À volta do AO90

Assim anda a Justiça

       Uma juíza do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa proferiu, no domingo, uma sentença relativa à permanência de tendas no Rossio, em Lisboa, no âmbito da manifestação pelo direito à habitação. A decisão, que reconhece à requerente o direito de ali permanecer com uma tenda, ocupa nada menos de 78 páginas. Já a leram? Ora, ora... Estão a ver os efeitos deletérios do Acordo Ortográfico de 1990? Nem já a juíza sabe a quantas anda: ora escreve «protecção», ora «proteção»; ora «efectiva», ora «efetiva»; ora «directamente», ora «diretamente»; ora «respectivo», ora «respetivo»; ora «colectiva», ora «coletiva»; ora «afectação», ora «afetação». E isto numa sentença judicial em que ainda encontramos «comprensão», «ocorrereu», «efetciva», «proteçcão», «conteútdo», «caractetize», «enquandramento», «Entiades», «suscetpíveis», «excluí» em vez de «exclui», «foram elaboradas vários autos» e outras gralhas inesperadas. A confusão ortográfica está instalada, as gralhas multiplicam-se e nem a Justiça escapa. E é justo: já que quiseram. E depois ainda querem convencer-nos de que o Acordo Ortográfico veio simplificar a escrita da língua portuguesa! Quanto à matéria de facto e de direito, vou calar-me, que é o que 99 % dos comentadores de rádios e televisões deviam fazer, em vez de dizerem baboseiras sobre o que manifestamente desconhecem. Certo é que a juíza decidiu que o limite das 00h30 não é absoluto nem automático. Ficamos a saber que, para ela, a ortografia também não.
[Texto 23 807]

Ignorância

E está esgotado


      A Editorial do Ministério da Educação (sim, existe) publicou um livrinho, A Bandeira e o Hino — Símbolos de Portugal, da autoria de Ana Maria Marques e Isabel Alçada, e a publicidade assegura que «é um instrumento de trabalho educativo que permite ficar a conhecer os símbolos de Portugal». Conhecer, sim, mas mal: o músico e editor José Sacramento viu que essa partitura está errada, pelo que se deu ao trabalho de a copiar e fazer um ficheiro áudio do que lá está escrito. É o novo hino. Uma coisa é certa: é muito menos belicoso. Até nos remete para as paisagens oxigenadas do Nepal.

[Post 3968]

Como se escreve nos jornais

Nem assim


      Podia começar com isto, mas talvez seja demasiado: «Deputados queixaram-se por serem os últimos a saberem» («Passos assume ousadia mas recusa radicalismos», Cristina Rita/Luís F. Silva, Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 26). Algo mais comezinho, como isto: «Os destroços do carro, que será um Renault Laguna, foram passados a pente-fino, ontem de manhã, pelos inspectores da Polícia Judiciária» («Morre queimado», João Mira Godinho, Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 13). E isto: «Foi júri durante dois anos consecutivos do concurso Miss Bairrada, mas, este ano, José Castelo Branco foi convidado para ser o apresentador da grande final, que consagrou Carina Moura» («“É a rapariga mais linda”», V. N., Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 47).
      Apanágio dos inteligentes é, não não errarem, que todos erramos, mas corrigirem os erros que lhes apontam.

[Post 3881]

Solecismos dos políticos

Falam os políticos


      Pedro Passos Coelho na Antena 1, ontem, sobre o desfecho do caso Freeport: «Apenas digo, nesta altura, que é deplorável que em Portugal se demorem tantos anos a conduzir investigações sobre matérias desta natureza.»
      Manuela Cunha, primeira subscritora de um requerimento a pedir a classificação da linha e dirigente do Partido Ecologista «Os Verdes», sobre a construção da barragem do Foz Tua: «Se a lei neste país for cumprida, não poderão haver obras na área da linha do Tua até ser tomada uma decisão relativa à classificação ou não da linha. […] E, a partir desse momento, não podem haver obras.»

[Post 3746]

Arquivo do blogue