Para maior confusão

Nem todos os santinhos

      E por Vaticano, lembrei-me do programa Quinta Essência, de João Almeida, que ontem de manhã ouvi durante escassos minutos. O entrevistado era Alberto Júlio Silva, autor de Os Nossos Santos e Beatos e Outros Que Portugal Adotou. «Se calhar», disse João Almeida, «[o povo] é humilde e sabe que não tem via directa para Deus, então pede a intercepção, pede um intermediário [...].» Agora, sim, agora é que são elas: interceção, intercepção, intercessão, intersecção, interseção... No caso vertente, impropriamente se diria que é conhecimento de outiva, porquanto o que mais falta é ouvido.
[Texto 1599]

«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]

Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

       O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.
[Texto 1546]

Léxico: «cantonamento»

Tomem lá esta

      «Segundo o DN soube, no local onde, cerca das 13.55, o choque aconteceu existe uma curva que também terá dificultado a visão do maquinista. “Como vinha de um sinal de cantonamento, que apesar de estar fechado tinha um “P” branco em fundo azul, dizem as regras que deveria circular até aos 30 quilómetros/hora e pelos dados já conhecidos ele estaria a cumprir essa regra”, avançou a fonte» («Maquinistas da Linha de Cascais não comunicam», Carlos Diogo Santos, Diário de Notícias, 4.05.2012, p. 21).
       Esta não está em nenhum dicionário, nem no mais arteiro. Num léxico de termos ferroviários da página da Refer, lá está: «Sistema de controlo da distância de separação entre comboios, dividindo a linha-férrea em secções que, normalmente, não consintam mais do que um comboio em cada secção. Um cantão pode ser fixo ou móvel.»
[Texto 1467]

Tradução: «associé»

Associados e sócios

      «Quando começou a trabalhar como advogada, depois de se ter formado na Universidade de Paris, a situação não melhorou: “Ninguém queria ter uma associada chamada Le Pen”, escreveu na autobiografia que lançou em 2006, À Contre Flots (Contra a Corrente)» («Herdeira da extrema-direita francesa tem a chave do Eliseu na mão», Catarina Reis da Fonseca e Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 27.04.2012, p. 25).
      Eu sei que se diz assim, mas faz algum sentido distinguir, numa sociedade de advocacia, entre sócios e associados? Em França, tanto quanto pude ver, os cabinets d’advocats têm apenas associés, que eu não hesitaria em traduzir por «sócios». Voilà.
[Texto 1438]

Léxico: «desdiabolizar»

Mas registam «diabolizar»

      «“O mais importante é sair do euro”, considera Tourteau Gerome, que apoia uma das ideias mais polémicas – e que mais credibilidade retira à candidatura de Marine Le Pen, que tentou desdiabolizar o partido, investindo no programa económico. “É um veneno que vai acabar por nos matar”» («Marine, a redentora», Clara Barata, Público, 19.04.2012, p. 23).
      Alguns dicionários ainda registam «desdemonizar», mas não chegam a «desdiabolizar».

[Texto 1399]

De envergonhar

Não são conjecturas, não

      «Como queremos que funcione o sistema universitário em 2020 numa conjectura em mudança?», perguntam os organizadores do 1.º Curso de Transição Universitária em Portugal, que decorrerá na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Campo Grande, nos dias 28 e 29 de Abril e terá como «facilitadores» Amandine Gameiro, André Vizinho e Gil Penha Lopes. O curso começa com as «boas vindas» e acaba, como se podia ver no programa, com uma festa. E assim vai o ensino em Portugal.

[Texto 1398]

Regência de «namorar»

Mai’nada

      «O verbo namorar é transitivo: Manuel namora Maria. [...] Na linguagem de Lisboa, porém, sobretudo na gente de pouca cultura, é vulgar ouvir-se dizer: “Fulano namora com Fulana”, “Fulana namora com Fulano”. Por analogia com expressões como ter ou andar de amores com» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, pp. 162-63).
      Agora os gramátegos defendem as duas construções. Assim, ninguém erra. Mais um contributo de peso da capital para todo o País. E antigas colónias.
[Texto 1397]

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