Sobre «seguidista»

Não só

      «Ainda que tenha obra espalhada pelo país, ficou sempre associado à Escola do Porto – mesmo se a certa altura foi “acusado” de cedência ao pós-modernismo: “É verdade que fui considerado, não direi um trânsfuga, mas um herético da Escola do Porto. Não é totalmente verdade. O que não fui foi um seguidor epidérmico da Escola. Mas os princípios, a interpretação do sítio, todos esses mecanismos que subjazem à Escola estão sempre nas coisas que fui fazendo, mas não de uma forma seguidista”, comentou à Fugas. E considerava que a Escola do Porto tinha já acabado, depois de cumprido o seu papel. “Teve o seu princípio, o seu apogeu, e acabou naturalmente.”» («Morreu Alcino Soutinho, o arquitecto da Câmara de Matosinhos», Sérgio C. Andrade, Público, 25.11.2013, p. 48).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, seguidista é a «pessoa que segue uma autoridade ou um partido sem deles fazer qualquer juízo crítico». Há definições melhores; esta, no contexto do artigo do Público, não se adequa propriamente.
[Texto 3582]

Sobre «contraprodutivo»

E a explicação é

      «A prevista redução, diminuição do número de magistrados nas novas comarcas não tem justificação, é contraprodutiva e vai ser muito má para a reorganização que está em curso» (Rui Cardoso, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), Telejornal, 25.11.2013).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como outros, apenas regista «contraproducente». Creio que até recentemente não deparávamos nunca com «contraprodutivo», que se vê agora com alguma frequência — ou não estivesse mais próximo do inglês counterproductive.

[Texto 3581]

Ou o revisor por ele

Torga sabia

      «Até ao princípio do século XVIII, São Tomé viveu o ciclo do açúcar, acompanhado e potenciado pelo crescimento do tráfico negreiro, então a principal fonte de riqueza da coroa portuguesa. E são as explorações de açúcar que constituem o precedente para a instalação das roças de cacau, a partir da segunda década de oitocentos. As diferentes tipologias destas vão acompanhando as mudanças sociais» («10 anos para salvar as roças de São Tomé», Vanessa Rato, Público, 25.11.2013, p. 27).
      Torga sabia: «Um Gama que descobrisse o caminho para a Índia em Quinhentos, desembarcasse no Mindelo em Oitocentos e jogasse o futebol agora» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 327).
[Texto 3580]

Sobre «hã»

Mais do que um espirro

      «“Hã?” em português, “huh?” em inglês, “hein?” em francês, “eh?” em espanhol. Estas palavras simples, curtas, que saem da boca sem esforço, interrogando logo ali o interlocutor e pedindo-lhe para repetir o que disse, são estranhamente parecidas. Um estudo publicado online na revista de acesso livre PLoS ONE mostra que existem na realidade inúmeros pequenos vocábulos semelhantes nas línguas humanas. [...] “Hã?” e as suas congéneres são tão excepcionais na sua uniformidade que os cientistas quiseram demonstrar que são palavras “a sério” — e não apenas “ruídos” inatos, tais como os espirros ou o choro. Uma cuidada análise fonética revelou então, explica um comunicado do Instituto Max Planck, que elas são de facto palavras porque precisam de ser aprendidas em cada língua. A prova disso, argumentam os investigadores, é que os nossos “primos” mais próximos, os chimpanzés, não emitem nenhum som desse género, os bebés também não usam essas interjeições e que as crianças só começam a usar bem o “hã?” ou afins mais ou menos a partir dos cinco anos, quando já dominam as principais estruturas gramaticais da sua língua. Para os autores, só faz sentido ter uma palavra destas, tão especializada na clarificação da compreensão, quando já existe um sistema de comunicação como a linguagem» («“Hã?”: uma palavrinha curta, simples e quase igual em todas as línguas», Ana Gerschenfeld, Público, 25.11.2013, p. 25).
[Texto 3579]

Sobre «spam»

É verdade

      «A base dos fritos empapados em gordura era uma pasta pré-cozinhada de carne de porco e cor rosada chamada Spam. Ao lado, um puré de batata de pacote, de preferência com muitos grumos, e por cima um líquido viscoso castanho a que se convencionou chamar molho. E, sim, a palavra spam para indicar correio electrónico insistente e não desejado tem que ver com o Spam dos almoços escolares e com um sketch dos Monty Python passado num café de qualidade duvidosa em que todos os pratos do menu incluem Spam — qualquer coisa como “ovo, bacon, salsicha e Spam; Spam, bacon, salsicha e Spam; Spam, ovo, Spam, Spam, bacon e Spam; Spam, Spam, Spam, ovo e Spam”, e por aí fora, terminando numa lagosta Thermidor com... Spam» («Regresso aos anos 70», Alexandra Prado Coelho, «2»/Público, 24.11.2013, p. 12).
[Texto 3578]

Futuro da língua portuguesa

E nós acreditamos

      «O Português foi considerado como um dos 10 idiomas estrangeiros mais importantes nos próximos 20 anos no Reino Unido, segundo um estudo [«Languages for the Future»] do instituto British Council, divulgou ontem o Instituto Camões» («Português língua de futuro», Metro, 22.11.2013, p. 3).
      O futuro do português está nas Ilhas Britânicas, pois claro; cá, nem já sabem pontuar.
[Texto 3577]

Sobre «inteligência»

Melhor do que интеллигенция

      «Nunca nenhum deles percebeu que um partido exigia dinheiro: dinheiro para sedes, para funcionários, para telefones, para carros, para propaganda. Pertenciam na maior parte à “inteligência” urbana (à universidade, ao funcionalismo, às profissões “liberais”), não sabiam onde ficava Figueiró dos Vinhos e traziam como toda a bagagem meia dúzia de “ideias”, que não se distinguiam nem pela originalidade, nem pela pertinência. Ao fim de pouco tempo, de umas conversas na “net” e de umas fotografias nos jornais (raramente conseguiam chegar à televisão), arranjavam maneira, quando arranjavam, de se apresentar a eleições que perdiam miseravelmente ou de que extraíam, como o Bloco, uns lugares na Assembleia da República, para vociferar às “massas”» («As fantasias do costume», Vasco Pulido Valente, Público, 24.11.2013, p. 56).
      Parece ser — não liguem às aspas — o que se costuma designar com um termo russo transliterado, intelligentsia, que é o conjunto de intelectuais de um país. Ainda não vejo esta acepção nos dicionários.

[Texto 3576]

Léxico: «umbiguista»

Ele é assim

      «Herman é Herman. Por vezes, blasé, por vezes aburguesado, por vezes, umbiguista, mas sempre interessante na forma como cavalga a atualidade, mordaz na forma como constrói as suas personagens, certeiro na escolha dos atores que chama para si» («O fim de um ciclo», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.11.2013, p. 52).
      Está apenas, tanto quanto pude comprovar, no Aulete: «contemplativo, indolente, que leva a vida a olhar para o próprio umbigo». Já o vi em autores portugueses.
[Texto 3575]

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