes de uma corrida de touros, José Henriques [cornetim tauromáquico] não come azeitonas porque tira a embocadura (calo nos lábios devido à pressão do bocal de ferro do instrumento). O calo amolece com o óleo das azeitonas» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35).
      Os dicionários, contudo, não registam esta acepção — não fará parte do idiolecto deste profissional?

[Post 3906]
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Léxico: «pressóstato»

Só os melhores


      Neste caso, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam este vocábulo: «A máquina não tem termóstato mas pressóstato, e por isso não mede a temperatura, antes a pressão da água dentro da caldeira» («Os mestres do café», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 48). Regista-o, era de esperar, o Dicionário Houaiss, remetendo para manóstato: «mecanismo de tipo manométrico, invertido e com fluido em seu interior, utilizado para manter constante a pressão dentro de um recinto; pressóstato».

[Post 3905]

Actualização em 25.09.2010


      Creio que é de toda a conveniência não deixar nos bastidores um comentário que ajuda a destrinçar por entre a confusão:
      «Eis uma típica calinada demonstrativa da iliteracia científica de muitos dos nossos jornalistas.
      «Um termóstato não tem como função medir a temperatura. Essa é a função de um termómetro. Um termóstato tem como função manter a temperatura constante.
      Da mesma forma, um pressóstato não mede a pressão. Essa a é função de um barómetro. O pressóstato, como é fácil perceber pela maneira como a palavra é formada, tem como função manter a pressão constante.»

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Neologismo: «barista»

Imagem tirada daqui

Mestres do café


      Se se trata de neologismo, é muito mais provável estar registado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa do que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É o caso: «Ser barista é uma especialidade nova em Portugal, o que até é estranho num país que gosta e bebe tanto café [sic]. Eles conhecem todos os mistérios do grão de café e fazem malabarismos com uma simples bica» («Os mestres do café», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 46). Barista é então o «empregado de bar que serve ao balcão as bebidas que prepara» ou o «especialista na preparação de cafés e de bebidas à base de café». (Mas o FLIP 7 não reconhece o vocábulo, sugerindo-me, complacente e solícito, barrista, basista, arista, balista e barrita.)

[Post 3904]
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Ensino

Fo..., ca...., co...


      «As escolas que recomendaram a compra de um dicionário com palavrões aos alunos do 1.º ciclo admitem ter-se tratado de um “lapso” na indicação da cor da capa da obra da Porto Editora. Escolheram a capa azul, com a designação de Dicionário de Língua Portuguesa, mas deveriam antes ter sugerido o Dicionário Básico de Língua Portuguesa cor de laranja, que a editora garante ter elaborado “especificamente” para o 1.° e 2.º ciclos do básico. Apesar disso, as crianças dos seis aos dez anos vão continuar a usá-lo» («Dicionário com palavrões foi “lapso”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 23.09.2010, p. 14).
      Não sabia que os dicionários eram recomendados por cores. Faz lembrar os idosos, a quem se recomenda que tomem o comprimido azul de manhã, o vermelho à tarde e o amarelo à noite. Não por acaso os comprimidos não têm todos a mesma cor. Isto é que é menorizar os alunos. Que tristeza. Bem, e que palavrões são aqueles? O habitual: «Em causa está a consulta por crianças de palavras como “fo...” (acto sexual), “ca...” (órgão sexual masculino) ou “co...” (órgão sexual feminino). Este dicionário é recomendado pela editora apenas a partir do 3.º ciclo.»
      Ainda hoje uma professora me disse que pedira a uma aluna para ler o verbete de um vocábulo no dicionário e a aluna, depois de ter lido algumas palavras, parou. Porquê? Na definição estava uma palavra «que não era para a idade dela». E que palavra era essa? «Sexual».

[Post 3903]
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Selecção vocabular

Não se percebe


      «Mais de metade das espécies de plantas até hoje conhecidas foram retiradas do “dicionário da vida” após um aprofundado estudo levado a cabo por uma equipa de cientistas do Reino Unido e dos EUA durante os últimos três anos. Ao longo dos séculos, recolhas e identificações que os botânicos de todo o mundo julgavam ser de novas espécies, eram, afinal, meras duplicações de espécies já conhecidas. As repetições são tantas que o tomate comum, por exemplo, tem 790 nomes diferentes, existindo 600 apelidos distintos para o de carvalho e suas variedades» («Era um milhão de espécies e agora são só 400 mil», Helder Robalo, Diário de Notícias, 21.09.2010, p. 28).
      Não é fenómeno inteiramente novo, este uso inadequado do vocábulo «apelido». No artigo citado, trata-se de um nome de família ou sobrenome? Não. Trata-se de um cognome? Não. Trata-se de uma alcunha? Não. Trata-se do nome especial? Não.

[Post 3902]
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Regência: «desinteressar-se»

Mais devagar


      Acabo de ler que alguém, chegado a Coimbra, «depressa se desinteressou pelo Direito». Isto de tomar a regência de um verbo pela de seu antónimo é um erro muito mais comum do que, à primeira vista, se possa crer. E mais comum na escrita que na oralidade. Interessamo-nos por uma coisa e desinteressamo-nos dela. A tendência (tendência, não regra geral) dos verbos iniciados pelo prefixo de negação des- é reger a preposição de. Outra vez: «depressa se desinteressou do Direito».

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«Atajadores de la costa»

Torre usada pelos atajadores de la costa. Tirada daqui

Na costa espanhola


      «Atajadores de la costa traduzido em português numa só palavra?» Ahn, hum, bem, não me parece, cara Luísa Pinto. São muito referidos por Cervantes, no D. Quixote e não só. Eram também conhecidos por gínetes de la costa, atalayas e caballería de la costa. Estavam encarregados de velar pela segurança das costas contra os desembarques e pilhagens turcos. Relacionado, mas a designar algo diferente, temos em português o vocábulo costão, que era o nome que se dava ao soldado de vigia a presídio nas costas de mar, como o castelão nos castelos.

[Post 3900]

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Tradução: «religious art»

Arte é arte


      Se há alguma diferença entre arte sacra e arte sagrada, e na minha memória há umas reminiscências de ter lido algo a este respeito, os dicionários não a acolhem. Por isso, caro M. L., religious art traduzir-se-á por arte sacra — pelo menos enquanto ninguém nos explicar bem em que consiste aquela suposta diferença nos conceitos.

[Post 3899]
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Selecção vocabular

Fill a gas tank


      A crónica de hoje de Rui Tavares no Público começa bem: «Na linguagem de todos os dias, escolhemos as palavras apenas pela casca» («Princípios/valores», Rui Tavares, Público, 22.09.2010, p. 40). Depois, porém, e como já aqui vimos, há uns deslizes. Mais um exemplo: alguém diz que vai encher o tanque do carro? Rui Tavares, ao que parece, diz e escreve: «Se desejamos que nos entreguem um documento ou encham o tanque de gasolina, tanto se nos dá que seja a Ana ou o Sérgio a fazê-lo.» Parece a interferência do inglês, gas tank, a fazer-se sentir.

[Post 3898]

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«Tequila» e outras coisas

Para rir


      Ao ler no Público uma notícia relativa ao encontro entre o rei de Marrocos, Mohamed VI, e o primeiro-ministro espanhol em que debateram os vários conflitos que opuseram, neste Verão, as autoridades dos dois países, vi que, era inevitável, um dos pontos de discórdia foi a cidade autónoma de Melilla. Lembrei-me então de um erro muito comum: pronunciar a palavra espanhola tequila como se tivesse dois ll. Não tem. Este vocábulo não tem a letra, ou dígrafo, melhor dizendo, ll (elle, em espanhol), que faz parte do alfabeto espanhol desde 1803, mas a letra l. Em 1994, no X Congreso de la Asociación de Academias de la Lengua Española, convencionou-se que os dígrafos ll e ch (che, em espanhol) deixariam de figurar como letras independentes na ordenação alfabética de dicionários e bibliografias. Claro que não estou à espera de que estes falantes apressados de todas as línguas saibam isto. Como decerto gostam de informação mais ligeira, aqui vai: o nome da letra q é cu: «cu de queso». Última anedota: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «tequila» e «tequilha».

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«Replicar», de novo

Vamos ver


      Não se trata propriamente de um uso espraiado, mas, depois de já aqui o termos visto num artigo do Diário de Notícias, ei-lo no Público: «O secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, defendeu mesmo, na apresentação do projecto, que esta “solução inovadora” deve ser replicada pelo país» («Autarquia da Amadora e imobiliária vão fazer do Dolce Vita Tejo um interface de transportes», Inês Boaventura, Público, 22.09.2010, p. 27).
      Talvez valha mais a pena dizer duas coisas de interface. Primeira: neste momento, é consensual que o género de «interface» é feminino. Segunda: há muito que é assumida, decerto que devido aos elementos latinos por que é formada, como palavra portuguesa. Logo, é dispensável o itálico.

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Ortografia: «picuinhas»

Coisas de galinhas


      «Mas “princípios” e “valores” transportam consigo metáforas muito diferentes (não querendo ser picuínhas, “metáfora” quer já dizer “transporte”: é o que os gregos escrevem nos camiões de mudanças)» («Princípios/Valores», Rui Tavares, Público, 22.09.2010, p. 40).
      Não quero ser picuinhas, mas é picuinhas que se escreve, sem acento agudo, porque não precisa dele, pois a semivogal i vem seguida do dígrafo nh da sílaba seguinte, que a anasala, levando-a a formar por si só uma sílaba. De qualquer modo, devo dizer que, estranhamente, o FLIP 7 deixa passar assim com o acento.
      Tanto quanto sei, os Brasileiros ignoram este vocábulo. Têm e usam, isso sim, o vocábulo picuinha: o primeiro piado das aves; dito picante, mordaz, malévolo; remoque; piada, piqueta, piquetada; atitude ou dito cujo intuito é contrariar, aborrecer outrem; pirraça, provocação; hostilidade um tanto gratuita, desconfiança, implicância, cisma».

[Post 3895]
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Sigla SIV

Mais um trabalho


      A propósito do RIP, lembrei-me de mais uma sigla equívoca que anda agora por aí nos jornais: «Uma conclusão a partir depois de um estudo genético ao vírus da imunodeficiência símia (SIV) encontrado em macacos na ilha africana de Bioko e que ficou separada do continente depois da glaciação. Há mais de 10 mil anos» («Vírus da sida tem 32 mil a 75 mil anos», Diário de Notícias, 20.09.2010, p. 27).
      Foi preciso anos até os jornalistas escreverem VIH em vez de HIV. Agora, vão ser necessários outros tantos para que escrevam VIS em vez de SIV. É um trabalho, não hercúleo, mas infindável.

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Tradução: «pallbearer»

Imagem tirada daqui
RIP

      Nascem, vivem, morrem — tal como os seres vivos. E tal como sucede em relação a estes, por vezes só os apreciamos devidamente quando já não estão entre nós. Numa revisão, dou-me conta de que não temos uma palavra para traduzir o vocábulo inglês pallbearer. «Transportador de caixão», regista, de forma equívoca, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Contudo, já tivemos uma palavra que correspondia de forma unívoca: corpoferário. Caiu, é claro, em desuso. (Não, é verdade, para o Dicionário Houaiss.) Puxando pela memória e pelos apontamentos, vejo que já encontrei pallbearer por gato-pingado. Contudo, este termo serviu para designar o indivíduo pago para acompanhar enterro a pé, empunhando uma tocha. Por extensão de sentido, em Portugal, mas creio que não no Brasil, gato-pingado passou a designar também o agente funerário, o papa-defunto. Ora, o pallbearer, o corpoferário, é muitas vezes uma pessoa da família do defunto.

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Tradução

Levante-se o arguido


      Creio que podem imaginar a dificuldade que muitos tradutores têm em verter para português uma frase em inglês que refira barristers e solicitors. Já nem me refiro à má tradução desta última, que muitas vezes ocorre mesmo quando o vocábulo surge isolado. De qualquer modo, os termos ligados ao mundo jurídico-legal, como, naturalmente, os referentes a outras áreas, não raro são mal traduzidos. Um bailiff, por exemplo, mesmo que a história decorra na actualidade, é muitas vezes um «meirinho». Considerem agora esta frase e os erros em que pode induzir: «The walk offered him a chance to think about the case he was working on at the time, to deliberate privately without the interference of barristers, solicitors, bailiffs or defendants.»

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English Channel

Manchas e mangas


      «If he could go back twenty years, he wondered, would he have jumped overboard as the ship passed through the English Channel or would he have come anyway and faced what was to come?» E como é que o tradutor verteu English Channel, adivinham? Pois é: Canal Inglês. Um erro incrível. Até preferia que fosse um desses lunáticos que querem corrigir a História e dissesse que era o Canal da Manga. Como os Alemães, ÄrmelKanal, os Franceses, La Manche, e os Italianos, La Manica.

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Ensino do Espanhol

¡Pepe!
     


      Finalmente, o espanhol está a ter no nosso país a importância que merece. No ano passado, havia 585 escolas que ofereciam o espanhol como língua estrangeira. A procura é tanta, na verdade, que faltam professores, problema que o Governo resolveu de uma penada, aprovando um regime transitório através do qual os candidatos com uma qualificação profissional numa língua estrangeira e/ou Português pudessem também dar aulas de Espanhol se tiverem na sua formação a variante Espanhol ou, em alternativa, o DELE (Diploma de Espanhol como Língua Estrangeira), nível C2 do Instituto Cervantes. (Pelo Real Decreto 264/2008, de 22 de Fevereiro, passou a haver, por imposição do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas, seis níveis: A1, A2, B1, B2, C1, C2.) Claro que a Associação Portuguesa de Professores de Espanhol como Língua Estrangeira (APPELE) protestou.
      Para amenizar, um facto curioso. O hipocorístico espanhol Pepe é tão comum que até se diz como un pepe para dizer toda a gente. Pepe, como se saberá, é hipocorístico de José e há quem o faça provir da abreviatura P. P., pater putativus, que era o que S. José era em relação a Cristo. A determinada altura, para simplificar, os copistas passaram a adoptar a abreviatura JHS PP e, depois, PP. Há pelo menos outra versão de como terá surgido Pepe, mas é infinitamente mais prosaica e não vale a pena referi-la.

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Topónimos

Oporto


      Se é o archbishop, o arcebispo, digo, quase todos admitem que possa ser — a tradição obriga — de Cantuária. Se for um casal que compra uma delightful country house, uma encantadora casa de campo, quer eu dizer, na localidade, já tem de ser em Canterbury. Bunk! Raios! Aw, go on! Ah, vá lá!  Hold on, mate. Aguenta-te, amigo.

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Contracção

Descontracção e bom senso


      «Os mais simples pensam que este era só aquele que marcava golos inacreditáveis. Mas ele representava, sobretudo, o facto do futebol não ter explicação» («O Sobrenatural de Almeida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.09.2010, p. 52).
      Se não tivesse mais nada para dizer, faria um grande escarcéu à volta de a construção «o facto do futebol não ter explicação» ser agramatical, porque a contracção da preposição com o artigo só é possível em sintagmas nominais. Faria, mas apenas se não me lembrasse de que esta é uma ideia muito recente e não sancionada por estudiosos da língua como Vasco Botelho de Amaral, como já tive oportunidade de aqui escrever um dia. Contudo, continuem a desfazer a contracção — pelo menos quando o tiverem de fazer, porque já vi muitos aprendizes de feiticeiro a desfazerem as contracções quando o não devem fazer.

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Léxico: «downday»

Dispensamos


      Como os jornalistas continuam embevecidos com estrangeirismos, e de preferência anglicismos, tenho de ir dando aqui conta de alguns. Downday é o último: «A Autoeuropa não vai utilizar mais nenhum “downday” (instrumento que permite parar a produção, sem que a fábrica tenha de pagar um dia normal de salário) até ao final do ano, cancelando já o próximo previsto para 4 de Outubro, segundo a comissão de trabalhadores» («Autoeuropa cancela “downdays”», Jornal de Notícias, 16.09.2010, p. 44).
      Em Junho, o mesmo jornal já tinha explicado melhor, dizendo que downday era a «dispensa de dias de trabalho».

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Desconcentração/descentralização

Ciganos e consultores


      «Assinalando que a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) autorizou a criação desta turma especial, o ODH [Observatório dos Direitos Humanos] rejeita a argumentação aduzida pela estrutura desconcentrada do Ministério da Educação, segundo a qual a medida “responde à especificação de um grupo de jovens”, para além de ser também uma forma de combater o abandono escolar e elevado de insucesso dos alunos abrangidos”» («Observatório condena turma cigana», Jornal de Notícias, 16.09.2010, p. 49).
      «Estrutura desconcentrada do Ministério da Educação» — não tem nada, em termos jurídicos, que se lhe diga. O único problema é que a esmagadora maioria dos leitores não faz a mínima ideia de que se trata. E os jornalistas também não. O pior, porém, e é disto que quero falar, os dicionário não ajudam nada. Mais do que isso: confundem os conceitos. Consultemos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No verbete do verbo «desconcentrar», podemos ler: «proceder à descentralização de». Está, creio, tudo dito. Pela descentralização, que é um processo político, visa-se transferir atribuições da Administração Central do Estado para outras entidades territorialmente delimitadas, como, por exemplo, as autarquias locais. Através da desconcentração, que é um processo administrativo, atribuem-se competências a outras entidades, territorialmente delimitadas, da Administração Central do Estado. São conceitos assim tão esotéricos ou confundíveis que os consultores da Porto Editora não saibam redigir uma definição correcta e compreensível?

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Léxico: «citoesponja»

Menos doloroso


      «E que, quando compararam os resultados do seu novo teste com o das endoscopias realizadas em paralelo nos participantes, constataram que a “citoesponja” detectava 90 por cento dos casos de esófago de Barrett» («Uma esponja para despistar o cancro», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 13.09.2010, p. 3).
      É mera adaptação do inglês cytosponge. E está correcto, pois também temos citoesqueleto. Como também podia grafar-se citosponja, já que também temos citostático.

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Léxico: «intercurso»

Férias no País das Túlipas


      O cronista do Público Pedro Lomba andou a viajar pela Holanda este Verão. E quem fala da Holanda não pode deixar de referir, não as tulipas, mas o sexo. Não na Holanda mas no Times, o cronista aprendeu, pela boca de um adolescente holandês, que «o sexo anal dói no princípio mas se persistirmos pode ser bastante agradável». O cronista também aproveitou para usar vocábulos raros, como intercurso: «As holandesas marcam na agenda os dias da semana em que têm intercurso com os maridos» («Repressão sexual», Pedro Lomba, Público, 14.9.2010, p. 44). Parece anglicismo disfarçado, sexual intercourse, não é? Mas não. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o ignora, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss registam-no: «comunicação, trato; relacionamento». E este último dicionário exemplifica: «intercurso sexual».

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Ortografia: «antidopagem»

Inventem agora uma desculpa


      Aqui não há dilemas, só erro do jornalista: «Defendendo a tese de vítima neste processo baseado nos incidentes resultantes do célebre controlo antidoping, ocorrido no estágio da Covilhã, antes da partida para a África do Sul, Queiroz avançou com os relatórios da Autoridade Anti-Dopagem de Portugal (ADoP) e sublinhou o facto de o inquérito ter apenas sido ordenado a 2 de Julho, depois da derrota com a Espanha, na Cidade do Cabo, insinuando um ajuste de contas» («Queiroz quer ser indemnizado por “honra manchada”», Jorge Alves Barata, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 33).

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Sobre «item»

Repito: há sempre pior


      Lembram-se decerto de aqui ter dado conta do meu ódio de estimação ao vocábulo «item». Pois esta semana tive de engolir um. Vejam agora neste excerto de um artigo do Diário de Notícias: «Os trabalhos iniciaram-se em 2007 e foram faseados, de modo a que a biblioteca só tivesse que encerrar neste último período. Recuperação de espaços, adaptação às novas tecnologias, catalogação e rearrumação dos itens, eliminação de estruturas decadentes, climatização e controlo da humidade em todas as alas, sistemas anti-incêndio e de segurança. Dentro de dois anos, a intervenção ficará completa com a abertura do Salão Sistino como segunda sala de consulta de estampas e litografias» («‘Chip’ impede roubo de livros no Vaticano», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 26). E porque está grafado em itálico? Não uma, mas duas vezes: «A Biblioteca Britânica é a maior do mundo em quantidade de itens, tendo sido criada em 1973» («‘Chip’ impede roubo de livros no Vaticano», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 27).

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Como se escreve nos jornais

Nem assim


      Podia começar com isto, mas talvez seja demasiado: «Deputados queixaram-se por serem os últimos a saberem» («Passos assume ousadia mas recusa radicalismos», Cristina Rita/Luís F. Silva, Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 26). Algo mais comezinho, como isto: «Os destroços do carro, que será um Renault Laguna, foram passados a pente-fino, ontem de manhã, pelos inspectores da Polícia Judiciária» («Morre queimado», João Mira Godinho, Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 13). E isto: «Foi júri durante dois anos consecutivos do concurso Miss Bairrada, mas, este ano, José Castelo Branco foi convidado para ser o apresentador da grande final, que consagrou Carina Moura» («“É a rapariga mais linda”», V. N., Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 47).
      Apanágio dos inteligentes é, não não errarem, que todos erramos, mas corrigirem os erros que lhes apontam.

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Pronomes

Ninguém viu nem sabia


      Verbos e pronomes não é com eles: «Henrique Monteiro abandonará, a 1 de Janeiro de 2011, o cargo de director do semanário Expresso, posição que ocupou durante os últimos cinco anos. A sucedê-lo, estará Ricardo Costa, que ocupa desde Novembro de 2008 o cargo de director adjunto da mesma publicação» («Ricardo Costa será o novo director do ‘Expresso’», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 46).

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Erros infames

Há de tudo


      Foi tudo dito em murmúrios (e além disso, aproveito para me lamentar, ando há uma semana com zumbidos que duram horas. Hipertensão?), mas algo percebi, pois nos papéis não vislumbrei nada. Uma escritora, «com três ou quatro livros publicados!», tinha escrito algures que era «subescritora» de uma qualquer petição. Quem contou, porém, teve de o dizer três vezes, pois o interlocutor não compreendia. Não quiseram que eu ouvisse, apenas que entreouvisse.

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Nome de doenças

Estas chagas


      Nada de corporativismos: de cinco em cinco anos, estou a encontrar um revisor que escreve «hífen» sem agá... O último foi no sábado. Ia sendo acometido de uma apoplexia. Bem, mas eu não queria falar disto, antes de um erro em que os jornalistas e os revisores do Correio da Manhã caem reiteradamente: «Uma doença subnotificada em Portugal, e sobre a qual a DGS quer ter informações sobre a sua prevalência, é a Doença de Chagas — transmitida através das baratas —, patologia que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a lançar um alerta sobre a sua propagação» («D.G. Saúde vai vigiar doenças tropicais», Cristina Serra, Correio da Manhã, 13.09.2010, p. 18).
      O Dr. Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, bacteriologista brasileiro, merece ter ali o seu nome, naturalmente, mas «doença» não merece honras de maiúscula.

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Estrangeirismos

Também é doença, também é grave


      Se não registam «petanca», alguns dicionários, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, registam o termo inglês «quiz», o que leva alguns jornalistas a usá-lo como se fosse português: «No seu estilo informal, o director da Monocle lançava um miniquiz sobre os BRIC: Onde compraria uma casa de férias?» («Brasil, país do futuro: agora é para valer!», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 13.09.2010, p. 7).

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Léxico: «petanca»

Rigor nos pormenores


      Um acidente, duas senhoras mortas. Não perguntem mais nada, pois os jornalistas não combinaram nada e as versões são desencontradas: «O carro em que seguiam perdeu o controlo, numa recta, no percurso que estava a ser feito em ligeira descida, de acordo com informações avançadas pela GNR» («Morrem a caminho de torneio», Paula Carmo, Diário de Notícias, 13.09.2010, p. 17). «No cimo da recta com grande inclinação, Manuel Pacheco, 73 anos, via com desespero a carrinha a fumegar e, minutos depois, os Bombeiros de Lordelo a confirmar o óbito da sua mulher» («Choque mata amigas», Roberto Bessa Moreira, Correio da Manhã, 13.09.2010, p. 10). Sabe-se, e quanto a isto os jornalistas estão de acordo, que as senhoras iam para um torneio de petanca, que o repórter do Correio da Manhã explica, e muito bem, pois os dicionários não registam a palavra, de que se trata: «Eram amigas de longa data e ontem preparavam-se para mais um dia de convívio durante um torneio de petanca — jogo tradicional francês, com bolas» («Choque mata amigas», Roberto Bessa Moreira, Correio da Manhã, 13.09.2010, p. 10). A repórter do Diário de Notícias também achou que devia dar alguma informação sobre o jogo: «Ao que o DN apurou, as duas, naturais do concelho de Paços de Ferreira, eram fãs deste popular jogo, praticado com bolas de ferro» («Morrem a caminho de torneio», Paula Carmo, Diário de Notícias, 13.09.2010, p. 17). Temos de consultar o DRAE para sabermos que a petanca é uma «especie de juego de bochas».
      Se confirmar e declarar o óbito forem realidades distintas, está bem: os Bombeiros de Lordelo confirmaram o óbito. Porque só um médico pode declarar o óbito. Contudo, o habitual é que algo seja confirmado depois de ter sido declarado, e não o contrário...

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Verbos pronominais

É doença, é grave


      «Oiça esta: “Muitos ter-se-ão já questionado...” “Ter-se-ão” existe, claro, mas não se pode usar aqui. Será antes: “Muitos terão já questionado...”» Nada de pronominais, portanto. Assim se constrói a biografia de um homem. Já sabem qual.

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Plural: «navajos»

Índios e aurículas


      Na página dos obituários, sob a fotografia de um velhote com cara de rato, lia-se o seguinte: «Foi um dos 29 índios navajo que eram operadores de rádio na frente do Pacífico, na II Guerra Mundial. Eles comunicavam no seu próprio dialecto, o que enganou os adversários japoneses que pensavam tratar-se de uma língua codificada ou encriptada» («Allen Dale June», Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 49).
      Não acham que ficava melhor escrever «índios navajos»? Há menos tempo os estudantes de Teologia afegãos, mais dados a empunhar as armas que a sobraçar os livros, contaminam a Terra e já vocês lhes chamam talibãs. Ao que parece, o uso do dialecto só enganou os adversários japoneses que pensavam tratar-se de uma língua codificada ou encriptada. Não enganou os outros, japoneses ou não. Demasiado subtil? Fica com a etiqueta «pontuação».
      A propósito de estudantes de Teologia, gostaria de poder dizer alguma coisa sobre aquela obra de ficção em que se pergunta: «Do not nasty little seminarians still refer to a woman’s sine qua non as auricula—the ear?» Mas ainda não posso. Isto a propósito de emprenhar pelos ouvidos.

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Neologismo: «homoafectividade»

Novidades


      «A relação da Igreja Católica com os novos modelos de famílias, onde impera a homoafectividade, é apenas um dos seus [de Luís Corrêa Lima] temas de estudo» (“Deus criou os homossexuais”», Nuno Miguel Ropio, Jornal de Notícias, 12.09.2010, p. 26).
      É só um eufemismo ou melhorativo forjado ou pretende-se mesmo dizer mais do que as palavras que sempre usámos transmitem? Pelo que vejo, há muitos cientistas sociais, ligados ao estudo da sexualidade, a usarem-no. E quem o usa também usa este: «Com 48 anos, Corrêa Lima desenvolve estudos que invertem o paradigma da heteronormatividade universal» (“Deus criou os homossexuais”», Nuno Miguel Ropio, Jornal de Notícias, 12.09.2010, p. 26).

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Pontuação

Vírgulas fugitivas


      Já aqui exalcei o olho clínico (potenciado, recentemente, e assim prosaicamente desmetaforizado, com uns implantes intra-oculares — pista preciosa para um Dr. Richard Kimble lhe descobrir a identidade, a não ser que prefiram vê-lo como um alter ego meu) do revisor antibrasileiro para as repetições. Com as lentes, também recentemente, porque me lembro de conversas em que ele afirmava o contrário, foi-lhe implantado no cérebro a necessidade de um matiz na pontuação dos complementos circunstanciais de lugar. Apareceu a seguinte frase: «Em Braga, substituiu Jorge Costa em Novembro e, nos seus primeiros três jogos, somou 7 pontos, mas depois não conseguiu garantir um lugar europeu, terminando a 12 pontos de um V. Guimarães que foi 3.º classificado.» Que não, que a acção e o lugar estão tão intimamente ligados, argumentou, preleccionou, tentou convencer, que não pode haver ali vírgula, e, assim, emendou desta maneira: «Em Braga substituiu Jorge Costa em Novembro e, nos seus primeiros três jogos somou 7 pontos, mas depois não conseguiu garantir um lugar europeu terminando a 12 pontos de um V. Guimarães que foi 3.º classificado.» Isto convence alguém? Suspeito que nem o próprio sai convencido nem os demais persuadidos.

 
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«Ground Zero», de novo

Maior escolha


      Na edição de anteontem do Jornal de Notícias, podia ler-se que «2000 trabalhadores da construção civil dedicam-se à reconstrução da Zona Zero, sete dias por semana» («Tensões islâmicas marcam os nove anos do 11 de Setembro», Cláudia Luís, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 47). No Público, ainda continua a experimentar: «Promotor do diálogo inter-religioso, Akbar Ahmed defende salomonicamente que o polémico centro islâmico aprovado junto ao Ground Zero, em Nova Iorque, não deve ser construído naquele local — é um dos raros muçulmanos a ter esta posição» («Com a nova mesquita ao pé do Ground Zero, os muçulmanos estão a desafiar a identidade americana», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 10.09.2010, p. 4). «Em vez disso, vai encontrar-se com o imã responsável pelo controverso centro islâmico projectado para as imediações do Ground Zero, em Nova Iorque» («Pastor da Florida desiste de queimar o Corão e quer agora afastar mesquita do Ground Zero», Ana Fonseca Pereira, Público, 10.09.2010, p. 15). Tal como no Diário de Notícias: «A distância entre o futuro centro comunitário muçulmano e o ground zero é de 200 metros e esta proximidade gerou uma discussão sobre a responsabilidade do terrorismo islâmico no 11 de Setembro e os limites da tolerância religiosa na América» («Primeiras vítimas no caso da queima do Alcorão», Luís Naves, Diário de Notícias, 11.09.2010, p. 26). Mas também assim: «Perante a anunciada queima de exemplares do Alcorão, “represália” prévia de um pastor americano à hipotética construção de uma mesquita junto ao Ground Zero, por todo o Ocidente inúmeras almas horrorizadas perguntaram: o que aconteceria se muçulmanos queimassem a Bíblia ou a Tora?» («Os fogos do Alcorão», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 63).
      Um destes jornalistas é um dos 55 seguidores que tenho no Twitter, e por isso há-de, pelo menos, reflectir nesta falta de critério.

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Sobre «graffiti», de novo

Há sempre pior


      É o que podemos concluir: «O plano da Câmara Municipal de Lisboa tem como objectivo limpar as tags (rabiscos e assinaturas a marcador) e grafitis (pinturas a spray) que nos últimos anos têm sido uma praga no Bairro Alto» («Bairro Alto tenta limpar a cara», Cristiano Pereira, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 16). E mais: «A intervenção decorre em duas fases distintas. Na primeira, realiza-se a recuperação do suporte ao nível do piso térreo, nomeadamente das fachadas, vãos de portas e janelas, com reparação dos rebocos, caixilhos, carpintarias e limpezas de cantarias, passando à manutenção das áreas recuperadas e protegidas com tratamento antigrafiti.» E, quer eles queiram quer não, são grafiteiros: «Perante esta realidade crescente dos grafitis nas paredes de Lisboa, a Câmara criou uma Galeria de Arte Urbana [GAU] que pretende ser um espaço para que os grafiteiros possam, legalmente, dar asas à sua imaginação.»

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Léxico: «pneumotórax»

Falha do consultor


      Uma onda gigante «abalroou», nas palavras do jornalista, oito pescadores que estavam no paredão da Cova do Vapor. «“Um deles suspeita-se que tivesse alguma costela partida, outro tinha uma fractura no braço e um outro por ter batido com o peito nas rochas provavelmente tinha um pneumotórax”, disse [Luís Vitorino, coordenador da associação Caparica Mar]» («Onda gigante atira ao mar oito pescadores», S. B., Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 19).
      Se recorrermos ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, até podemos pensar que é mais um erro dos jornalistas: «Pneumotórax MEDICINA método de tratamento da tuberculose pulmonar pela introdução de azoto na pleura para provocar a compressão e a retracção do pulmão e, finalmente, a cicatrização das lesões pulmonares.» O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, no respectivo verbete e logo na primeira acepção, regista: «Acumulação de gases na cavidade pleural.» Se queremos saber mais, consultamos, por exemplo, a Medipédia. De maneira que, senhores da Porto Editora, está na altura de corrigirem acrescentando a acepção.

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Alguém/ninguém

Sem tirar nem pôr


      D. Francisco Manuel de Melo (1608–1666) escreveu, nas Cartas Familiares, «sem que ninguém lho ache», mas o revisor antibrasileiro acha que «sem que ninguém» é erro crasso e que se deve dizer e escrever «sem que alguém». Em épocas mais recuadas, o uso da dupla negativa era talvez mais vulgar, com recurso ao advérbio «não» ou, como no caso acima, à preposição «sem», mas a língua portuguesa continua a ser, porque o é matricialmente, uma língua de dupla negação.

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Dizer-se

Maldita obsessão


      «Cândida Almeida e os dois magistrados, Vítor Magalhães e Paes Faria, assinaram uma nota conjunta em que se disseram alvo de uma “campanha insidiosa”» («Documento falso no caso Freeport», Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 28). É uma legenda de duas fotografias daqueles magistrados, e o revisor antibrasileiro virou a página para mim e apontou-a. «Veja bem: “se disseram”!» Apresentou logo alternativas de redacção. Encolhi os ombros. Para quê? No Dicionário Houaiss, dizer-se: «declarar-se; qualificar-se. Exs: diz-se um grande orador. Dizia-se incapaz de assumir o cargo». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dizer-se: «intitular-se; chamar-se; considerar-se».

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Países Baixos

Plural, of course


      Um ex-soldado canadiano visita, alguns anos depois, os campos de batalha da Grande Guerra. «Unrecognizable, of course. Neat and trim in the manner of the Low Countries.» «Claro que estavam irreconhecíveis. Estavam limpos e arranjados, à maneira dos Países Baixos.» Como se vê, também os anglo-saxónicos se referem no plural àquele país: Low Countries. Lembrei-me desta entrada aqui.

[Post 3867]
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Plural «graffiti»

Falta algo


      «Os graffitis estão do lado da Cisjordânia, a umas dezenas de metros do check-point da estrada para Jerusalém» («O muro», Humberto Lopes, Jornalismo&Jornalistas, n.º 43, p. 66).
      Bonita publicação, sim senhor, mas falta-lhe o toque de um revisor... Já aqui vimos que o plural é graffiti. Conheço um disléxico que, nesta circunstância, diria: na melhor nódoa cai o pano. Desçamos o pano.

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Léxico: «directa»

Ajuízem bem


      «Ana Peres faz directa para entregar acórdão» (Ana Luísa Nascimento/Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 6).
      Os Brasileiros, tanto quanto sei, não dizem da mesma forma. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista este termo coloquial: «noite em que não se dorme e que geralmente se dedica a uma actividade recreativa ou profissional; noitada». Claro que o que se faz de noite, de dia aparece. E mais: à noite põe-se muito bacelo, de manhã está todo murcho. Se aqui estivesse Sancho Pança, diria mais. Só falta mesmo o acórdão ver a luz do dia.
      E a propósito de juízes. Ando a ler uma tradução do inglês e o Your Honour é sempre traduzido por... *meretíssimo. A dissimilação a ter expressão na escrita. Interessante. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no respectivo verbete, só regista isto: «muito digno e merecedor de respeito». Pois é, e a indicação de que se trata também de uma forma de tratamento dada aos juízes de direito?

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Tetuão, de novo

Qual deles o pior


      Página 1000 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves: «Tetuão, top.» O FLIP desfaz-me a escrita e escreve «Teutão». Ah, ah, ah. Outra variante encontrada no Diário de Notícias: «A voz de Tânia, dez anos, mal se ouve. Está numa cama do Hospital Mohamed VI, Tétouan» («“Fiquei agarrada pelo cinto”», Diário de Notícias, 10.09.2010, p. 6). E no Correio da Manhã: «Visitou ainda os restantes três feridos internados no Hospital de Ceuta e no dia anterior os mais graves em Tétuan, onde estavam internados nove feridos, sendo que cinco foram ontem transferidos num avião comercial para Lisboa» («“Sonho acabou em tragédia”», Rui Pando Gomes, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 12).

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Léxico: «aríete»

À marrada


      «“Foi preciso chegar aos 96 anos para ser tratada como uma criminosa”, disse ontem ao CM com ironia a idosa, na altura em que a PSP se encontrava a arranjar as portas que foram arrombadas com um aríete metálico» («GOE invade casa de idosa por erro», Luís Oliveira, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 16).
      Neste caso, prefiro a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «antiga máquina de guerra formada por uma viga grossa e comprida, com uma cabeça de carneiro esculpida na extremidade, que era utilizada para derrubar portas e muralhas». Em astronomia e em astrologia, Carneiro não se diz também muitas vezes Áries? E mais: ao aríete, e neste caso é o Dicionário Houaiss a lembrá-lo, também se deu o nome de áries. O étimo é o vocábulo latino arĭes,ĕtis, «carneiro». Logo, os polícias arietaram, por engano, a porta da idosa. O étimo de arietar é o verbo latino arietāre, «marrar». E relativo a carneiro diz-se arietino, como já aqui tínhamos visto.

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Léxico: «desfaçado»

Dá jeito saber


      Aquele que usa de desfaçatez é um... é um... Então, não respondem? Desfaçado! A primeira abonação na língua dá-a o Dicionário Houaiss como tendo sido em 1536 e indica como étimo provável o espanhol antigo desfazado, «descarado», de faz, «face, cara, rosto». Pois é, mas, entre os estudiosos do espanhol, desfazado (actualmente, desfachatado) é tido como proveniente do vocábulo italiano sfacciato, que significa «desavergonhado, descarado, insolente». Ou seja, não se formou na língua. Sfacciato: «Privo di rispetto e di pudore: comportamento s.; eccessivamente indiscreto e impertinente: non essere sfacciato!», regista o Sabatini Coletti.

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Ortografia: «Tetuão»

Vendidos


      Acabei de ouvir no noticiário da Antena 1. Nos jornais, não se lê outra coisa: «Em Tetouan encontram-se onze passageiros do paquete Funchal que ficaram feridos no acidente, que provocou nove mortos» («Corpos das vítimas transladados esta tarde para Portugal», Diário de Notícias, 9.09.2010). Por um lado, escrevem Duisburgo e Magaliesburgo — e acho bem, já aqui o afirmei —, sem tradição entre nós, por outro, optam pela grafia francesa, Tetouan, em detrimento da que se usou durante séculos em Portugal, Tetuão. Haja paciência.
      Trata-se, mais uma vez, de opções de transcrição. Actualmente, as autoridades marroquinas preferem, por razões políticas óbvias, Tetouan, mas, como para Espanha continua a ser Tetuán, para nós não deixa de ser Tetuão.

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História/história

Voluntariosos


      «Quando em 1957 se voluntarizou para frequentar uma escola que até à data só aceitava alunos brancos, Jefferson Thomas estava longe de imaginar que o seu nome iria ficar para a história» («O homem que lutou pelo fim das barreiras raciais no ensino», C. R. F., Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 41). «Mas Adelino Granja não está satisfeito com algumas mudanças encetadas. Até as que implicam pormenores, como o símbolo ou o hino da bicentenária Casa Pia. “Acho que a maioria dos ex-alunos não concordaram com a ideia de mudar o símbolo ou o hino. Fazem parte da História da Casa Pia» («Quem viveu a Casa Pia por dentro teme pelo seu futuro», Rute Coelho, Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 2).
      «Voluntarizou»! Perdão: «se voluntarizou», que o verbo é pronominal e eu estou perplexo. Nem voluntariar-se, que chega e sobra, está dicionarizado em todos os dicionários. E história vs. História? O calor continua a atacar-lhes as meninges.

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Debrum, orla, vivo, cairel...

Imagem tirada daqui


Bela peça


      Num jornal, não me perguntem qual, li que estavam cerca de 800 mil pessoas «isoladas no Paquistão devido às inundações provocadas pelas moções»... mas isso foi há uma semana, na edição 11 460 (grande pista). Angelina Jolie está agora no Paquistão. Vejam como no Diário de Notícias de ontem era descrita a indumentária da actriz e embaixadora da Boa Vontade: «A actriz percorreu a área usando uma longa túnica preta e um lenço também preto na cabeça com uma fina lista vermelha, indumentária usada por muitas mulheres muçulmanas no Paquistão» («Vestida dos pés à cabeça Angelina Jolie comoveu-se com vítimas do Paquistão», Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 48).
      Não direi que é um vivo, que é o nome que se dá a tira de tecido que forma o debrum em peças de vestuário, nem debrum, mas talvez lhe pudéssemos chamar orla. Só para não empobrecermos a linguagem.

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