Como se escreve nos jornais

Este é vicioso

      «Hélder Rodrigues encara de frente o título no Dakar», Nuno Sousa, Público, 18.12.2012, p. 42). Vê-se logo que é um título do Público, pois claro. É pleonasmo, a não ser que os títulos tenham a cara nas costas, para fazerem esgares trocistas àqueles que os perseguem e a que eles, lábeis, escapam.

[Texto 2443]

Tradução: «bagman»

Não sei se é

      Para bagman, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora só dá duas traduções possíveis: o coloquial «caixeiro-viajante» e o coloquial australiano «vagabundo». Não é o sentido que tem numa obra que está à minha frente. Nesta, a acepção é a que leio no Oxford Dictionary: «US & Australian/NZ informal: an agent who collects or distributes the proceeds of illicit activities.» Dizem-me aqui que entre nós se deve traduzir por «homem de mão», mas tenho dúvidas. Alguma sugestão?
[Texto 2438]

Tradução: «cleat»

Becos sem saída

      Um dicionário é sempre uma obra inacabada, é claro. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, por exemplo, regista o termo «cleat», e a quarta acepção é um termo da náutica, «cunho». Recorremos depois ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora para saber o que significa «cunho», mas o verbete não regista nenhuma acepção náutica. De becos sem saída destes estão os dicionários cheios.

[Texto 2436]

Tradução: «longshoreman»

Outro problema

      Longshoreman e stevedore parece que são vocábulos sinónimos. Parece. Mesmo os falantes de inglês não sabem muito bem. Talvez sejam, mas ficam sempre dúvidas quando à nossa frente aparece uma enumeração como esta: «Longshoremen, stevedores, etc.»
[Texto 2434]

«Speakeasy»

Durante a Lei Seca

      «Deixa-te disso», é o que por aqui me recomendam. «“Speakeasy” é intraduzível. Nunca nenhum tradutor português se atreveu sequer a tentar fazê-lo.» Não sei, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora parece que o faz: «taberna clandestina». Sobretudo em comparação com o Michaelis, que se limita a definir: «lugar onde se vendiam bebidas alcoólicas clandestinamente, durante a Lei Seca».

[Texto 2433]

«Disco duro»

E é mesmo

      «As fotografias e vídeos estavam catalogados por temas mas também com os nomes pelos quais as vítimas são conhecidas nas redes de pedofilia internacionais. Armazenava os filmes em pen drives de grande capacidade ou em discos duros de computador» («Juíza recusa que pedófilo cumpra pena suspensa», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 20).
      Raramente se vê, agora, «disco duro». Amílcar Caffé, no Ciberdúvidas, afirmou que é tradução infeliz do inglês hard disk.
[Texto 2431]

Desgraçadíssimo verbo «haver»

É o fim do mundo

      Apesar do prometido fim do mundo anunciado para hoje (a que horas?), continua tudo mais ou menos na mesma. Os erros crassos com o verbo «haver», por exemplo: «Chegavam a haver professores em regime noturno, onde cada hora contava por hora e meia, a dar oito horas de aula semanais e a receber por horários completos» (Jorge Pedreira, ex-secretário de Estado adjunto e da Educação, em entrevista ao Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 5).
      Doze anos de escolaridade não chegam. Aponte aí, senhor ex-secretário de Estado adjunto e da Educação: quando o verbo «haver» exprime existência e vem acompanhado de auxiliares, a locução continua a ser impessoal. «Aos fins-de-semana gosta de acordar com o bulício das garotinhas (chegou a haver 13 em São Bento) a rirem, a tagarelarem» (Máscaras de Salazar, Fernando Dacosta. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 51).
[Texto 2418]

Tradução: «sinon»

Ora essa

      «Un nombre consideráble de tableaux, sinon tous, etc.», podia ler-se no original, e o tradutor verteu assim: «Um número considerável de quadros, se não todos, etc.» Neste caso, nem sequer basta pensar; não: basta copiar. A conjunção francesa sinon só pode traduzir-se, acho eu, por senão ou excepto. Já mais de uma vez tratámos aqui desta matéria.
[Texto 2415]

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