Léxico: «bovarismo»

Da literatura para a vida

      «“A sociedade procura ardentemente um guia, um raio de luz”, teoriza o psicossociólogo [Luís Rodrigues]. E não é raro que quem vai tão longe na mentira acabe por ficar convencido do que inventou. O fenómeno até tem um nome, diz o especialista: bovarismo. Acontece quando a pessoa tenta escapar à sua condição adoptando uma personalidade idealizada, como o fez Madame Bovary, a personagem de Flaubert» («Mesmo depois de descoberto como impostor, “observador da ONU” ainda desperta simpatias», Bárbara Reis e Ana Henriques, Público, 27.12.2012, p. 6).
      Até está nos dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «estado de espírito mediante o qual um indivíduo faz de si mesmo e da sua condição uma ideia falsa, como sucede com Emma Bovary, personagem principal do romance Madame Bovary, do escritor G. Flaubert, 1821-1880».
[Texto 2464]

Se temos, não precisamos

Aqui não há favelas

      «Phiona Mutesi é uma miúda de 16 anos. Nasceu no Uganda, numa favela, Katwe. Quando tinha nove anos, Phiona foi apresentada a um ex-jogador de futebol, Robert Katende. Ele mostrou-lhe um jogo tão estranho que nem sequer tinha um nome no idioma em que ela se expressava: xadrez. Ela sentiu-se atraída pelas figuras das peças. Começou a jogar. Sete anos depois, tornou-se rainha. A história dela deu um livro. A história dela faz sonhar» («Phiona Mutesi passou de analfabeta a rainha do xadrez», Vítor Ferreira, Público, 26.12.2012, p. 33).
      Sou o primeiro a defender que se use um brasileirismo na falta de termo equivalente só nosso, porque, afinal, a língua é a mesma. Não assim quando dispomos de um vocábulo para designar essa realidade. É o caso. Nunca eu diria «favela» se temos «bairro-de-lata».
[Texto 2463]

Português, língua pobre?

Absolutamente lamentável

      «Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”» («O figurão do ano», Carlos Fiolhais, Público, 26.12.2012, p. 37).
      Com péssimos exemplos como este, todos os descalabros no uso da língua parecem legitimados.

[Texto 2462]

«Filhós de canudo»

Que canudo

      Já tinha ouvido na Antena 1 e, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem da jornalista Helena Figueiras sobre as filhós de canudo do Algarve. A entrevistada disse que tinha ali a «calda para alfelar as filhós», mas a jornalista não deixou passar: «Está-me aí a dizer verbos que eu desconheço. Mel para quê?» De facto, não está dicionarizada, mas pelo contexto percebia-se muito bem. Alfelar é passar os doces, neste caso as filhós, por uma calda feita com mel, água, açúcar amarelo, limão e canela. Os dicionários só registam «alféloa» (massa de açúcar em ponto com que se fazem vários doces) e «alfeleiro» (aquele que faz ou vende alféloa). Comum às reportagens da rádio e da televisão foi terem dito que o nome destas filhós é «uma homenagem ao tempo em que eram estendidas com uma cana». Será? Ora, se estas filhós são confeccionadas com tiras de massa que se enrolam quando se fritam, o nome não evocará precisamente esta forma? É que o étimo de «canudo» significa «semelhante a cana». A cana mais grossa para fazer as vezes do tradicional rolo de madeira usar-se-ia antigamente para muitos outros tipos de filhós, e não somente para este.
[Texto 2460]

Sobre «desenhar»

Desenham muito

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).
      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.
[Texto 2457]

Léxico: «carne verde»

Talvez devesse estar

      «No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc.» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Naturalmente que os dicionários não podem registar todos os termos e expressões da língua, mas as que vão aparecendo nos meios de comunicação não deviam lá faltar. Carne verde é o nome que se dá à carne de animais abatidos na véspera do consumo, sem qualquer conservação.
[Texto 2451]

«Corrector/corretor»

Por mim

      José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista, no Telejornal de ontem (20h41): «As tentativas de manipulação da taxa Libor pelo UBS envolveram o pagamento de subornos a vários correctores e podem vir a provocar outros processos contra o banco, caso os clientes afectados reclamem.» Grafo assim, com c, a palavra para indicar a forma como o jornalista a pronunciou, mas a verdade é que, também na RTP, deceparam os cc e os pp, pelo que seja o operador na bolsa seja o que corrige, para eles é tudo igual. O Prontuário Sonoro, também da RTP, regista a pronúncia de «corretor» (/kurrétór/), um duplo disparate. Não serei eu, com toda a certeza, que lhes enviarei mais correcções ou sugestões, pois vai para um mês que lhes comuniquei o erro crassíssimo do «uxorcida» e até hoje não o corrigiram. Uma vergonha. Talvez aquilo melhore quando for comprado pela Newshold.
[Texto 2447]

«Accionista fiduciário»

Uma questão de confiança

      «Ter “fiduciários” em cargos de gestão – ou seja, alguém que aparece no papel em vez dos verdadeiros gestores – é uma prática comum em paraísos fiscais. No caso da Pineview Overseas a informação pública disponível é apenas sobre a composição da empresa e nada existe sobre os proprietários nos registos oficiais disponíveis no Panamá» («Administradores da dona da Newshold ocupam cargos iguais em milhares de empresas no Panamá», Joana Gorjão Henriques, Público, 19.12.2012, p. 2).
      Aqui está usado como se fosse substantivo (e por isso das aspas, mas desnecessárias), mas não é, como se comprova por um trecho mais à frente: «A SFM Corporate Services S.A, empresa com sede na Suíça, diz no seu site que o “accionista fiduciário é designado para impedir que o verdadeiro proprietário da empresa seja associado publicamente à propriedade da empresa”» (idem, p. 3).
      O adjectivo «fiduciário» está relacionado, como logo se percebe, com confiança — que depende de confiança, que revela confiança —, mas a acepção usada no contexto é outra: «que faz as vezes de outro».

[Texto 2445]

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