«Fazer questão de»

La belle question!

     «He made a point of saying that.» «Ele fez questão em dizê-lo.» Desconfiei desta preposição, pois sempre li e ouvi fazer questão de, expressão idiomática que pode dever alguma coisa à língua francesa (mas não, pelo menos com o mesmo sentido, através de faire question: «Être sujet à discussion, être douteux.») Quando terá entrado na língua? Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa regista apenas a expressão com a preposição de, assim como outra, despreposicionada (puxem dos canhenhos e anotem) e diferente significado, fazer questão.

[Post 4659]

Linguagem

Contem-me coisas

      «A pobre andava tão atrasada de víveres que nem deu porque havia ali coisa no ar» (Nome de Guerra, Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 49). «A pobre andava tão atrasada de víveres que nem deu por que havia ali coisa no ar» (Nome de Guerra, Almada Negreiros. Assírio & Alvim, p. 2001, p. 26). «Este burro de Gottenheld não deu por que havia mudança na vida, não soube ver que o seu caminho estava engolido pela água escura, e que o seu habitual itinerário não tinha agora sentido, nem ninguém o queria» (O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, Mário de Carvalho. Lisboa: Vega, 1982, p. 56).
      
[Post 4620]

«De maneira a que»?

Gálica e anti-sintáctica

      «— Vou pôr o alarme do meu despertador para as onze — anunciou Filipe a João, em voz baixa, para que Gustavo não ouvisse. — Ponho-o debaixo da minha almofada, de maneira a que só me acorde a mim. Ena! Estou cheio de sono!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 79).
      Praticamente nenhum estudioso da língua deixou de exprobrar a expressão. Um dos primeiros terá sido José Leite de Vasconcelos, que escreveu nas suas Lições de Filologia Portuguesa que era galicismo intolerável e que só um francês diria com propriedade «de manière à». «Alguns escritores modernos até somam as duas sintaxes uma com a outra, e dizem de maneira a que, não ficando pois nem português nem francês.» Vasco Botelho de Amaral, que disse que era expressão resultante do cruzamento da boa com a má construção. Mário Barreto afirmou que era locução gálica e anti-sintáctica. Nada de ilusões, contudo: actualmente, as gramáticas ignoram ou aceitam estas formas de dizer, e os professores de Português nunca ouviram falar de tal.

[Post 4616]

Locução adverbial

Outra vez

      «‘I don’t really think there’s anything peculiar about it,’ said his mother. ‘Bill gets sudden ideas, you know’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 3). «— Não considero o caso extraordinário — disse a mãe. — Já sabes que Jaime pensa sempre nas coisas à última hora» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 8).
      Talvez seja a terceira vez que, de uma forma ou outra, refiro aqui a expressão adverbial «à última (da) hora». Lembro-me de, num comento, Fernando Venâncio ter discordado de «à última hora» ser a forma recomendável. De vez em quando, é bom refrescarmos assuntos já debatidos. Hoje, a novidade (?) é confirmar que já em 1969 havia quem optasse pela forma sem preposição. Não me lembro se alguma vez Vasco Botelho de Amaral se referiu a esta questão linguística.

[Post 4580]


«A braços com»

Digam-lhe

      «O quinto maior sismo de que há memória na Terra, com uma magnitude de 8,9 graus na escala de Richter, seguido de um tsunami devastador, na sexta-feira, deixou o Japão também a braço com uma crise nuclear, principalmente na central de Fukushima 1,250 quilómetros a norte de Tóquio» («Crise nuclear no Japão não deverá ser igual ao acidente de Tchernobil», Teresa Firmino, Público, 15.03.2011, p. 4).
      Pois é, mas a locução é a braços com, ou seja, em confronto com, envolvido com. De uma maneira geral, os jornalistas não prezam tanto a língua que se dêem ao trabalho de consultar dicionários.

[Post 4566]

Ortografia: «mão de ferro»

Em coma

      «Zine el-Abidine Ben Ali, o homem que governou a Tunísia com mão-de-ferro durante 23 anos, está em estado de coma há “dois dias”. Uma fonte próxima da família do ex-presidente revelou que este se encontra internado num hospital da cidade portuária de Jeddah, na Arábia Saudita» («Ditadores derrubados estão em coma», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 18.02.2011, p. 30).
      A fonte próxima da família é que terá informado que Ben Ali está em coma há dois dias. Muito bem, mas para quê as aspas nesse ínfimo segmento de informação? Se fosse uma frase completa, então sim, justificavam-se. E, cara Lumena Raposo, não se escreve «mão-de-ferro», mas mão de ferro, é uma locução.

[Post 4453]

«Palavra de ordem»

Podem ser murmuradas

      Maria de São José, num dos noticiários da Antena 1 esta tarde, falou em «gritos de ordem», disparate que ando a ouvir há muito. Lá por serem gritadas não deixam de ser palavras de ordem, ou seja, palavras, locuções ou pequenas frases, não raro rimadas, para serem repetidas, gritadas, cantadas ou reproduzidas por escrito, e que expressam uma reivindicação, um incitamento à luta, um apelo à mobilização, etc. (conforme definição do Dicionário Houaiss).

[Post 4435]

«A exemplo de»

Ad cautelam

      «Nas palavras do líder parlamentar comunista, uma moção de censura ao Governo não se destinaria a produzir uma mera substituição do Executivo. Serviria, isso sim — ao exemplo da moção de censura apresentada pelo PCP em 2010 —, para contestar a política económica do Governo e afirmar a alternativa corporizada pelo partido censurante» («A fisga e o míssil», Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 6).
      Pode ser gralha, e aqui não se cuida de tais insignificâncias. Contudo, quem sabe? Tanto mais que, tratando-se do editorial do jornal, devia ter havido mais cuidado. A locução correcta é a exemplo de. Vai um exemplo antigo: «Ela foi a primeira que a exemplo de seu Divino esposo introduziu nas salas de Palácio a humildade piedosa do Lava-pés» (Sermões, padre Manuel dos Reis. Coimbra: Oficina da Universidade, 1724, p. 471).

[Post 4423]

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