Como se escreve nos jornais

O orbícola

      «A filha de D. João VI, nascida em 1638, casou com Carlos II de Inglaterra em 1662. O matrimónio consolidou a aliança anglo-portuguesa, especialmente importante nas décadas subsequentes à Restauração. […] A estátua foi encomendada à escultora Audrey Flack, que concebeu uma enorme Catarina em bronze, com jóias, uma orbe nas mãos e uma tiara na cabeça» («Catarina e a estátua», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 30.04.2011, p. 3).
      Todos erramos, eu sei — mas nem todos temos um revisor a corrigir-nos. D. Catarina de Bragança era filha de D. João IV, o Restaurador (1604-1656). D. João VI, o Clemente, nasceu mais de século e meio depois (1767-1826). São ambos reis muito marcantes para serem confundidos, de qualquer modo. Consultei doze dicionários da língua portuguesa, e em todos «orbe» é registado como pertencendo ao género masculino.
[Post 4759]

Sobre «usucapião»

Uso campeão

      Em Portugal e no Brasil, o bom povo — ou, para sermos mais precisos, um ou outro beira-corgo — diz «uso campeão» querendo dizer «usucapião» (aquisição pelo uso), esse termo da linguagem do Direito. Até se lê em certos requerimentos: «Fulano vem requerer uso campeão…» É a lei do mais forte. Ah, e não existe o verbo *usucapiar, mas usucapir. E «usucapião», como a maioria das nossas palavras em –ão, é feminino, ao contrário do que se escreve até em manuais de Direito e do que defendem alguns, como Edite Estrela e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. No Brasil, creio que é maioritário o uso do género masculino, seguindo, aliás, o que ali era oficial, consignado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguêsa de 1943, por sua vez mera adesão à correcção que Rui Barbosa, esse génio (aqui a dormitar), fez no parecer sobre a redacção do Código Civil.
[Post 4732]
Actualização no dia 30 de Abril de 2011

      Como sou sempre o primeiro a afirmar, não é nada de decisivo, mas reparem que usucapião é do género feminino em italiano (usucapione), francês (usucapion), espanhol (usucapión) e inglês (usucapion). Em latim, ūsūcapĭō, -ōnis, donde nos chegou por via erudita, é palavra composta (usu+capio) e do género feminino. Talvez se possa atribuir a vacilação de género em português ao facto de usu, «uso», ser masculino.

Género de «Alhambra», de novo

Ora ainda bem

      Pronto, fomos ouvidos: «Álvaro Siza Vieira e o arquitecto Juan Domingo Santos venceram o concurso de ideias para um novo acesso ao Monumento da Alhambra, em Granada, Espanha. A proposta da dupla luso-espanhola, intitulada “Porta Nova”, sobrepôs-se a mais 40, originária de dez países, com vista à reorganização das zonas de bilheteiras e das áreas de espera destinada aos visitantes. O jurí, do Patronato da Alhambra, destacou a “sua relação paisagística com o entorno imediato, assim como a sua adequação aos objectivos do Plano Director da Alhambra”, refere o El Pais» («O encantamento de Siza», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 67).
      (Sobre «entorno», ver aqui.)


[Post 4559]

Género de «Alhambra»

Mais vacilações

      «Uma sequência de três pátios e um espelho de água — será assim a nova entrada para os palácios do Alhambra, em Granada, Espanha, desenhada pelo arquitecto português Álvaro Siza e pelo espanhol Juan Domingo Santos, vencedores do concurso de ideias para o local que na época alta chega a receber oito mil visitantes por dia» («Álvaro Siza vai construir a Porta Nova de acesso aos palácios do Alhambra», Alexandra Prado Coelho, Público, «P2»/Público, 2.03.2011, p. 8).
      Aqui também há vacilações, mas se em espanhol é do género feminino e se Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa, regista apenas a forma Alambra e o género feminino, talvez devamos ir atrás.

[Post 4508]

«Taser/taser», de novo

Vacilações

      Na página 19, feminino: «As Taser passaram a ser utilizadas nas prisões portuguesas na sequência de um incidente no EP de Pinheiro da Cruz, em Novembro de 2006» («Motim levou prisões a usar ‘Tasers’», Luís Fontes, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 19). Na página 60, masculino: «No princípio deste mês, o Presidente Sarkozy, em visita a uma esquadra em Orleães, foi apresentado a um taser: “Experimentou-o em si próprio?”, perguntou ao polícia. Este respondeu: “É a regra. Isso permite saber as capacidades do material.”» («O vídeo-choque do choque ao preso», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 60). E não é só no género que há vacilações. Taser ou taser?aqui tínhamos visto a questão. Uma coisa é certa: a arma eléctrica usada agora na Prisão de Paços de Ferreira foi uma Taser X60. «Descarga eléctrica denominada de ondas-T altera o sistema nervoso central e a pessoa atingida cai», lê-se na infografia que acompanha o primeiro dos artigos citados.

[Post 4484]

Como se escreve nos jornais

Parabéns

      Luciana Abreu e Yannick Djaló pensaram, pensaram, pensaram, pensaram... e o nome do bebé saiu, escorreito e portuguesíssimo: Lyonce Viiktórya. Apesar de toda a incompetência e ignorância que já vi em conservatórias do registo civil, palpita-me que o nome não vai ser admitido. Ah, mas não era disto que eu queria falar. Disto, sim: «Muitas vezes obrigando a correrias loucas em direcção a todos os pontos cardeais e colaterais, especialmente por a máquina de campanha ser um somatório de boas vontades e de amadorismo, a campanha que hoje termina foi diferente. Ou tentaram fazer que o fosse. Pela postura, pelo rótulo de “candidatura da cidadania”, pelo ênfase dado às propostas, em detrimento dos ataques e contra-ataques entre candidaturas, que tornam o debate político essencialmente pobre», Pedro Olavo Simões, Diário de Notícias, 21.01.2011, p. 10).
      Um dia, os jornalistas ainda saberão que o vocábulo «ênfase» é do género feminino. Entretanto, nem tudo é de rejeitar. Vejam esta frase, por exemplo: «Ou tentaram fazer que o fosse.» Em cada mil jornalistas, 999 escreveriam assim: «Ou tentaram fazer com que o fosse.»

[Post 4345]

Organização e género

A mesma conclusão


      O Wikileaks? A Wikileaks? Já tinha pensado nisto. Leiam o que Fernanda Câncio escreveu sobre a questão no Diário de Notícias: «A semana passada mencionei a palavra Wikileaks. Usei o feminino — pensava numa organização, numa fonte — mas quem reviu o texto alterou o género para masculino, presumo que para denominar o site. Ora o sucedido não só demonstra como se formata o discurso (e portanto a percepção) sem se admitir que, como é o caso, não sabemos bem do que estamos a falar, como está longe de ser um detalhe. Quando consideramos que Wikileaks é um site, assumimos que se trata de uma espécie de plataforma de recepção de conteúdos, um lugar sem, digamos, espessura; falar de Wikileaks como organização é designar uma estrutura, um conjunto de pessoas com história, hierarquia, perspectiva, propósitos e financiamento — que importa identificar e escrutinar. Do nosso entendimento do que é isso de Wikileaks depende pois, em português, o “sexo” que lhe conferimos» («O sexo dos wikileaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 7).

[Post 4238]

Sobre «carpideira»

Imagem tirada daqui
Não escreva assim

      «Não vale a pena reforçar o coro dos lamentos. Os carpideiras (não é gralha, não) disso se encarregam», escreve Ana Benavente na edição de hoje do Público («Três ou quatro coisas sobre o país actual», Público, 14.10.2010, p. 39). Não é gralha, não — é erro. Julgo vislumbrar ali uma intenção jocosa, mas não deixa de ser erro. «Carpideira» é do género feminino. Bem, parece que também há agora homens que pranteiam, a troco de dinheiro, os mortos durante os funerais. Antes eram só mulheres. (A propósito: se não temos, tirante corpoferário, vocábulo correspondente a pallbearer, a língua inglesa não tem equivalente para «carpideira». Dizem o quê? Hired mourner?) (Obrigado a R. A. pela indicação do texto do Público.)
[Post 3972]

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