Dezenove/dezanove

Pequena diferença


      «— Vamos lá. Os navios Raio e Lúcifer ancoraram nas alturas das Antilhas. Esperaram dezoito dias em calmaria. Ao dezenove houve vento de servir. Levantaram, e fizeram-se de vela até vinte milhas de Cuba. Os navios espanhóis apareceram. Eram três. Foram abordados com pequena resistência. Carregavam sedas e porcelanas» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 261).
      É possível (mas esta edição, apesar de cuidada, tem gralhas) que Camilo tenha escrito dezenove, mas essa grafia do numeral é para nós um brasileirismo. Contudo, está mais próximo dos elementos de formação: dez+e+nove. E mais próximo, também, do espanhol: diecinueve (a que se junta a grafia, mais usada antigamente, diez y nueve).

[Post 3919]

Ordinal de 5000 milhões

Ordem!

      A pergunta de um leitor é muito sucinta: «Como se escreve o ordinal de 5000 milhões?» Há-de ser por extenso que o leitor pretende saber, pois abreviado é demasiado simples: 5000 000 000.º Por extenso, e quase todas as gramáticas ignoram esta questão, é quinto milésimo milionésimo. Não perguntei ao leitor para que queria saber, mas podia muito bem tratar-se de uma aposta.

[Post 3391]

Concordância com numerais

Vamos concordar


      Escreve-me um leitor: «“Naquele fatídico ano, foram mortas centenas de civis hutus.” Ou será antes: “Naquele fatídico ano, foram mortos centenas de civis hutus”?» O particípio passivo concorda em género e numero com o sujeito. Se o núcleo do sujeito é um numeral colectivo, como é o caso, a concordância faz-se com o substantivo que o acompanha: «Naquele fatídico ano, foram mortos centenas de civis hutus.» «Centenas de obras de arte foram vistas naquela exposição.»
      A concordância traz sempre algumas dúvidas. Mas há quem tenha teorias muito próprias. A minha filha, com 3 anos acabados de fazer, já me explicou: «Se falarmos com uma senhora, dizemos “obrigada”; se falarmos com um senhor, dizemos “obrigado”.» Já interiorizou que há diferenças, agora só falta afinar as coisas.

[Post 3362]

Anglicismos e etc.

Português na Quinta Vigia


      Vi Alberto João Jardim na Grande Entrevista com Judite de Sousa. Alguns momentos baixos: «O gabinete de operações está aqui na Quinta Vigia [residência oficial do presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira], eu comando aqui as operações, obviamente com grande suporte da Protecção Civil.» Nesta acepção, suporte é anglicismo. Qual é a dimensão exacta dos prejuízos? «Nas contas do Governo, vamos já em mil milhões de euros, e para cima.» Isso é muito dinheiro. «Eu penso que vamos ir a uma coisa paradoxal: o volume, o custo, igual ao que é o orçamento anual da Região Autónoma.» Ou seja? «O orçamento anual da Região Autónoma é um bilião e meio de euros.» «O Sr. Dr. carrega essa mágoa de não ter tido uma vaga de fundo, nomeadamente há dois anos, para que o seu nome pudesse ser lançado?» Vaga de fundo é uma metáfora, muito do agrado da nova classe política, e, como se vê, de alguns jornalistas, que muito poucos telespectadores entenderão.

[Post 3185]

Numeração romana

Nem pensar


      «O XII.º Congresso, que teve lugar em Março de 1923, pode ser considerado como o último em que o Partido pôde usar ainda com legitimidade o seu nome revolucionário — do mesmo modo que podemos datar do ano de 1924 a morte do “bolchevismo”» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 339).
      Nesta obra repete-se este erro, que já tenho visto noutras obras. Os algarismos romanos tanto podem ser usados e lidos como ordinais como cardinais — e, no primeiro caso, nunca precisam de uma letra, a ou o, sobrescrita ou em índice.

[Post 3035]

Numeração

Em que ficamos?


      «Oito minutos após o início da ruptura da crosta terrestre no Haiti começaram a chegar ao outro lado do Atlântico os primeiros sinais de um sismo naquela ilha das Caraíbas, com as estações sísmicas dos Açores a registarem um evento de magnitude sete na escala de Richter. […] Essa equipa, de que fazia parte Paul Mann, do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas, dizia que aquele sistema de falhas tinha potencialidade para originar um sismo de magnitude 7,2 na escala de Richter» («Sismo pouco profundo explica destruição localizada», Teresa Firmino, Público, 14.1.2010, p. 6).
      No mesmo texto, a magnitude expressa em numeração arábica e por extenso? Jornalista, editor e revisor, todos distraídos...


[Post 3020]

Biliões/milhares de milhões

Isso é muito


      «A teoria do Big Bang sobre a criação do universo ocupa muitos volumes e algumas mentes mais avançadas, mas, em resumo, diz que o universo começou com toda a sua matéria, concentrada a uma densidade e temperatura muito elevadas, há cerca de quinze biliões de anos» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 15).
      A sério? O Prof. Carlos Fiolhais, e tem por companhia dezenas e dezenas de académicos em todo o mundo, dizem que foi há menos tempo: «Hoje sabemos que o Universo está em expansão e em arrefecimento, desde o seu início há cerca de 15 mil milhões de anos» («O Big Bang: em casa e via satélite», in De Rerum Natura, 21.06.2007, aqui).

[Post 3019]

Ordinais e cardinais

Seis páginas depois


      «— Bem vinda [sic] ao meu consultório — disse, um pouco ironicamente, uma vez que acabáramos de sair do seu consultório, um soalheiro ninho de águia no décimo oitavo piso do velho edíficio do Hospital Presbiteriano, onde me relatara o seu trabalho de despiste das moléculas do cérebro que controlam a memória» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 17). «Estávamos sentados no seu gabinete do 18.º andar e ele deu um salto e pegou num pau de giz e começou a desenhar uma linha ascendente no quadro» (p. 24). E a coerência? A regra?

[Post 2960]

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