Pontuação

Ora, ora


      «Por isso, quando o seu carro me apareceu à frente, ainda antes do Cais do Sodré, foi-me fácil alimentar o crescimento de uma irritação no espírito. Desacelerar atrás de si, fez-me prestar atenção súbita à realidade concreta daquele fim de tarde: o trânsito, as apitadelas, o céu escuro, a quase noite» («Carta à senhora que ultrapassei pela direita na semana passada, na zona de Santa Apolónia», José Luís Peixoto, Visão, 13.01.2011, p. 12).
      Não pode haver, julgo, duas interpretações sobre isto: «Desacelerar atrás de si», que, em si, é uma oração, é o sujeito de «fez-me» — e nunca se separa o sujeito do verbo e este dos seus objectos com uma vírgula, quando a oração se apresentar na ordem directa. Um escritor até pode distrair-se ou julgar ter uma licença especial para desrespeitar a gramática, mas os revisores não podem ter essas veleidades nem distrair-se muito.

[Post 4373]

Dois-pontos repetidos

Bom exemplo, e talvez a tempo


      Já uma vez me perguntaram se podia haver dois sinais de dois-pontos seguidos. Respondi que sim, mas não tinha à mão uma citação de um autor credível. Ei-la agora: «Esta fisionomia fez-me corar. Olhei a fisionomia dele: era sempre a mesma fisionomia: severa e fria, triste e um não sei quê de desprezadora» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 37).
      Podia perguntar-se se a 1.ª edição já apresentava esta pontuação, mas esta edição da Parceria A. M. Pereira, com fixação de texto de Laura Arminda Bandeira Ferreira, dá-nos algumas garantias. Passados quarenta e um anos, só poria hífenes, porque é um substantivo, em «não-sei-quê»: coisa indefinida, incerta ou duvidosa.

[Post 3911]

Plural: «navajos»

Índios e aurículas


      Na página dos obituários, sob a fotografia de um velhote com cara de rato, lia-se o seguinte: «Foi um dos 29 índios navajo que eram operadores de rádio na frente do Pacífico, na II Guerra Mundial. Eles comunicavam no seu próprio dialecto, o que enganou os adversários japoneses que pensavam tratar-se de uma língua codificada ou encriptada» («Allen Dale June», Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 49).
      Não acham que ficava melhor escrever «índios navajos»? Há menos tempo os estudantes de Teologia afegãos, mais dados a empunhar as armas que a sobraçar os livros, contaminam a Terra e já vocês lhes chamam talibãs. Ao que parece, o uso do dialecto só enganou os adversários japoneses que pensavam tratar-se de uma língua codificada ou encriptada. Não enganou os outros, japoneses ou não. Demasiado subtil? Fica com a etiqueta «pontuação».
      A propósito de estudantes de Teologia, gostaria de poder dizer alguma coisa sobre aquela obra de ficção em que se pergunta: «Do not nasty little seminarians still refer to a woman’s sine qua non as auricula—the ear?» Mas ainda não posso. Isto a propósito de emprenhar pelos ouvidos.

[Post 3874]

Pontuação

Vírgulas fugitivas


      Já aqui exalcei o olho clínico (potenciado, recentemente, e assim prosaicamente desmetaforizado, com uns implantes intra-oculares — pista preciosa para um Dr. Richard Kimble lhe descobrir a identidade, a não ser que prefiram vê-lo como um alter ego meu) do revisor antibrasileiro para as repetições. Com as lentes, também recentemente, porque me lembro de conversas em que ele afirmava o contrário, foi-lhe implantado no cérebro a necessidade de um matiz na pontuação dos complementos circunstanciais de lugar. Apareceu a seguinte frase: «Em Braga, substituiu Jorge Costa em Novembro e, nos seus primeiros três jogos, somou 7 pontos, mas depois não conseguiu garantir um lugar europeu, terminando a 12 pontos de um V. Guimarães que foi 3.º classificado.» Que não, que a acção e o lugar estão tão intimamente ligados, argumentou, preleccionou, tentou convencer, que não pode haver ali vírgula, e, assim, emendou desta maneira: «Em Braga substituiu Jorge Costa em Novembro e, nos seus primeiros três jogos somou 7 pontos, mas depois não conseguiu garantir um lugar europeu terminando a 12 pontos de um V. Guimarães que foi 3.º classificado.» Isto convence alguém? Suspeito que nem o próprio sai convencido nem os demais persuadidos.

 
[Post 3873]

Pontuação: quer... quer...

Distinga-se


      «Por exemplo, quer nos homens, quer nas mulheres, o sexo oral é mais frequente nesta última geração do que na mais jovem.» É verdade que a vírgula antes da locução conjuntiva alternativa ou disjuntiva quer... quer..., quando liga elementos da mesma oração, é facultativa, mas, na minha opinião, não se deve usar nestas circunstâncias, reservando-se para os casos em que liga orações.

[Post 3857]

Pontuação

Olá, gramática


      «O que trouxe para terreiro uma categoria de nacionalidade desconhecida — até agora não havia senão franceses, franceses (incluindo o filho de imigrante húngaro que chega a Presidente). Já Chávez absteve-se dos seus longos monólogos televisionados (no programa semanal Aló Presidente), mas encontrou uma fórmula melhor para chamar atenção. Depois de dias desaparecido, telefonou para a televisão pública VTV dizendo que lhe dá “tristeza e dor passar quatro, cinco e seis horas revendo planos de guerra.”» («Sarkozy e Chávez vão para a guerra», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 52).
      Está bem, o corpo, mais maciço que marcial, de Hugo Chávez oculta a vírgula, mas ela é necessária, como em português, para isolar o vocativo: «Aló, Presidente». Se escribe coma para separar un vocativo del resto de la oración, prescrevem todas as gramáticas de espanhol.

[Post 3756]

Subordinada adverbial

Vírgula, em princípio


      Não é o único caso, mas vejam como uma oração subordinada adverbial, apesar de anteposta à principal, não se separa nunca, dada a estrutura que apresenta, por vírgula da subordinante: «Quando começa o jogo é que se vê quem é o favorito.»
      Bem teriam feito Celso Cunha e Lindley Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa: Edições João Sá da Costa, pág. 645) se tivessem apresentado uma frase com a mesma estrutura para demonstrar que só em princípio se separam com vírgula. Claro que a tendência, decerto que moldada pela ignorância, é nenhuma oração subordinada adverbial, anteposta ou posposta, ser separada por vírgula, e isto mesmo em livros revistos.

[Post 3710]

Pontuação

Pelo contrário


      Fala-se da ausência do presidente da República nas cerimónias fúnebres de Saramago, e, abruptamente, isto: «O estilo ausente de pontuação, escrita ritmada como se fosse pensamento, nunca me maravilharam» («Todos os nomes menos Cavaco», Marta Rebelo, Diário de Notícias, 29.06.2010, p. 71).
      Eu queria ter boa vontade e ver naquela «pontuação» um sentido restrito, mas nem os dicionários nem o uso mo permitem: pontuação é, e cito a definição do Dicionário Houaiss, «na língua escrita, sistema de sinais gráficos que indicam separação entre unidades significativas para tornar mais claros o texto e a frase, pausas, entonações, etc. (p. ex., ponto, vírgula, ponto e vírgula, ponto de interrogação, etc.)». Em Saramago não falta pontuação, e, descontando a heterodoxia, toda correcta, que dá gosto. Há quem diga, e isso eu vejo também, que é escrita ritmada como se fosse oralidade, não pensamento. E finalmente: só com grandes malabarismos nos arranjamos para justificar a forma verbal «maravilharam».

[Post 3644]

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