Léxico: «palangreiro»

No mar

      Como decerto saberão (ou pelo menos Miguel Esteves Cardoso e Rui Tavares saberão), a Comissão Europeia remeteu para aprovação no Parlamento Europeu o novo protocolo assinado ao abrigo do Acordo de Parceria de Pesca (FPA) entre a União Europeia (UE) e Cabo Verde, que deverá ser votado esta semana. Este acordo autoriza a pesca de navios europeus, entre eles portugueses, em águas territoriais cabo-verdianas: 28 atuneiros cercadores, 35 palangreiros de superfície e 11 atuneiros com cana. Quanto aos primeiros e aos últimos, creio que não há dúvidas — mas o que é um «palangreiro» e de onde veio o termo? Os dicionários gerais da língua portuguesa não o registam. A suspeita de que era vocábulo espanhol levou-me a consultar o DRAE: cá está: palangrero é o barco de pesca com palangre, que é o cordel comprido e grosso de que pendem de espaço a espaço uns cordéis mais finos com anzóis nas extremidades. O étimo do espanhol é o vocábulo catalão palangre: «Ormeig que consisteix essencialment en una corda llarga, anomenada mare, de la qual pengen unes altres cordes més primes, anomenades braçols, cadascuna de les quals va proveïda d'un ham al seu extrem lliure

[Post 4764]

Léxico: «geopolitólogo»

Do mesmo jaez

      «Apesar dos 25 milhões de dólares oferecidos pela sua captura, Ben Laden insistia em escapar à superpotência ferida, refugiando-se naquilo que os geopolitólogos chamam Af-Pak, tanto a ameaça islamita no Afeganistão e no Paquistão se confundem hoje em dia» («Ben Laden está morto, a ameaça terrorista não», Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 16).
      O que se disse sobre «politólogo» pode dizer-se de «geopolitólogo». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não perde a oportunidade: «Sugerir a inclusão no dicionário da palavra pesquisada.» Tomem, agarrem-na.

[Post 4742]

Léxico: «melodismo»

A mesma cantiga

      «Este ano, a cantora [Poly Styrene] chegou a editar um álbum de originais, intitulado Generation Indigo, disco que, apesar de revelar heranças da música punk que a caracterizou no final dos anos 70, também evoca algum melodismo pop e uma aproximação à estética de bandas como os Gossip ou New Young Pony Club, que em muito foram beber ao trabalho de Poly Styrene» («Uma das vozes da primeira geração ‘punk’ britânica», Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 47).
      Mais uma vez, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam um termo que o Dicionário Houaiss acolhe: melodismo. Designa a preponderância do carácter melódico na composição musical.

[Post 4730]

Léxico: «enxugo»

Alta engenharia

      Nunca tinha visto a palavra «enxugo», e muito menos suspeitava que pudesse substituir — e com vantagem, pois é bem nossa — o vocábulo «drenagem», que vem do francês drainage. O contexto em que a li referia-se às obras que D. Dinis mandou fazer no paul do Ulmar. Recuamos século e meio e encontramos isto: «O enxugo dos pantanos exige de ordinario, para se effectuar, o emprego de custosas obras, de grossos capitaes, e emfim de todos os recursos da alta engenharia agricola, quer para dar sahida ás aguas accumuladas, quer para prevenir o ajuntamento de outras» (O Archivo Rural — Jornal de Agricultura, Artes e Sciencias Correlativas, n.º 1, I ano, Maio, 1858, p. 309). Na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, leio que foi Fr. Martinho, monge de Alcobaça e esmoler-mor de D. Dinis, que, a mando real, realizou esses importantes trabalhos de enxugo no paul do Ulmar. Não deviam os dicionários fazer remissões mútuas nos verbetes «enxugo» e «drenagem»? 

[Post 4692]

Linguagem

Qualidade de

      Não podemos esperar que os dicionários registem todas as palavras, mesmo que a sua frequência de uso e boa formação o justifiquem e o recomendem mesmo. Contudo, destas quatro palavras — atlanticidade, edificabilidade, maritimidade, perificidade — que os dicionários não acolhem, somente a ausência de «edificabilidade» me causa estranheza (e não sou arquitecto). Se não podemos comparar, por exemplo, «atlanticidade» com «casualidade», podemos pô-la a par de «ocidentalidade» — e esta figura nos dicionários.


[Post 4650]

Tradução: «escort girl»

Acompanhe-me

      Podemos traduzir escort girl por «acompanhante», não é assim? E em que dicionário é que a acepção do vocábulo está registada? Para os nossos dicionários, acompanhante é só a pessoa que acompanha ou auxilia outra. (É o caso, senhores dicionaristas, mas explicitem-no.) Os Brasileiros souberam forjar uma expressão deliciosa: garota de programa. Senhores dicionaristas, vamos lá registar a acepção — até para os nossos escribas não pensarem que a não podem usar.

[Post 4649]

Léxico: «sobrepesca»

À sobreposse

      «Extinção foi na década de 1980, devido à sobrepesca, poluição e barragens» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).
      Talvez nenhum dicionário registe o vocábulo «sobrepesca». E seria necessário? Bem, tanto como sobrepreço, por exemplo, ou sobrepeso, ou... Ofereço a singela definição aos dicionaristas: «pesca além do que seria normal, ou em excesso».
      Então agora vejam como neste jornal, inconscientemente, se vai piscando o olho ao Acordo Ortográfico de 1990, apesar de ser um reduto contra a nova ortografia (e uma promessa para certo nicho de mercado): «Vivia no mar e, na altura da reprodução, subia os rios portugueses para desovar. As bacias do Douro e do Guadiana eram então a casa do Acipenser sturio, a espécie de esturjão que já existiu em Portugal. Era apanhado para ser comido, não para fazer das suas ovas a famosa conserva chamada caviar, explica a bióloga Fátima Gil, do Aquário Vasco da Gama, em Lisboa. Mesmo assim, um dos seus nomes vulgares era peixedo-caviar. Chamavam-lhe também esturjão, esturgião, esturião, esturjão-real, peixe-cola, solho, solho-grande e solho-rei. Em Portugal, hoje está extinto na natureza. O último rio que visitou foi o Guadiana, na década de 1980» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).

[Post 4639]


«Mogataz/mogataces»

Substantivo masculino plural?

      Boa questão, caro C. L., mas, tanto quanto sei, em português o vocábulo só está dicionarizado no plural, mogataces. José Pedro Machado redigiu assim o verbete: «Soldados indígenas de cavalaria, que constituíam guarnição dos antigos presídios espanhóis, no Norte de África.» Em espanhol, contudo, regista-se o uso do singular, mogataz. A meu ver, pode usar-se legitimamente o singular.

[Post 4592]

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