Como se escreve nos jornais

Pobre hífen, pobres alunos

      «De acordo com o porta-voz do estado maior das tropas francesas, o coronel Thierry Burkhard, “importantes ataques aéreos” foram levados a cabo na noite de sábado para domingo na zona de Tessalit, 200 quilómetros a norte de Tidal» («Chefes islamitas do Mali refugiam-se nas montanhas», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 22).
      Então e eu não sei que já escrevi isto?! Os jornalistas do Diário de Notícias deixaram, vá lá saber-se porquê, de usar o hífen em palavras que não mudaram com o acordo. Já vi o mesmo fenómeno em professores de Português. Claro que há erros ainda mais graves. Ontem, mostraram-me um texto de uma professora de Português em que se lia que era docente «à pelo menos metade de uma vida». Não há vidas que cheguem para curar tamanha ignorância.
[Texto 2563]

Como se escreve nos jornais

Pelo menos isso

      «No livro lançado na sexta-feira em Itália, Ali Agca conta como fugiu de uma prisão turca, na qual cumpria pena pelo assassínio de um jornalista e fala da sua estadia em Teerão, onde foi “doutrinado” durante várias semanas, antes de um suposto encontro noturno com o Guia Supremo da Revolução Iraniana, o ayhatollah [sic] Khomeini» («Memórias de Ali Agca em novo livro», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 25).
      E as aspas são para quê, pode saber-se? O homem foi doutrinado ou não foi? E estadia não é o tempo que um navio gasta, no porto, para carga e descarga? Era, dizem-me aqui. «Alguns gramáticos acham que estadia pode ser usada no mesmo sentido de estada.» E ayatollah mal escrito e sem itálico nem aspas a marcá-lo como termo de língua estrangeira. Podem não gostar — e não sei porquê — do aportuguesamento aiatola, mas então escrevam correctamente o termo estrangeiro.
[Texto 2562]


Léxico: «pesqueira»

Lampreia no Alto Minho

      «As pesqueiras são estruturas consideradas como prédios rústicos» (jornalista Andrea Neves, Jornal da Tarde, 3.01.2013). O Sr. António Castro, pescador e dono de uma pesqueira, explica mais: «Nós pagamos uma contribuição como seja um prédio rústico, uma casa ou assim. E depois pagamos uma contribuição para poder armar. E há muitas pesqueiras aqui que chamam-lhes eles interditas, que paga-se a contribuição, mas não se pode armar. É o mesmo que uma pessoa tendo a casa não pode habitá-la. A pesqueira é de uma pessoa só, foi quem a fez, os antepassados já. E depois aquilo fica dividido pelos filhos, pelos netos, e tudo mais. Depois cada um tem o seu dia aqui.»
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pesqueira é o «lugar em que há aparelhos de pesca». Quem nunca viu uma pesqueira, como é o meu caso, não vai, pela simples leitura desta definição, poder imaginar sequer do que se trata. Para o Dicionário Houaiss, que não nos leva mais longe, é o «lugar em que se encontram armações de pesca», mais ou menos a definição que já encontramos em dicionários mais antigos. Tendo em conta o que se vê na imagem, a melhor definição é a da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 21, p. 468): «Construção de madeira ou alvenaria que se instala na margem ou leito do rio, para estabelecimento de aparelhos de pesca.»
       (Quanto à contribuição, Sr. António Castro, não há-de ser elevada, pois o IMI rústico representa menos de 1 % do IMI total no País.)
[Texto 2561]

O desastre ortográfico

Último parágrafo da crónica de MST

      «Porque uma coisa é garantida: a arrogância dos poderosos não conhece arrependimento. Eles jamais voltarão atrás, reconhecendo que se enganaram, que se precipitaram, que foram atrás de vozes de sereias, que se esqueceram de que há coisas que nenhum país independente cede sem estremecer: o território, o património, a paisagem, a língua. Trataram isto como coisa menor, como facto herdado e consumado, de ministro em ministro, de governo em governo, de parlamento em parlamento, de Presidente em Presidente. Partiram do princípio de que os portugueses comem tudo, desde que bem embrulhado em frases grandiloquentes, com a assinatura dos influentes e a cumplicidade dos prudentes. Mas, dêem agora as voltas que quiserem dar aos acordos que assinaram e à língua que lhes cabia defender e não trair, cobriram-se de ridículo. Está escrito nos livros de História: um país que se humilha para agradar a terceiros, arrisca-se a nada recolher em troca, nem a gratidão dos outros nem o respeito dos seus. Apenas lhe resta o ridículo. Oxalá ele chegasse para matar de vez o triste Acordo Ortográfico!» («O desastre ortográfico», Miguel Sousa Tavares, Expresso, 19.01.2013, p. 7).
[Texto 2560]

«Município/concelho»

Que confusão?

      Há confusão entre os conceitos de município e de concelho? Juro que nunca tinha reparado. O primeiro é a instituição e o segundo o território, afirma categoricamente quem diz que há confusão. Consultemos um dicionário e uma enciclopédia. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, município é a «circunscrição [ou seja, divisão] territorial em que uma vereação exerce a sua jurisdição»; concelho, para este dicionário, é a «subdivisão do território sob administração de um presidente da câmara e das restantes entidades autárquicas». Parecem-me sinónimos. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, município é a «extensão territorial, em que se exerce a jurisdição de uma vereação» (Vol. 18, p. 169); concelho é a «circunscrição territorial em que se divide o distrito» (vol. 7, p. 345). Parecem-me sinónimos. Decerto: era preciso aprofundar mais a questão, consultar outras fontes, mas esta análise perfunctória demonstra que, a haver confusão, não é recente nem provém só de uma fonte.
[Texto 2559]

Como se escreve nos jornais

«Produtos»?

      «Segundo um estudo realizado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil [APSI] abrangendo [sic] o período entre 2000 e 2009, as varandas e as janelas são os produtos que aparecem mais vezes envolvidos em quedas (38%)» («Menino caiu da varanda enquanto o pai foi ao pão», Alfredo Teixeira e Inês Banha, Diário de Notícias, 1.02.2013, p. 17).
[Texto 2558]

Gutural, pouco democrático

Não sei se percebo...

      «Já o historiador José Pacheco Pereira está preocupado com “a tendência para tornar a língua gutural” — com menos palavras, algo que considera “pouco democrático”, evocando George Orwell, fruto da “simplificação publicitária, do marketing” ou dos usos nos SMS ou no Twitter. Convidado a falar sobre o uso do Português nos media, inquieta-o “a substituição da complexidade do pensamento por mecanismos de comunicação guturais e reduzidos à sua essência, um problema em que a comunicação social colabora para ser ‘moderna’”» («Português vai desaparecer como língua de trabalho na UE, diz Seixas da Costa», Joana Amaral Cardoso, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2557]

Os Rothschilds

Pois claro

      «Wilson disse ao Guardian e à BBC que o estudo da colecção — a que pretende dedicar-se — poderá trazer surpresas. O conservador não acredita que haja falsos entre os 500 objectos, mas admite que a investigação poderá vir a provar que alguns foram alterados ou melhorados no século XIX, quando os coleccionadores milionários, como os Rothschilds, os disputavam nos leilões e nos grandes antiquários europeus» («Jarro português do século XVI faz parte de tesouro doado ao Museu Ashmolean», Lucinda Canelas, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2556]

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