Revisão

Desunião ibérica


      E ainda um dia aparecerá um revisor com ganas de aspar qualquer vestígio de castelhanismo ou tudo que o semelhe na obra de Camilo. Dou-lhe já, a esse ignoto carrasco, como pábulo algumas frases mais suspeitas de Camilo, e coligidas somente nos Mistérios de Lisboa.
      «Imaginei-me com um braço quebrado, com uma gonilha ao pescoço, com oito dias de pão e água, com o ódio do padre eternamente irritado contra mim» (p. 52). Por causa da gonilha, que podia ser golilha, golilla. «A aparição improvisa da mãe a um filho, que sente pulsar no seu um coração cuja existência ignorava — uma surpresa assim, traz consigo um terror santo, que deve ser a preexistência do homem na presença de Deus» (p. 62). É ler Cervantes, se se quer ver «improvisos» e «improvisas». «Um, porém, prendia-me a atenção mais que os outros, por isso que o bruxulear da lâmpada projectava às vezes um relâmpago fugitivo por sobre a escuridade da moldura» (p. 84). Escuridad, obscuridad. «Minha mãe levantou-se, e caminhou com firmeza, mas calada, e recolhida, como se continuasse ainda a sua prática com os espíritos invisíveis» (p. 108). Não faltam, em Cervantes, pláticas, para nosso gosto (gusto?). «Apenas os vestígios da maceração desapareceram da face de D. Ângela de Lima, o conde, recebido em casa de seu futuro sogro, encontrou um sorriso nos lábios da filha» (p. 189). Também suspeito. Apenas, mal... «Alberto de Magalhães viera do Brasil. Quando, e donde fora, ninguém o sabia, nem ele dava lugar a perguntarem-lho» (p. 252). Ainda mais suspeito. «Vi-a chorar, cruzei as pernas, e roí as unhas com o donaire de um cínico enfastiado» (p. 305). A machadada final. Mas há mais, muito mais, mas esse negregado revisor sempre poderia socorrer-se da perspicácia do revisor antibrasileiro.

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